1-Punta 2009 134

É noite fria e chuvosa numa cidadezinha do interior da França. Cê e Jota saem para comprar pão para levar para o hotel onde estão hospedados, mas a única casa aberta àquela altura vende produtos para confeitaria, métier dela. Olhos brilhantes, entra e acaba adquirindo mais um termômetro para chocolate. Estava selado o meu destino e Cê ainda nem imagina como.

Cê e Jota voltam para Lisboa, onde vivem a maior  parte do tempo.

Meses depois voam para o Uruguai a fim de passar uma semana conosco na chácara. Chefes de renome internacional, com muitas, muitas estrelonas Michelin no curriculum, chegam com um tempinho danado de ruim, na semana mais negra do inverno uruguaio. Muito frio e muita chuva. Mas os papos andavam atrasados e a companhia uns dos outros era o ponto forte da reunião; havia liga e muita sede de desfrutar desta química. Outro componente infalível costuma ser a fome física, infinda, inabalável, dos quatro.  E assim tudo o que tínhamos a fazer era jogar os Jogos da Fome. Conversa aqui, risadas acolá, vinho, música, mise en place e muitos preparos com ingredientes locais. Os hongos ( cogumelos ) da chacra, as maçãs, as morcilhas, o entrecôte, o matambrito de cerdo todos coadjuvantes no jogo bonito da amizade. Inesquecível o bacalhau preparado com -pasmem- chucrute à moda do chef e uma sobremesa fantástica de massa folhada com maçã e dulce de leche local que ele acabou inventando. A salada uruguaia, as empadinhas da chef Cê ainda bailam ante meus olhos e perduram nas dobrinhas da minha aborrecida cintura. A isso nomeamos felicidade, não resta dúvida.

Num preparo acabo demonstrando interesse pelo tal termômetro francês, ignorante que sou.

Um dia antes da partida dos amigos subi ao hall que leva à sala de tevê no andar superior, fazer sei lá o que. Cê sorridente me alcança e gentil me presenteia o termômetro pelo qual fui fisgada. E bota isca nisso! No calor do momento, visceral e atabalhoada que sou, atiro meus braços ao redor do seu pescoço em eufórica gratidão. Beijo a bochecha da amiga com estalo e gosto e viro afoitamente batendo em retirada em direção à porta do closet. A câmera lenta é ligada, enquanto o pé esquerdo gira sobre a Croc de modo infeliz e vou primeiramente batendo as costas no armário atrás de mim, gerando um barulhão e o primeiro baque, seguido de um lento e ridículo movimento de queda irrefreável, tendo eu , já neste instante, consciência total do exagero da virada causadora do infortúnio, como também da imbecil trapalhada que é estar caindo sobre mim mesma, infeliz e única culpada do trauma que se segue quando o peso do corpo todo recai sobre a mão fechada que acaba de achar o solo, na queda de bunda inteira, com uma gravidade absurda, capaz de ter rachado o porcelanato e ter enterrado o cóccix nele uns bons centímetros, se bobear.

Uma dor lancinante de rompimento dentro do ombro esquerdo me pôs a chorar e a rir do ridículo papel, tudo ao mesmo tempo. Não consegui erguer mais o braço nem para frente, nem para o lado. Tudo que lembro é da dor pulsante, muito viva, e das lágrimas teimando em escorrer no meu rosto duro de vergonha e tão acostumado que está a esconder com sucesso a dor.

Cê a estas alturas, inocente de tudo, havia girado nos calcanhares e se dirigia à escada para descer. Meu marido gritou: o que foi?  Só aí Cê virou-se e deparou comigo arriada junto ao armário, amparada pela quina de uma parede, a me esvair em incredulidade e lágrimas. Tentou me erguer, no que a impedi, ciente da impotência de poder levar isso a cabo. Kadado voou escada acima e assim, com este séquito, ergui minha desonrosa bunda do piso frio e desci segurando o braço e tentando dissimular que estava péssima. Afinal, restava ainda todo aquele dia pela frente e o outro. Não poderia enxovalhar a alegria dos nossos últimos momentos junto aos amigos. Cê bradava: maldito termômetro! Agora virou nossa piada particular. “Venha me visitar, mas não me presenteie nenhum termômetro”.

O bíceps latejava, dormir era difícil. Não bastasse o tormento, concomitantemente, começou a criar-se na nádega alguma coisa monstruosa, que eu, calejada, torturada que fôra por tantos, logo soube que estava a caminho um grande furúnculo hijo de perra. Não!!! Eles de novo não! E não era um qualquer. Era o Pé Grande. Era enorme, tão profundo, tão cavernoso e doloroso quanto uma cratera do inferno. Sem brincadeira, o monstro do Lock Ness latejava na minha nádega, tão enfurecido que parecia estar enterrando suas garras na minha carne, seu lago, em busca de comida .

O braço seguia incomodando. O maior incômodo, no entanto, era a dúvida. O que eu precisaria fazer? Fui protelando, sem conhecimento de especialista confiável aqui, longe da zona segura do Brasil, torcendo pela melhoria.

O marido receitou-me um remédio que ama e proferiu a sentença: dor muscular. Três semanas depois revoltei-me contra meu médico. Consultei por telefone um traumato, amigo antigo de Curitiba, que sugeriu rompimento de manguito rotator. Não!!! De novo? ( já havia operado o ombro direito há três anos, no Rio ). Basta! proferi para mim mesma. Instaurada a busca por um especialista em ombro, segui para a terra natal bem escorada pelo marido e médico charlatão.

O Pé Grande acabara de implodir-se, deixando uma grande cratera aliviada. Um mês antes do aniversário, no inferno astral que devia estar chegando ao final- assim o desejava com afinco e esperança- a operação finalmente é marcada para 6 de setembro. Meu desfile patriótico seria participar do pelotão de bisturis, fios e âncoras, na santa casa de Rio Grande no dia seguinte.

Quase três meses depois, cá estou. Operada, sem tipoia e fazendo fisioterapia.

Mais gorda, com mais cicatrizes e muito mais história pra contar.

Fiz novos amigos, encontrei a solidariedade de pessoas novas assim como das antigas amizades. Pude voltar ao seio materno por um tempo, onde o lugar da gente está sempre preservado e morno. Pude sentir o amor e o cuidado do meu marido. Na saúde, na doença.

E posso sorrir lembrando meu tombo, meus amigos amados que foram testemunhas do ocorrido e ainda usar o termômetro francês vermelho para seduzir e atrair minha amiga Cê de novo para cá a fim de extrair dela umas lições de como usá-lo.

No mínimo, posso tirar uma boa lição de tudo: que manguitos podem se romper por excesso de gratidão.

 

Ps: o manguito do ombro direito foi rompido por excesso de gentileza ao aceitar a mão de um companheiro de jornada desconhecido que subia comigo a Pedra da Gávea, no Rio. Ele puxou meu braço com tal entusiasmo que lasquei-me.

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