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Ando exercitando a paciência – conscientemente –  ao longo deste ano. Se percebo assim, logo subentendo que há esforço envolvido no ato.

Tenho direcionado a prática, este jogo da paciência, para as pessoas, o que concluí logo, é muito, muito mais difícil que exercê-la em relação ao andamento da vida em geral, às intercorrências cotidianas, ao inevitável burburinho vital. Há coisas que não podem ser evitadas. Pessoas podem (e devem ser evitadas quando possível). Aqui, justamente, escrevo sobre aquelas que precisamos manter no nosso mundo por algum motivo, mesmo que de modo temporário.

Requer uma dose brutal de aceitação dos outros como eles são. Para mim, confesso, tem dado certo associado à exercícios de respiração imediatamente antes de topar com o outro em questão. Rezo em voz alta, rogando a Deus a virtude da misericórdia, pois não tenho como precisar o que leva a pessoa a ser do jeito que é, só tenho uma vaga ideia das suas dificuldades e dores. Peço paciência e tento me pôr à disposição do Espírito Santo para que, de alguma forma, eu possa ser um instrumentozinho miserável e minimamente útil aqui na terra. (Neste exato momento estou sendo interrompida, pela terceira vez, pela empregada, para ver o ponto do lombo de porco no forno…respiração.Oooommmmm ). Requer senso de humor também.

Dia desses, no retorno da viagem que eu havia feito sozinha para o sul, meu marido contou-me, entre cético, indignado e divertido, que a empregada tirara ele de uma reunião no trabalho, para fazer-lhe a seguinte sugestão ao telefone: “Patrão, anota aí na lista de compras do mercado pra trazer moela, bucho e Omo, porque abri o último.”.

Noutra feita ela entrou no escritório, onde eu estava tentando ler um livro e tascou esta: – A senhora viu o filme Rubéola? – Não seria Malévola?, respondi prevendo um desfecho trágico para nossa conversa. – Não! Rubéola!!! Assim segui neste jogo de adivinhações até desvendar o verdadeiro nome do filme, que ela dizia ser lindo. – O Mistério da Libélula? arrisquei. Bingo. Era este mesmo. Respiração. Ooooommmmmmmm

Meu marido também precisa exercitar a paciência comigo. Ainda quando morava em São Paulo num fim de semana sugeri um restaurante para jantarmos e ele exaltado vociferou: Dena, isto é no Rio. Estamos em São Paulo, pô! ( fazia pouco mudáramos de lá ).Erro grau light, porque não vou entregar aqui as grandes ocasiões em que ele precisou recorrer à sua meditação para me aguentar.

Uma vez, recém operada do ombro direito, soou o apito na máquina do aeroporto, porque eu estava portando a inevitável tipoia-anão (é aquela em que a gente carrega um rolo debaixo da axila, do tamanho de um anão, para que o manguito rotator se restabeleça na posição correta). Ao recusar-me a retirá-la para passar, por motivos óbvios, tive que ser revistada, totalmente apalpada na cabide da vistoria. O quadro era tragicômico. Meu pai, tadinho, de cadeira de rodas, minha mãe de muletas porque havia colocado prótese no joelho recentemente e eu carregando o anão no sovaco para lá e pra cá. Notara na ocasião um olhar piedoso para nossa família acidentada, a julgar pelas aparências. Ou seria impressão minha?

Ando incomodada com a ignorância, com a política do país que não faz nada para dissipá-la. Por conta disto, preciso aguentar aqui em casa termos como: Misericordi!  Eu seio (sei )… Eu di (dei ) e outras pérolas da língua portuguesa. Eu sei, tô ficando velha. Mas isto não deveria me melhorar como pessoa? Afinal, tive que aprender com meus erros e que alimentar a humanidade que existe dentro de mim esse tempo todo. Praticar o amor fraterno não importa a quem. Ser gente que gosta de gente, apesar delas. 

Por isto insistirei nas minhas técnicas de respiração e de reza. Porque preciso delas para estabelecer uma conexão saudável com o belo da vida. Para não deixar-me carregar pela onda de intolerância e incompreensão tão em moda. Não quero ser mais uma na multidão a julgar e condenar os outros. Quero ser e fazer diferente. Porque creio, que só assim caminhará a humanidade para algum lugar que faça sentido. Que faça sentido, no final, ter passado por aqui.

Enquanto isso…Oooommmmmm.

 

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