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Debondan's Blog

E sigo na dança…com a poesia que tudo salva.

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Teatro da Vida

Como uma deusa

O horóscopo avisava: “este é um dia em que sua sensibilidade aflora e faz com que você sinta tudo com mais intensidade, por isso procure manter uma postura positiva. É tempo de estar consciente do seu humor”.

Mas o que de fato aflorou foi o desespero. Estou há dois dias vagando como alma penada por lojas de vestidos de gala, de aluguel de roupas de festas e nada, absolutamente nada, ficou do tipo: ó, este vestido é simplesmente fantástico!

Alguns caíram como uma pedra, isso sim, num enrosco de mil forros, perdida na profusão de quilos de rendas e atolada em pedrarias. Fiquei entalada pelos braços, beliscada por zíperes e suando como uma picanha na brasa. As vendedoras, super solícitas e risonhas, me atiraram em cima uma dezena de opções, segundo elas, ideais para mim. O primeiro vestido me transportou para dentro do casamento da novela Caminho das Índias- hare baba! num modelo justo cheio de filó entremeado de ricos bordados de cima a baixo, num tom azul esverdeado, o autêntico mar do caribe plasmado no corpo da tiazona indiana. Olhei-me. Não era eu. Era a sogra do Raj.

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Claúdia Lisboa tentou me prevenir que hoje eu sentiria tudo com maior intensidade. Já no modo Desencanto, sugeri customizações. Quando vi que não faria a alegria de nenhuma das atendentes passei a entretê-las com um repertório fofo e engraçado. Seduzi uma a uma antes de dar o veredito negativo para a compra dos rocambolescos trajes das mil e uma noites. Eu precisaria escolher-cheguei à conclusão- entre parecer uma senhorinha casta ou uma piranha de alto escalão. Irmã cajazeira ou quenga do Bataclan.  

Juro que o tempo todo procurei manter a calma, o bom humor e encarei tudo com energia positiva. Para acalmar os nervos procurava dizer para mim mesma que ainda tinha um mês e pico para um dos casamentos e dois para o outro.

Não quero desesperar minha futura cunhada, mas não estou gostando nadica desta experiência de ser madrinha de casamento. Amo o preto, os tons escuros e eles não poderão me salvar nesta empreitada por causa das normas da “boa fada-madrinha que se preze”. Quem sabe até o início do próximo mês eu já tenha emagrecido uns quatro quilos e não dependa do horóscopo para me ensinar a ter postura positiva. Quiçá, a varinha de condão me ponha na frente daquele modelito elegante e sóbrio que me deixe ser eu mesma e não uma traveca mega produzida fim de carreira. E eu comece a amar esta experiência que, inshallah, terá um happy end

Partiu costureira!

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o sal da terra que somos todos nós

Eu sei que é chover no molhado. Relutei em postar algo sobre o já tão celebrado Sebastião Salgado.Esta semana assisti ao documentário “O Sal da Terra” e o que vi e ouvi, além do registro, ainda encontra eco dentro de mim. Lágrimas de emoção mal contidas ao final do filme me avisaram que era grande o “estrago” do espetacular documentário sobre mim . A semana passou e eu não consegui tirar o Tião da minha cabeça.Saíra da sala agradecendo ao universo a alma boa e sensível deste lindo humano. E o trabalho ímpar deste raro espécimen.Quero assistir de novo e de novo. E quero que nasçam mais Salgados para pôr gosto neste mundo. Ou gosto de querer continuar querendo salvar este mundo. A dor só é válida se levar à esperança. E é disto que trata o filme.

DE COMO PULAR O CARNAVAL SOZINHA

Estava com muita preguiça. Com muito calor. E sem conteúdo que -de fato- valesse a pena publicar. Vá lá. Eu gosto de escrever. É só sentar que vem qualquer coisa. E o mundo está cheio de quaisquer coisas. Pelo menos não enegreço os olhos nem a alma dos meus esparsos leitores com notícia ruim. Tenho algum mérito, portanto, como entretenedora.

Já não é de hoje que sou preterida à pesca pantaneira. O marido acenou com o convite dos amigos pescadores e com a necessidade de pôr mãos à rédea do stress. No carnaval. Acenei de volta, lenço branco esvoaçante na mão.

Se há alguém com quem eu gosto de conviver, de fazer coisas junto, este alguém sou eu. Tenho uma grande capacidade de programar atividades e inatividades para mim mesma, de preencher o dia, nem que seja de encher linguiça e ir provando.

Duas semanas de preparativos e muitas iscas arranjadas depois, partiu Kadado, ainda na quarta-feira, para encontrar-se com a trupe, numa longa e elaborada viagem até o rio….como é mesmo?

 Alexandre e Annelise foram para Búzios na sexta e eu fiquei com os bichos. Ming Yu, Nelsinho e o neto Romeu, gatinho medonho, hiperativo, filho do Alexandre, presente da amada Anne. Como bom neto, sobrou para a avó na hora da viagem romântica dos pais.

Exercitei a preguiça, acordando mais tarde. Liguei a televisão. Bah, pra quê! Por mais bobo que possa parecer, se a gente ficar num canal mais de cinco minutos, tudo começa a parecer interessante. Assim, os Cem Objetos que Mudaram o Mundo acabaram me ensinando que a máscara tribal africana é o item mais pedido do Ebay; que o cartão de crédito surgiu porque seu idealizador esqueceu a carteira em casa e não tinha como pagar o restaurante;  que o design da garrafa de coca-cola foi inspirada numa semente de cacau, que não tem nada a ver, mas que é esteticamente bonita. Tantos outros itens: a bala que matou o presidente Lincoln, o barril de carvalho, a estrela amarela dos judeus, o crucifixo, os manuscritos do mar Morto, enfim, fui enriquecida por informações preciosas. Como pudia eu estar passando pela vida sem tomar conhecimento delas? Alguma coisa foi deletada neste ínterim, obviamente. Não dá pra reter tudo que se descobre. Tomara tenha sido algo de menos valia, senão vou ficar muito P da cara.

