saltimbancos

Não, eu não sou boa, não. Sou apenas alguém que enxerga. E que hoje precisa desabafar, descarregar sombras na luz das palavras deste blog. Preciso falar sobre o estado das coisas. Tenho estado impactada, consternada com o estado dos animais. O estado de abandono dos cães que proliferam, perambulam pelas ruas do meu balneário. Grande lixão de vidas. Descaso de um estado, de um município falido em todos os setores.

É com a alma devastada que acompanho em minhas caminhadas matinais a imundície galopante da praia do Cassino. E o despreparo para lidar com a grande população de animais sem teto. Ontem, caminhava com meu marido quando um cão em posição estranha atraiu-me a atenção. De costas pra nós, com a cara enfiada num canto de árvore, semi abaixado, intrigou-me. Nos acercamos. Um animal branco muito magro, com costelas aparentes, esquálido mesmo, lambia incessantemente a orelha da companheira, deitada à sua frente, como que tentando encorajar sua apática parceira. Recebeu-nos com pronta alegria, raquítico, mas não de alma, com evidente e acentuado problema na coluna. Andava com as cadeiras magras arriadas. Fiquei com eles e meu marido voltou em casa para buscar ração   (urgia). Decidimos seguir a caminhada-tentaríamos pensar o que fazer- para retornar ao fim dela. Doeu nosso coração o estado débil daquele casal.

Meio quilômetro depois chegando perto da praia saudei com um sonoro bom dia um jovem cão amarelo que acudiu com o rabo e o espírito feliz. Não tardou acompanhar-nos rua afora enquanto entrava na valeta imunda para tomar água e banho. Pobre criatura!

Solidários ao parceirinho de jornada o protegemos de ataques de matilhas andarilhas e ele, agradecido, escondia-se atrás de nossas suadas pernas. A estas alturas o time crescia. Adiante mais dois cães juntaram-se a nós. Um deles, um peludo louco de brincalhão ( que espírito invejável, quanta jovialidade!) brincava por entre nossas passadas, alegre por nosso encontro casual. Desnecessário descrever o estado do meu coração. É possível sentir dor e alegria pura e plena, concluí, porque foi exatamente o que experimentei. Alegria pelo momento e dor pelo o que o futuro imediato traria com nossa iminente separação ( o que seria deles? ). Procurei dedicar toda minha energia vivendo o momento inconsequentemente. Iniciamos o retorno. Perto de casa passamos por um cavalo magro que pastava solto na beirada da rua Rio de Janeiro, que é asfaltada e de grande movimento. Abandonado, provavelmente por algum carroceiro sem condições de manter sua alimentação. Coração no modo ¨ai, meu Deus¨, de novo. Voltamos para ver os dois branquinhos, sempre acompanhados pelo louquinho e o amigo. Fui recebida com festa pelo macho semi-paralítico e com a mesma apatia, pela parceira. Examinei-lhes os dentes. No primeiro constatei a idade avançada a julgar seus caninos pretos e desgastados. As orelhas não mostravam muito melhor condição. Como havíamos colocado dois potes cheios de ração separei um deles para os outros três saltimbancos- o amarelo, o louco e o amigo. Algariados pouco ligaram. Andava com a vasilha na mão quando meu marido me fez notar que o cavalo da Rio de Janeiro me seguia cheio de fome. Deixei-o enfiar a cara enorme dentro dela e deliciar-se. A estas já éramos uma família composta por três saltimbancos, o casal branquinho da esquina e o cavalo carioca. Logo o louco e o amarelo nos trocaram por outra matilha verdejante. O cavalo desapareceu. Mas amarelinho fiel nos seguia certo de sua aceitação por sua nova família. Com o coração estripado foi preciso grande e dolorosa habilidade para ludibriá-lo. Agradecidos por termos sido adotados por tão puro ser despedimo-nos mentalmente com a alma em estado líquido, escoando amor e dor. Viajaríamos no dia seguinte. A vida seguiria sem sabermos se um dia nos reencontraríamos. Mas penso nele seguidamente.

Não, eu não sou boa. Apenas enxergo bem. A visão faz sofrer. Mas também pode agregar muita lucidez e beleza à vida.

(O cavalo reapareceu e está sendo alimentado na minha rua. Procuro um campo para ele).

( Descobrimos em conversa com vizinhos que o casal branquinho é cuidado por alguém que mora na mesma rua. Estamos de olho porque não aparentam boa condição, enfim, não estão ao relento ou largados à própria sorte. ) 

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