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Eu só sabia que a vida estava lá do outro lado do cânion, um enorme precipício se intrometia entre nós e o outro lado. Eu não pretendia atirar-me ou desistir; não ficaria parada. Precisaria tecer a teia fina, perigosa e longa que me capacitaria chegar ao outro lado. O lado certo. Diziam que era lá onde morava a felicidade.Tecia o fio e pisava, um pouco cada vez. Arriscava cair, pois o medo me pesava mais. No trajeto, equilibrista do arame, percebi uma mudança. Já não pensava no objetivo final. Em algum momento o foco havia mudado. Já não desejava chegar do outro lado. O outro lado me alcançara e a alegria tornara leve minha coreografia e destemida a minha pisada. 

Já não almejava que o caminho tivesse sido outro, diferente daquele ao qual já me adaptara.
Era divertido e sem monotonia. E cheia de emoção viva, a trajetória.
A teia fora tecida com fio forte. Não era uma ponte sólida e previsível, mas já não temia a caminhada na frágil rede da fé que me segurava. Sabia dos perigos e não os evitava. 
Leonardo acabou chegando do outro lado antes de mim, porque aprendeu a lição mais rápido. A sua leveza o catapultou pra além do outro lado. E eu continuo na rede devagar, certa de que ela me levará onde eu mereça chegar.
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