Zapeei até parar no canal em que passava, pela enésima vez, O Exorcismo de Emily Rose. Verídico! Nunca havia pego do início, por isto sucumbi. Perto da hora em que o demo ia começar a pegar mais pesado com a moça, exibindo-se todo para o padre exorcista e a família dela, comecei a busca por outro programa, mais leve.

O colorido tétrico do desenho e a temática interessante, me prenderam a atenção até quase o final da funesta A Pequena Loja de Suicídios, animação francesa onde o filho ovelha-negra havia nascido feliz e não abandonava o sorriso da cara por mais que a família o pressionasse; originalíssimo. A macambúzia película, no entanto, começou a deprimir-me, apesar da inteligência e criatividade do seu enredo. Antes de ficar tentada a pegar uma corda para dependurar-me no lustre, desliguei e resolvi ir para a cozinha preparar o almoço.

Não tinha nada pronto. Fiz um guisadinho com a carne moída, cozinhei um ovo para picar e fiz uma salada de alface, tomate, azeitonas, cenoura cozida em palitos, palmitos, salpicada de grãos de sojinha. Comi que me lambi. Ming Yu aprovou a carninha com a ração.

À tarde resolvi assistir à Dois Dias, Uma Noite, pois gosto sempre de conferir o trabalho da Marion Cotillard, ainda mais numa indicação ao Oscar. Dei umas piscadinhas neste pós-almoço, apesar da pipoca doce a distrair minhas mãos e colo.

Voltei ao lar, passeei com Ming Yu, dei comida pela décima vez aos gatos e sentei na varanda para reler trechos do “Mr. Gwyn”. Grifei, emocionei-me de novo com o livro do clubinho de terça, enquanto cruzava a leitura e o “Café com Lucien Freud”.

Suor escorrendo, atirei-me na piscina.

Se tivesse que sambar à noite, talvez estivesse exausta.

 Sambar pra esquecer.

 E eu lá quero esquecer alguma coisa?

Zapear, apreender, deletar, ziriguidum, oba, oba!

 

 

Sábado, domingo, segunda de carnaval, fiz coisas novas. Vou poupá-los.

Na terça descansei.

Na quarta de cinzas chegou o marido e a normalidade.

Felicidade.

Eu não pulei.Já ela…

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MANCOS

Minha fé em que ele iria recuperar-se era polpuda, a possibilidade de que ele encheria nossos ouvidos de música por muitas estações, do seu jeito “sem jeito”, já era dada como certa, de que ele animaria nosso espírito com seu andar ébrio e risível. Era tanta vontade da gente, que John Boy, meu galo manco, foi até mencionado nos dados biográficos do meu novo livro, ano passado.

O que sabemos, afinal?
Fora só virar as costas, sair de férias, que ele aproveitara pra fugir das penas. 
A doença voltara galopante e o calor de mais de quarenta graus pegara carona, agarrado à perna bichada, e dera ré na vida dele. Tão breve.
Estávamos no sul para as festas.Minha empregada não quis avisar. Meu filho veio passar o ano novo no Rio e estranhou sua ausência na casa. Ligou-me para a triste revelação. John Boy havia passado o natal junto à manjedoura, adorando o menino Jesus, ao lado dos outros animais do estábulo.
Fato. Teu canto desafinado continuará me acordando às seis e vinte da matina, numa esquina qualquer das minhas memórias que não querem ser esfumadas. 
Senti tanto. A morte é leviana e sorrateira. Oportunista. Mas não consegue ceifar mais do que a vida. 
O resto todo está em mim.
John Boy, um rascunho feito à carvão, engraçado e dramático, meu frango bonito de macumba, criou vida e corre, eternizado, na tela universal, em tinta branca e vermelha, acrílica (que seca mais rápido). E ainda manca nas beirolas das minhas páginas. Um lindo marcador de livro, de pena cor de nuvem.
ps: meu marido em mais uma de suas observações: ” te dás conta de que parece ser tua sina, que todos aqueles de quem gostas morrem longe de ti ?”
Estremeci.
Chegou franguinho, tão meigo e desbotado que levou o nome de Mary Lu.
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Botou banca, nunca ovos!,saiu do armário, adivinhou jogos na Copa, arrasou corações e partiu como John Boy.
 
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John Boy, a gente te amou!
Obrigada.

DIÁRIOS DE VIAGEM-De Curitiba à Campos do Jordão- Parte Final

 

Saímos de Curitiba atrasados, segundo nosso cronograma. Por incrível que pareça, Capitão Kadado Von Trapp, nem soou seu apito em represália. Bom sinal. Uma boa noite de sono e um café da manhã cheio de malignidades.  Esbaldei-me nas cucas com farofas. Ming Yu ganhou bolo de milho e bolo úmido de coco, servidos na sua cama no quarto, pois ela é sempre a última a acordar e o faz preguiçosamente, mas, obedientemente, sob o comando do apito do capitão, que com o coração cortado, lhe enche de carinhos e desculpas.

Na véspera, mandáramos para dentro X-saladas com fritas, no próprio quarto, com preguiça de sair para o restaurante. Ficou decretado: dieta para nós três assim que recolocarmos os pés no asfalto quente do Rio. (Não estou com pressa).

