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Sempre apreciei a natureza, mas, menina da cidade, nunca havia escutado os tons, menos ainda, os semitons do seu chamado. Os graves, os agudos, a escala musical toda, regida por ela magistralmente, ficavam no campo do meu imaginário. Meu lado bicho-grilo era meio muquirana. Ou estava sedado.

Agora vivo um momento de descoberta e encantamento diários, em meio a duendes, fadas, silfos, ondinas e salamandras. Sem falar nos animais silvestres que, sem nenhum sinal de assombro, passeiam pés e asas neste mundo tão seu conhecido. Não há novidade para eles no sol, na chuva, no relâmpago, no entardecer, na geada, no estalar da secura, nem no vento polinizador. Há apenas a monotonia da beleza. A obviedade das estações. O dinamismo dos despertares. É a flor, é o fruto, é o limo da pedra, a umidade do solo. A valsa do sapo, o refrão do pássaro que diz Tu/tu…Tu/tu. Meu cachorro ergue as orelhas ao chamado do seu nome. Retardada eu, num ufanismo atrasado, verdadeiro surto de alegria com a descoberta do pote de ouro, me regozijo com tanta novidade, convencida da originalidade do meu achado e de que preciso contar aos outros a maravilha recém descortinada. A natureza é mesmo um grande mestre!

O sol sempre que pode me acende fogo nos ombros, bochechas. Os pés se imundam. Solas dos pés e mãos desertificam sem nenhum constrangimento. Pele exposta, coluna acordada. Mimetizada, encontro o tom maior da pequena felicidade. Vislumbro a enormidade do plano de Deus, a grandeza da sua genialidade criativa. Me curvo.

Preciso conter o dique da emoção líquida, mas ela desliza dos olhos sua alegria agradecida; lágrimas de joelho, rolam até alcançar este papel.

Na Chacra Camino de Los Angeles é assim. O Dia mal espreguiça já tem que passar café, varrer as naturezas teimosas, aguar  os pés das plantas. “Salve, salve”, gritam o pé de alface, a salsa, o coentro. Pés de fruta observam ansiosos a chegada do regador.

Dia mal começa é já é tempo de cortar cebola, batata, lavar o arroz e a verdura. A comida medita dentro da barriga do dia. O vinho lhe entorpece os sentidos. Mas Dia tem que seguir.

Louça lavada, Dia pensa em sentar no banco embaixo da árvore da canela. Mas está tão bonito que Dia vai colher flor no jardim, plantar Physalis, tirar roupa do varal. Dia pensa numa siesta. Mas está tão bonito que vai caminhar com Tutu e Romeu, catar pinha, respirar. Preguiçosa, começa a matear, já é fim de tarde. Arrancada de suas divagações, Dia percebe que é hora de fechar a porteira. É hora de Dia se fechar. Sentar na sombra da lua e apenas existir. Dia apaga primeiro no sofá. E morre ao chegar na cama. Morrem com ele todos os animais domésticos, enquanto a sinfonia noturna canta para todos uma antiga cantiga de ninar.

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