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De uns tempos pra cá tenho me sentido incomodada, invadida por um cheiro esquisito no ar, no condomínio onde moro. É um elemento estranho. Percebo um componente químico em suas notas, corrosivo ao meu bem estar. Tenho deitado com um tiquinho de perfume sob as narinas para distraí-lo. Pensei: talvez seja o enxofre destilado pela politicalha da cidade. Mephisto à solta, como mencionado na coluna de Arnaldo Bloch no jornal de hoje. Ultimamente esta tem sido minha desculpa favorita para muitas das principais mazelas que me afligem. Culpar os mephistosinhos do Rio e o resto espalhado pelo país.

Só eu sinto o cheiro. Por mais que eu tente descrever, não consigo que os de casa percebam e entendam do que estou falando. Assim é também com o som emitido pelos miquinhos que vivem ao meu redor, quer dizer, na floresta da Tijuca. Meu marido não consegue captar. A emissão acontece numa frequência que Kadado não consegue alcançar. Toda a comunicação da alegre confraria passa frustrada por seus ouvidos.

Bem, também eu, desde ontem estou tentando e não consigo alcançar o planeta onde se meteu nossa pérola negra. Só queria poder beijar sua testa e dizer: obrigada, Luis, tua melodia te abra portas maiores que as que abristes na terra. Como disse Maria Bethânia em seu show na noite passada: “a estrela africana brilha no céu.” 

Hoje numa das colunas mais bonitas do jornal, alguém que escreve muito melhor do que eu, sintetizou o guerreiro. No brilhante artigo de Zélia Duncan ela o define: “bálsamo negro, lindo, ágil, profundo”. Eu acrescentaria “singular“.

Esqueci o caos, a má política, a desordem infligida aos nossos sentidos e saí no encalço do samba blue note de Luis, grata por sua passagem breve e intensa, mas com o coração uva-passa por sua saída da nossa órbita. Tudo leva a crer que perdemos também um grande ser humano. E digo isso baseada no depoimento de um motorista de Uber a mim, numa corrida no início do ano, que o conhecia bem e com quem conviveu por um bom tempo. Disse que Melodia era um homem simples e devotado à família. Era gente. Gênio e gente. Pessoa tamanho GG.

Falando em gratidão, hoje cedo abri os olhos, era ainda madrugada, vi o rosto descansado do meu marido afundado na nossa boa cama de lençóis cheirosos, senti o calor do corpo do gato Nelsinho aos nossos pés. Aguçando ligeiramente os sentidos preguiçosos escutei o ressonar alto da nossa cadela Ming Yu na sua cama ao lado dele, depois atravessei mentalmente o corredor até alcançar a presença de meu filho no quarto à frente. Imaginei-o dormindo com o gato Romeu, então sorri de contentamento e felicidade pela família que formamos. Fechei os olhos e voltei ao sono.

Taí. Este é o cheiro da satisfação plena. O perfume que dorme todo dia sob meu nariz. A frequência exata do som da vida que projetei pra mim. Fechei os olhos com a oração recém formulada no coração. O tipo de oração satisfeita que não precisou nascer da boca para existir. A melhor de todas. A que alcança e alegra -imagino eu- Aquele que tudo sabe, naquele lugar onde agora remexem as cadeiras e tamborilam os dedos Luis Melodia, Leonardo, meu pai Romildo e tantas outras boas criaturas.

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