A Serra da Graciosa continuava linda…e chata de escrever. Minha letra na caderneta subia e descia montanha, deslizando em garranchos a cada curva. A folha de cactus dormira bem, fora do saco.

A Régis Bittencourt amanheceu ensolarada após a chuva refrescante de ontem. O banzo ainda lutava pelo controle da direção do carro, na tentativa de fazê-lo retornar rumo ao extremo sul, nossa casa verdadeira. Mas se “o tempo é a minha casa “, como escreveu lindamente Vítor Ramil na canção…minha casa é onde estou enquanto vivo, enquanto percebo e escrevo minhas impressões.

“Temos mel puro e salame”, dizia a placa. Se eu levasse tudo o que a estrada oferece, a dieta seria adiada ad eternum.

Entramos no estado de São Paulo. Cada vez mais perto e mais longe. O verde hipnótico da vegetação me acalmava e trazia uma certa melancolia. Avistei casinhas ao longe, no meio do nada e do tudo. Procurei inventar uma história para cada uma delas. Adivinhei o semblante e o espírito de seus personagens. Da mulher, em especial. Não possuirá filtro solar, nem repelente ou creme hidratante. Será dona de mãos grossas, unhas desgastadas e vincos lhe sulcarão da cabeça aos pés. Pele queimada nas partes expostas e alguma ideia e vontade de uma vida igual à da mulher da televisão. Ela deve carregar a melancolia nos ombros diariamente; levar os desejos a passear, a arar a terra, fitar o céu com ela, colher uvas nas parreiras. Pergunto-me: quantos dos seus gritos terão conseguido encontrar a porta de saída?

O trabalho será seu psicólogo, seu remédio, seu conselheiro. Suas questões internas não esperam, nem supõem qualquer cura. Tive ganas de achar esta mulher, invadir sua casa e, por um tempo, levar o tormento da vaidade da minha frasqueira, cheia de feminices vãs, até ela. Causar-lhe um sorriso na boca cheia de espaços. Depositar nas mãos ásperas um livro cheio de palavras e gravuras, atiçar-lhe o brilho da curiosidade no olhar turvo, abrir uma fresta, cavar-lhe um furo na janela da alma, para que a luz fizesse o resto do trabalho.

Banana prata às pencas na beira do caminho. Fartura. A beleza me rasgava a vista. As montanhas com seus casacos de astrakam verde existiam arrogantemente nos seus pedestais na terra, abençoando todos os seres menores. E a mulher da casinha continuaria a contemplar a montanha com o olhar desapaixonado que as coisas corriqueiras lhe imprimem, com fastio ao fitar a velha amiga.

Seguimos em frente. O belo me alvejando por todos os lados, ricocheteando.

Pensei: há de haver sempre a gratidão a permear nossa existência. Ela torna tudo mais bonito. Aviva o olhar da gente. Expulsa demoninhos das nossas frestas.

Reserva extrativista do Mandira, li na sequência.  Posto de gasolina Meneghetti, em Registro. Ming Yu acordara rejuvenescida em uns três anos. Estava assanhada. Rolava o lombo gordo e feliz no chão do posto, desavergonhadamente, mostrando as partes pudicas volumosas a todos. Risada geral. A felicidade contagia.

Tocava a trilha do filme “Do que as mulheres gostam”. Do que gostamos? Difícil. Depende da fase.

Com a gratidão ainda percorrendo minhas veias, me percebi leve, o estômago também. Hora do rango. Uma parada no Dr. Costela. Mesa na rua, com Ming Yu ao nosso lado. Iria ganhar um prato de carne com osso e tempo para esticar as pernas e fazer xixi. Comida boa pra cachorro, literalmente, if you know what I mean.

Passar por São Paulo, que experiência tão dispensável! Ansiávamos chegar em Campos do Jordão. Trevo Dr. Fernando Legal, um nome legal para uma sinalização que distava pouco mais de 8 km de Itaquaquecetuba.

Os pensamentos, os desejos explicitados na conversa franca no carro, as reflexões sobre o que ficou para trás ( toda vez é assim )e sobre o futuro; os sonhos empilhados num canto da gente, esperando a vez de serem acordados. Abri um olho para espiar a terra de Monteiro Lobato, enquanto o carro deslizava ao largo de Taubaté, capital nacional da literatura infantil.

A 34 Km de Campos do Jordão, Ming Yu levantou a cabeça do porta-bochecha ( o braço gordo da cama dela ) e  pareceu interessar-se por algo fora da camionete. Ensaiou uma ida inesperada à janela pedindo ar fresco. Meu marido apontou-me a Casa das Facas, satisfeito e ela pareceu não ligar, como que a dizer: mais uma, papai?

Pernas cansadas, esticadas no painel do carro. Precisava urgentemente de podólogo, pedicuro e manicure. Como pode a alma estar tão limpa e refrescada e o corpo mostrar cascos escuros, ressecamentos, fios de cabelo envelhecidos e enredados, toda a rusticidade do meu ser quando este resolve cuidar de outras vertentes, de férias que está do existir para a sociedade? O homem do paraglaider, que inveja! passeava sobre o vale.

Jason Mraz cantava no rádio: “We´re only human, Yes we are”.

O túnel atravessou meu pensamento, cortando o fio da poesia.

Retiro Turístico das Flores, lia-se na placa. Ofertas de sabores da roça, café colonial a 1.300 m. A temperatura estava em 30 graus. Não carecíamos de calorias vindas de chás, chocolates quentes e bolos.

La Vie Em Rose era a trilha de chegada em Campos do Jordão, reparei.  Um corredor de hortênsias nos saudava glamourosamente. Devia chover mais tarde, anunciava o tempo abafado. Elas mereciam.

