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Meu marido voltara da Alemanha e desfazia sua mala (sim, invejem-me, ele é destes), quando acercou-se de mim, com um sorriso diferente e um quê de comoção na voz.  Alguma alteração na sua fisionomia falava. E assim, levemente aturdido, revivendo a emoção ainda tão fresca, revelou para mim sua inesperada descoberta ao ter remexido nos bolsos do seu sobretudo. – “Olha o que estava aqui e eu nem lembrava. Achei durante a viagem”.  Passou-me, num pedaço de papel, uns rabiscos feitos num avesso de folha de emissão de passagem aérea. Esticou a mão justificando que aquilo era um ensaio de carta ao Leo. Inspirada por um transbordamento de amor, teria funcionado, imagino eu, como um “ladrão” de saudade excessiva no momento em que fora escrito.  A mensagem dizia assim: “Nossa Senhora, por alguma razão, muito distante da minha capacidade de entendimento, me emprestastes um anjo para cuidar. Tão anjo que jamais exerceu o direito da fala. Tenho a sensação de que foi muito mais um presente para a Dena do que para mim, mas o amei de tal forma que me permiti achar que também foi meu. Não importa, pois curti o presente do mesmo jeito. Não entendi sua vinda e muito menos seu regresso ao céu, mas quero…”.

E aí, provavelmente, algo o interrompera impedindo-o de continuar. E o esboço fora morar no bolso do casaco. Nem precisaria prosseguir com a carta. O “não dito” pode ser completado de tantas e tão ricas maneiras que só a imaginação do amor é capaz de sugerir e formatar.

Dia 2 de agosto vem a galope ceifando o mato do tempo, cravando os cascos vigorosamente no peito dos que ficaram. Seis anos ainda com cheiro de relva molhada da chuva de ontem. Mas o rosto sorridente de Leonardo teima em esconder-se na neblina do inverno para que não soframos tanto, como se fizessem sessenta anos que distamos dele.

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