Com meu olhar de gorda avistei a Casa da Geleia dos Monges, logo na entrada da cidade. Já não eram poucos os quilos acrescidos àquela altura da viagem. No pórtico fomos presenteados com o Guia de Campos do Jordão. No canto alto da revista estava escrito simpaticamente “ Contém ar puro “. Todo o marketing local parecia induzir-nos a acreditar que estávamos no lugar certo para encontrar momentos únicos de felicidade. Até o supermercado tinha o místico nome Macktoub ( estava escrito ). Procurávamos nos guiar pela sinalização, atrás do Morro do Elefante, Alameda Turmalina, no jardim Belvedere, endereço da pousada. Que nomes tão aprazíveis, vejam só! Imaginava que programas a cidade nos reservava, tendo em mente nossa parceria grudenta com a amada Ming Yu.

Cidade bonita, em estilo germânico, limpa, com variedade de restaurantes. Com Ming, restrições severas, logo percebemos. O Horto e seu borboletário ficariam de fora,  soubemos de pronto. O teleférico, idem (Mas que raios, afinal, a gente ia querer fazer num negócio chato destes?)  O passeio de bonde, duvidamos que ela pudesse entrar.

À noite, à custo, achamos um restaurante onde ela poderia ficar ao nosso lado. Deitou-se e dormiu, inocente do incômodo causado a dois pares de casais, já na sua entrada. Um deles retirou-se à nossa chegada. Será que as pessoas acham que a gente iria levar um monstro pra passear e ainda ficar  num lugar cheio de pessoas? Nem o cheiro das salsichas alemãs pareceu interessá-la. Inalterada, espichada, ficou o tempo todo no modo off, cansada da viagem.  

 

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O ponto alto em Campos fora tirar fotos das araucárias ao cair da tarde, na frente do nosso chalé na pousada do Morro do Elefante. Era beleza sólida com um cheiro bom de sossego.

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No segundo dia, após visita ao Mosteiro das Monjas Beneditinas ( que amaram Ming Yu) e ao artesanato local, decidimos abortar nossa diária e picar mula depois do almoço. A saudade da casa e a proximidade com o Rio, nos ajudaram nesta mudança de planos. Perderíamos uma diária, mas meu marido ganharia um dia de domingo inteiro antes de voltar à labuta na segunda.

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Devo uma breve explicação aos leitores de porquê não escrevi com pormenores a viagem de ida para Rio Grande, o início da nossa jornada de um mês na estrada. A empolgação da partida tinha sido tão grande que nem lembrara de registrá-la. Os olhos, o coração estavam atentos demais, distraídos demais, queriam beber tudo sem tempo nenhum a perder.

Afinal, não há tempo para muita coisa quando se está entretido em viver.

Rio, cheguei!

Não volto para a vida que tinha, pois farei uma melhor.

 

The End

DIÁRIOS DE VIAGEM- Parte 5- De Cotiporã à Curitiba

8-1-2014

Saímos meia hora antes do pré-estabelecido, às 7:30 h já havíamos tomado um gole de suco de uva e um gole de café. Dispensamos o dono da pousada da obrigação de equipar a mesa com o restante dos alimentos do café da manhã, que originalmente, era servido às 8:00 hs na pousada. Todo o esforço para a antecipação da saída gerara um ar de felicidade extra no meu capitão Von Trapp.

Adeus, Piccollo Refuggio, adeus lindo lugar ( Cotiporã )! De volta à estrada com mala, cuia e cachorra. Partiu novamente o trem da alegria para novas aventuras pelo sul do Brasil. Ainda havia muito chão rumo à Curitiba, Campos do Jordão e, finalmente, Rio.

No caminho distraí a vista com os lugarejos para mim desconhecidos. Na estrada, o nome Pedancino, fez-me pensar se significaria “um pedancino de céu”. Me diverti com a ideia tola e continuei a divagar.Será que teria sido fundada pelo venerável conselheiro Pedancino? Que raio de nome era este, afinal? Será que alguém acorda um dia e diz: hoje vou fundar uma cidade e vou chamá-la Pedancino?

“Construção da Ponte sobre o Rio da Prata”, dizia a placa. Seguiram-se uma linda barragem, muitos parreirais, granjas, milharais, capelas, hortênsias na estrada, no seguimento rumo à Antônio Prado, cidade gaúcha que preserva um rico patrimônio histórico e que também fora fundada por imigrantes italianos.

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Ficamos encantados com suas casas de boneca. Chamou-me a atenção que eram pinturas muito novas e que as residências estavam, em sua maioria, pintadas em dois tons de tintas: azul claro, azul escuro; verde claro, verde fechado; rosa suave, rosa mais profundo. Deu gosto de admirar. O interior do Rio Grande do Sul tem mesmo um diferencial sobre o resto dos estados brasileiros. O país de Alice existe. É limpo, florido, livre da imundície da pichação. Por onde passávamos braços e mais braços labutavam numa terra em que os homens ainda continuam conquistando, no suor diário, as cartas de um baralho colorido.

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Este conjunto arquitetônico urbano da civilização italiana no Brasil ( Antônio Prado ), não à toa, foi tombado pelo patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Paramos em um dos seus inúmeros cemitérios; tão floridos e cuidados eram, que chamaram nossa atenção. Até nossa cadela concentrou-se na busca de algum parente da dinastia Ming, percorrendo comigo os jazigos, em silêncio reverencial.

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Um fato engraçado aconteceu. Paramos numa rua, ainda na cidade de Antônio Prado, para que kadado recolocasse o GPS no painel do carro, pois ele havia caído num dos sacolejos da estrada de chão que tomáramos. Enquanto ele estava entretido pegando o material necessário, observei que havíamos virado uma atração para um grupo de velhinhos sentados do lado de fora de um bar na esquina, que nos encaravam com ares divertidos. Italianos´s Bar, era o nome do tal. Dois deles levantaram-se, neste meio tempo, o marido entretido entre ferramentas e ajustes, e eu só de olho na movimentação dos dois vovôs curiosos. Abri a janela à sua aproximação cautelosa. Sorri encorajando a abordagem e soltei um bom dia. Foi a deixa para o velho simpático bigodudo falar, com seu sotaque carregado: “Pocho  fazê uma pregunta? Ficamos ali discutindo: eu dizia ao meu amigo que este negócio que vocês carregam aí em cima do caro ( carro ) é um ar condicionado e ele dizia que não.” Ai que delícia! Eu sorri divertida e brinquei, embarcando no clima amistoso que se criara: “Parece um caixão, não é? É um bagageiro, mas pode ter várias utilidades”. O marido, adorando o papo, acresceu: Também serve para levar a sogra.” Nisso, o velhinho que apostara ser um ar condicionado retrucou, de cabeça na brincadeira: “ Mas tem que ser pequena, senão tem que serrá as perna dela.”

Seguimos com os rostos sorridentes pelo nosso encontro inusitado. Tinha dado vontade de descer e ficar ali no Italiano´s Bar conversando com aquela turma simpática.

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Aos meus pés no carro, uma folha de cactus roubada da beira da estrada, parecendo uma enorme orelha de Mickey Mouse. Meu irmão Romildo ia me dar uma muda das suas, mas o plano fora esquecido entre tantos assuntos e festejos antes da nossa partida. Segundo ele, o Mickey era resistente que só. Era só enterrar no chão, mesmo depois de uma semana de arrancado. Além do cactus, debaixo dos meus pés, havia a minha bolsa e o saco com mantimentos de bordo: biscoito de amendoim de Veranópolis, cricri da serra gaúcha, folheado doce de maçã e canela, da tradicional marca pelotense Zezé, água, deliciosas minhocas sabor de frutas ( Fruit Worms Gomets ), que são balas de goma que adoramos, bolachas amanteigadas Adam, caderneta e caneta para estas anotações. Resistira ao mandolate, pelo menos.

Serra para Vacaria. Precisei parar de escrever. Estava enjoando.

Produtos coloniais me acenam e nomes engraçados nas lojas de serviços também: Cunhados Peças. Adorei!

Seguíamos a Rota dos Campos de Cima da Serra, a saber: Vacaria, Lages, Bom Jesus e São Joaquim.

Uma parada na estrada de Vacaria, Km 33, para comprar queijo Gran Formaggio, tipo Grana. Dispensamos a maçãs, não havia mais lugar no carro, aparentemente. Nem no bagageiro que já saíra lacrado, sob jura de morte para mim, se dele ousasse me aproximar para colocar mais alguma aquisição. Mais um pacote agora, em frente ao assento, sob meus esmagados pés. Só pensava: “preciso dar uma carga neste cáctus.” Ao chegar em Curitiba, iria tirá-lo do saco e deixa-lo respirar a noite toda no ar do quarto do hotel, para depois devolvê-lo à sua roupa prisional.

Amanheceu. Atravessamos a bonita Ponte sobre o Rio Pelotas, entrando em terras catarinenses. Na estrada almoçávamos em postos de gasolina, devido à limitação natural imposta pela nossa companheira de viagem. Sem problemas, à noite iríamos à forra no hotel Paraná Golf, em Curitiba, nosso destino do dia.

Mesmo de olhos fechados, meu marido dizia reconhecer quando se chegava à Lages. Segundo ele, o cheiro da madeira sinalizava perfeitamente este momento. Confirmo. Era quase palpável o odor da serragem que paira, quando da nossa passagem.

Posto Leo Ampessam-parada obrigatória para Kadado. Dona Maria Tereza nos encharcou de amor, com beijos, abraços e uma cascata de palavras gentis. Creio que ela funciona como uma personal levantadora de autoestima. E é ela mesmo quem afirma que ficaria extremamente sentida se ele não parasse lá para vê-la. Mãezona!

Ponte sobre o Rio Amola Faca. Gostei.

Almoço tumultuado no Posto Serrano, em Curitibanos. Situação confusa.Muita gente passando no lugar onde Ming Yu poderia ficar amarrada (odiamos isto-deixá-la presa longe de nós- mas precisamos entender e acatar). Compramos água para ela. Revezamento para banheiro, para olhar o interior da loja e descobrir o que há para comer. Bate papos rápidos com locais e outros clientes curiosos ao observar nossa relação amorosa  com ela. Sempre as mesmas perguntas: -Ele é velho?, referindo-se a ela. –Não, ela é adotada, não sabemos, blá, blá, blá. –Vocês são do Rio? –Não, gaúchos morando lá.

Botamos a gorda no carro e arriscamos o restaurante indicado no outro lado do posto. Tiramos a gorda do carro. Ofereceu-se água novamente, pois no stress, recusara anteriormente. Era um bufê com rodízio. Concordamos que seria melhor deixá-la no carro com os vidros abertos. Botamos a gorda de volta. Quase quarenta quilos depositados amorosamente nos braços do pai da criança. Comemos pastel de carne, para sermos mais rápidos, pois o carro estava esquentando. Rissoles de frango pra gorda. Amou. Desistimos de voltar na loja dos produtos artesanais: queijos e salames, copas, geleias, fondants de doce de leite, pés de moleque da serra, todos deixados para trás. Tristeza sem fim. Ainda com fome, no carro, nos atracamos nos biscoitos folheados Zezé e nos vermes sabor de frutas, digo, minhocas. Na adrenalina de algumas ultrapassagens devorei dezenas delas nervosamente. O carro voava lindamente. Cruzamos Santa Cecília. Curitiba estava a 242 Km.  Lebon Regis (ãh?), Fraiburgo, Caçador, avançamos para casa, cidade a cidade, no sentido inverso ao da nossa saudade dos pampas, deixados cada vez mais para trás. Os pampas com suas tantas rotas: dos vinhos, do sol, do chimarrão.

Quitandinha, Pangaré. Uma parada obrigatória no Posto Quitandinha( vulgo Posto do Pelé ), que é praticamente uma loja multimarcas engraçadíssima. Desci para espiar, a conselho do marido, que a conhece de cor. A loja do posto vende de calcinha à erva mate, passando por casacos de pele de coelho(irc), quebra-pinhão e toda sorte de tranqueirada ( vontade de garimpar!). Kadado comprou uma faca excelente que procurava há tempos, pela metade do preço. Despediu-se de Pelé e pisou no estribo.

Ainda atravessando o Paraná, Agudos do Sul, Piên ( pensei por segundos estar na Coreia ). Seguem-se mais nomes divertidos: Fruteira “Banca do irmão do Eloy e do João Purungo”. Genial!!! Banca do João Galo. Restaurante Bigode de Arame. Só mais 38 km até Curitiba. O cactus continuava a meus pés e um monte de mais “tranqueira” de comer: biscoitos de vento, biscoitos natalinos ( tipo pão de mel ), bala Toffee de chocolate branco, água, muita água.

Entramos na capital do Paraná, felizes depois do empuxo. No hotel, as lindas araucárias nos saudaram mais uma vez. Já éramos velhas conhecidas. Chamou-me a atenção em vários lugares durante o percurso, inclusive lá, um tipo a que chamei de Araucária Linda Blair, pois era coberta de parasitas, como babas esverdeadas. Pernoite perfeito. Deixei o bebê cactus mamando na mãe terra do lado de fora do quarto. Carga nele, pobrecito.


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Dia seguinte, iríamos embora rumo à Campos do Jordão.

( no próximo segmento a última parte do diário de viagem )

 

DIÁRIOS DE VIAGEM- Revisitando o sul- Parte 4 – TERMAS DA LONGEVIDADE

Adeus Alegrete, lá vamos nós para mais uma paragem já a caminho do Rio de Janeiro, mas como disse antes e repito, despacito, sem nenhuma pressa, nem vontade de voltar. Passamos por Venâncio Aires ( rota do chimarrão ), terra do querido Padre Décio, que nos casou, batizou nosso primogênito Leo, realizou a cerimônia das nossas bodas de prata e a das bodas de ouro de meus pais.

( este post é minha homenagem simples a este homem vocacionado. Soube neste momento que ele partiu agora de manhã para os braços de Deus, após uma linda missão na terra ).

Com olhos curiosos devorei a paisagem da estrada rumo às, assim chamadas, Termas da Longevidade, formada por Veranópolis, Protásio Alves, Nova Prata, Vila Flores e Cotiporã. Região Uva e Vinho da serra gaúcha.

Na chegada de Cotiporã, a beleza de corredeiras sob a ponte nos fez avivar a noção de que meu marido tinha cavado, quer dizer, escolhido um lugar desconhecido, mas bonito e que parecia mesmo valer a pena conhecer. Muita estrada de chão, por onde viemos e muita vontade de chegar logo.

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A Pousada Piccolo Refuggio era deliciosamente bonita, limpa, construída  com sistema ecoeficiente, sustentável, muito agradável  e com uma vista esplêndida para o vale.

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( na entrada de nosso chalé )

Na cidade, acabamos desconfiando que deveria ser a única, pois em todo lugar que entrávamos diziam: estão na Piccolo Refuggio? Como adivinhariam se tivesse outra pousada no lugar? Não havia muito o que fazer. Fomos ao mercado, à igreja, ao posto de gasolina. Descobri que existe cidade sem cinema ainda e não era nenhum cafundó, vejam bem.

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Mas acordar e poder selecionar e colher uvas ainda com a cara inchada,em frente ao próprio chalé, em quantos lugares a gente pode fazer isto?

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Mais tarde, rumo à Veranópolis, muito perto dali, visitamos uma cave de vinhos modestos, porém honestos ( está na moda esta palavra para designar a qualidade de um vinho) e sucumbimos à compra de uma caixa de sucos de uva, at least. Almoçamos no restaurante giratório Mirante da Serra, com oitenta metros de altura, cuja volta de 360 graus é realizada em duas horas e descortina uma linda vista, diz o folder ( já vi melhores ). Comida boa, começando com minha amada sopa de capelletti e seguida por um rodízio de massas, mais polentas, salada de radicchio, galetinhos, costelinhas de “porco-suíno”, como brinca meu pai, enfim, uma farra que acabou com um doce típico de maçã com vinho. Afinal, a maçã é a rainha da região e associada à longevidade. Pois eu acho que eu seria longeva lá só para poder comer  por muitos anos a tal sopa de cappelletti. Com o queijo ralado deles, que é tudo.

Ainda em Veranópolis, visitamos o Balneário do Retiro, composto por piscinas naturais que resultam da represa das águas do rio; o belvedere do Espigão, o Artesanato Fontana, onde adquirimos várias peças em madeira, o Parque dos Três Monges, onde o contato com a água da cachoeira com a rocha possibilitou a formação de figuras que lembram 3 monges. Descobrimos a existência de sete  vinículas e muitas coisas mais que ficaram para uma próxima ida à terra que é berço nacional da maçã.

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Balneário do Retiro-Um balneário diferente, com ovelhas pastando na casa em frente, um bucólico caminho de chegada e  locais tomando banho com a roupa do corpo..

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DSCF0455Belvedere do Espigão com a barragem ao fundo.

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Mirante da Torre-Veranópolis

À noite-grande descoberta e nossa salvação!- descobrimos o Bar Alternativo, em Cotiporã ( ãh? ah, este nome abençoado )com lanches fabulosos. Os baurus abertos, os Xburguers, todos deliciosos, sem falar na maledeta batata frita coberta de queijo e pedacinhos de bacon.

O mais bacana, no entanto, foi poder ver os casais, a juventude local a se reunir neste bar, que ficava na frente à igreja, cujas mesas e cadeiras avançavam pela pracinha adentro enquanto nos divertíamos com os sotaques locais dos jovens, que soava muito, mas muito engraçado mesmo. Era mais ou menos assim:

Havíamos descoberto, neste ínterim, que o antigo nome da cidade era Monte Vêneto, muito mais sonoro e aprazível e que trocara para Cotiporã. Bah! que troca sem nexo, pensamos nós. A explicação: o pequeno núcleo de imigrantes que chegou em 1885 eram italianos descendentes de Monte Vêneto. Mas este nome tivera que ser trocado na Segunda Guerra Mundial quando os imigrantes foram perseguidos e tiveram que esconder suas raízes. O nome feio Cotiporã, escolhido,sabe-se lá, por algum vereador cafona, pelo menos tem uma boa significação: Coti-lugar e Porã-bonito. Tá bem explicado e aplicado, mas continua a poluir meus ouvidos.

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Assim, depois de tantos programas gastronômicos, descobri que não poderia jamais morar num lugar calmo destes, sem prejuízo do corpo, que seria rapidamente transformado em corpanzil de mulher-elefante, valha-me Deus!

Ps: parece que há trilhas bacanas que são a academia do povo de lá. Ah, tá explicado!

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Aparte a gozação, o charme da simplicidade me comoveu e fez-me questionar os meus valores. Precisamos de bem menos estímulos do que temos hoje em dia. Precisamos de gente com menos pressa, que tenha tempo pra olhar no nosso olho, de um bar na esquina perto de casa pra botar a conversa em dia, de menos opção de loja, de moda, de restaurante, embora, confesso, eu vá usufruindo lindamente deles todos até minha derradeira retirada para  a vida monástica de interior.

Ps2: sem cinema vai ser brabo!

 

 Mas haverá sempre uma tarântula para ser salva  no meio da estrada. Que bom!

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DIÁRIOS DE VIAGEM- Revisitando o sul- Parte 3- A FAZENDA

Depois do balneário do Cassino ( em Rio Grande ) e rápida passada no Chuí ( parte uruguaia ), é chegada a hora da volta ao Rio de Janeiro, despacito, sem pressa alguma, retardando o inevitável retorno a um mundo tomado emprestado, onde acampamos nossa vida enquanto decide-se onde passar o final dela. E a vida, tem final, afinal? Minha vida é agora enquanto escrevo, acampada na camionete, a caminho do Alegrete.

Passamos por Bagé, Candiota, Pinheiro Machado, Pedras Altas, Dom Pedrito ( rota do Pampa) até chegar ao destino. 

 5 e 6/ janeiro/2015

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A FAZENDA 

Desci para abrir a porteira para a passagem do carro, depois de mais de vinte  quilômetros de estrada de chão; ainda não sabia, rumo a um pequeno paraíso: a Fazenda São Luiz. Uma matilha de cães recepcionou-nos ladrando e cercando-nos espalhafatosamente.  Percebi-lhes a boa índole e não tive medo. Deixei que me cheirassem, afaguei alguns e prossegui na tarefa de fechamento da rústica porteira.  Japonesinha ( apelidei-a por ter olhos puxados ), Vovô, Bicudo, a pointer sonsa e Mujica, da raça Cimarron uruguayo, também conhecido como cachorro crioulo, nos deram as boas vindas antes de qualquer indício humano.

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Mujica assinou com suas patas nosso visto de entrada na porta da camionete. Vi o brilho do desespero nos olhos do meu marido. E chegou a correr um pensamento louco: bah, em que roubada fui  metê-lo!

A prima envolveu-me num abraço gordo de saudade, que apagou qualquer resquício de dúvida. Havia pouco nos revíramos após mais de trinta anos de separação e tinha sido bom. Os assuntos acumulados numa mala cheia, que foi-se esvaziando ao som do grasnar dos patos, gansos, cocoricados dos galos, galinhas dángola e garnizés, tudo envelopado num cheiro bom de bosta de cavalos, vacas e mulas.  Na frente da varanda, Santo Expedito espiava, enternecido, nosso reencontro, enquanto a vela acesa levava meu pedido impossível ao céu e o marido e o marido da prima vasculhavam à cavalo, cantos e terras da fazenda, num dia de reis pra lá de especial.

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Depois da lida era hora do chef Mário Afonso preparar o arroz de carreteiro com as sobras do churrasco da noite anterior, que fora iluminada pela dona redonda e cúmplice Lua, pelas velas de citronela da mesa montada perto da figueira centenária, numa noite quente e estrelada do Alegrete, regada à cerveja quase congelada (o único jeito que gosto e tomo, embora muito raramente). O feijão da prima acompanhava gloriosamente o arroz. À parte disto fomos apresentados ao rústico prato, ao qual Mário chamou de “englobado”. Uma massa ( como o gaúcho costuma designar o “macarrão” ) feita com charque da melhor estirpe, diga-se de passagem, mas que não é escorrida, nem lavada. Segundo ele deveria ser consumida quente, sem tirar da panela, antes de virar cola de sapato. “ É que nem dar comida pra louco”, justificava ele, “vai de qualquer jeito”. Provei e aprovei. Repeti enquanto assistia o amido a reclamar o líquido para si, rapidamente.

Os cães foram premiados com as sobras, enquanto Ming Yu permanecia ao nosso lado, insistindo em não misturar-se. Não sei se ela sabe que é uma cadela. Mas ela sabe que sua matilha é composta por nós três.

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Ná véspera, quando da sua calorosa recepção pelos curiosos cachorros primos, fora tão assediada pelo galã apaixonado Mujica, que dera ré e caíra dentro de um tanque de lavar ovelha. “Não se preocupem”, diz Mário,” está sem remédio”. Li o sofrimento constrangido no rosto do meu marido. Ming morre de medo de água. Ela nadou desesperada- descobriu que sabia- após emergir da água turva e ser resgatada por kadado. Continuaram a nos mostrar o paraíso, desviando, quando dava tempo, dos “englobados bostais”do campo. Eta vida saudável!  Ming pingava água sem perder a pose. Cachorra da cidade, deve ter achado uma experiência infernal.

Foi surpreendente e delicadamente prazeroso descobrir que Diná e eu sofríamos de muita coisa em comum. A mesma têmpera, dinamismo, inquietude de não conseguir ficar parada, o mesmo jeito de estender a roupa no varal. Exigentes e com método próprio. Tivéramos a mesma escola, afinal; éramos fruto da mesma loucura. Tia Irene ensinara minha mãe ( caçula da família), que por sua vez ensinara à sua filha Marli e esta à sua Diná, neta de Irene. Discípulas de uma mesma mestra, não era de estranhar que caíssemos perto do pé.

A casa limpa não negava a genética Fernandes. Nosso quarto era amplo, volteado de janelas que descortinavam a natureza ao redor, com direito a sons extraordinários vindos de fora, de impossível descrição. A lua não invadia, penetrava delicadamente, mesmo assim lembrando-nos que éramos nós os invasores.

As horas corriam embaladas pelos toques precisos do relógio da sala a nos informar mais do que as horas, “que o tempo é a nossa casa”.

Mário e Diná, anfitriões atentos e queridos, nos envolveram no seu mundo de histórias.Fomos absorvidos, engolidos por elas. E quanta história havia! Remontava a séculos atrás. E Mário, com invejável memória, vivia na voz narrativa a emoção de cada fato. Emprestava realismo e atualidade à cada um deles, ilustrava-os com gestos largos e voz potente, visivelmente orgulhoso de pertencer àquela estirpe de homens e até uma mulher ( Catarina, a grande), guerreiros na vida.

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Foi um luxo ter a distração roubada apenas por pássaros de vozes fortes e timbres exóticos. Carecer de conexão com o mundo por quase o dia todo. O uso da internet limitado à porteira principal, perto de uma figueira, rezando e sem respirar.

Foi um privilégio ser-me oferecida a chance de conhecer esta outra realidade, a vida de verdade.

Foi um presente bonito, embrulhado em papel com as cores do Alegrete.

Foi uma emoção forte lembrar a canção:

“Ouve o canto gauchesco e brasileiro

Desta terra que eu amei desde guri “.

Até a volta, Alegrete!

Bônus:

Túnel do Tempo

O passado voltou a bater na minha porta, com força de derrubada. Escancarou portas, janelas, fazendo correr ventos minuanos que revisitaram momentos importantes na minha vida. 

Não tenho dúvidas. Nada é por acaso. Trinta e oito anos depois de cursar o 1º Emaús de Rio Grande ( curso de valores humanos e cristãos ) fui convidada pelos presidentes do mesmo- Selma e Rubilar, uns queridos- a participar de um momento de resgate histórico. A memória deste meu tempo de compor músicas para o movimento deu uma rasteira bonita na minha emoção ligada à  vocação para o ministério através da música. Paradoxal! Nesta hora em que me foi retirado o instrumento da voz, soube precisar dele como nunca antes. Um desejo gigante aflorou contra todos os comodismos da minha timidez na hora da exposição. Só agora eu sei verdadeiramente que o dom emprestado por Deus poderia ter sido melhor utilizado. Os jovens que lá estavam no IX ENACE ( encontro nacional dos cantores de Emaús), em Caxias do Sul, sem saber, atiraram esta verdade na minha cara.  E foi doloroso não poder cantar com eles e para eles. Talvez os tenha frustrado. Mas Deus sabe bem como foi difícil oferecer este sacrifício em forma de aceitação. Deus sabe o que faz. Eu só posso seguir seus sinais para tentar errar menos e servir mais. Mas esta tardia consciência da utilidade dos meus dons de compor e cantar não muda a beleza da gratidão por tê-los podido desfrutar. 

O universo ontem presenteou-me muitas dezenas de pessoas carinhosas e acolhedoras, por meio de quem Deus mandou mais um recado.Estou confusa. Não sei se entendi.Se Ele quiser poderá me reabilitar, reparando meu nervo laríngeo afetado. Para Ele isto não é nada.  

Neste fim de semana-que privilégio!- eu entrei no túnel do tempo e saí com o olhar mais lúcido e o coração mais grato. 

O dom do canto, enquanto isto, está engavetado. A inspiração, não. Senhor, o que queres que eu faça?

 

 

 

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