Keane

Nesta época que antecede o Oscar fico maluquinha. Quero assistir ao maior número possível de filmes indicados, seja lá por que categoria for. Qualquer  indicação, à melhor trilha sonora, figurino, maquiagem, melhor catering para as locações de filmagem, tá valendo e age como um ímã pra lá de curioso.

E ontem eu fui. Já não é novidade para muitos o meu amor ao cinema. Quando a luz apaga, fico à vontade. Tão em casa, que descalço os chinelos ( sim, são mais práticos e rápidos de serem tirados ), desmancho a trança, tiro o frufru que prende os cabelos num rabo atrás da nuca e, se porventura o penteado for outro, arranco a piranha, o grampo, o bagulhete da moda. Alguns tipos de penteados e acessórios de cabelo não deixam a cabeça repousar confortavelmente sobre o encosto, desviando minha atenção da tela. Nota: isto vale para as mulheres de estatura baixa, como eu.

 Cinemas no Rio costumam ser gelados. Tiro discretamente minha pashmina da bolsa, envolvo os ombros ou cubro as pernas, conforme a necessidade. Houve um tempo em que eu levava uma meia soquete e a vestia delicada e disfarçadamente, tomando cuidado para me remontar toda ao fim da exibição, tentando passar incólume e parecer uma expectadora normal. Uma vez ( tenho testemunhas ) o ar condicionado estava pifado numa daquelas saletas que passam filmes alternativos aqui na Barra. Não hesitei em tirar os braços de dentro da blusa, vagarosamente, mantendo a gola enfiada na cabeça, transformando-a, num ato de desespero, numa blusa frente única super arejadinha. É claro que estes truques só são possíveis em matinés com casa quase vazia. Do jeito que mais gosto.

O incidente que descrevo abaixo aconteceu após a saída de um destes momentos gloriosos, acompanhada apenas por um saco pequeno de pipoca e um copo de coca zero.

Ontem postei uma mensagem, um grito de socorro no meu mural do facebook, que minutos após ter escrito, entendi como ridículo. Tinha sido um desabafo, já que não havia mais nada a fazer, mas capitulei em deletá-lo, pois pensei ser um termômetro para medir a opinião das pessoas. No início achei que ninguém se daria ao trabalho, afinal, quem tinha perdido algo era eu e a coisa perdida era banal. Aos poucos, alguns amigos se deram ao trabalho de serem simpáticos e consoladores. Sempre é bom. Outros não quiseram, muito provavelmente, perder tempo com esta guria mimada e fútil. Leram e não deram a mínima, pra escrever em português polido. Estão certos também. Mereci.   

A mensagem foi esta: Se algum amigo estiver indo no cinemark Downtown das Américas, por favor, pergunte se há um setor de achados e perdidos. Acabo de deixar no banheiro meu cachecol preto de lã inglesa novíssimo, originalíssimo sniffffff, qe ódio!!!! (que peguei erroneamente do armário, pensando ser meu xale de cine ) Em cima do balcão do bwc. Se há gente honesta no mundo, foi entregue e guardado. Estou ligando desesperadamente e ng atende. Darei recompensa!!!!Ou incomodarei quem estiver indo à Londres por estes tempos.

Houve quem reparou no resquício de bom humor da minha parte. Adorei. Houve quem se solidarizou, quem deu esperança, quem sentiu muito e, só por educação, não chegou a manifestar sua descrença e a escrever: perdeu, mermão.

 O filme- causador de tudo- contando a história do Stephen Hawking tinha sido tão lindo ( A teoria de tudo ), mas fora todo pelo ralo das minhas emoções assim que constatei a perda, ao chegar na garagem de casa. Idiota!!!  Por que raios fui secar as mãos naquela engenhoca secadora e deixara o cachecol em cima da pedra preta de mármore? (Lembrei na hora o marido recriminando: foco,Dena, foco!). Por que não a recolocara dentro da bolsa, apressada que estava para ligar o celular, pegar a chave, os óculos, de dentro dela, pensando no trânsito cretino do viaduto criado pela infame e mal pensada obra do metrô?

Hoje voltei ao cinema ( com um xale estepe na bolsa, obviamente e na cor laranja! )decidida a dar fim ao mistério e também para assistir ao “Big Eyes”, do Tim Burton e “Invincible”, da Angelina Jolie. Aliás, o último é tão tocante que cheguei em casa agradecendo em voz alta à bela Jolie por sua abençoada e maravilhosa direção. Me perdoem os membros desta raça chata, os críticos.

 Preparei-me para o momento. Ou o cachecol teria sido levado -o mais provável prognóstico – e quanto a isto eu estava totalmente conformada de antemão, afinal, eu era totalmente responsável por ter comido mosca no banheiro do cinema, ou então- uma chama pequena ardia e me assoprava qualquer esperançazinha boba- ele estaria lá, resgatado por alguém nobre. A esperança era chimfrim, mas real, afinal, a espécie humana sempre surpreende e muitas vezes até para o bem. Cortando a piadinha infame, tenho em minha defesa a peculiaridade de ser uma sonhadora inveterada, e neste fato reside grande parte da minha visão. Que não é cor de rosa. Existe a luz fria, todos sabem; a minha, digamos, pode ser comparada à luz branca quente, a cálida amarela, até à fluorescente, mais dispendiosa no consumo, mas ainda assim cumpridora do seu papel de deixar os ambientes mais suaves e acolhedores.

Cheguei ao Cinemark suave, quase flutuando, com a voz tão baixa, que a menina do caixa precisou aproximar o rosto do meu e pedir para repetir. “Ah, temos sim, um setor de achados e perdidos”. Ligou para alguém e parecia ter uma direção a me dar. –“Vê lá com aquele moço que recolhe os ingressos. Parece que tem algo parecido guardado”.

E tinha. Era ele! O sorriso me trespassou a alma, mas foi de surpresa. Eu já tinha deletado aquele item do meu guarda-roupa com honras. Já não o achava tão importante. As coisas nunca são, embora a gente teime em dar este peso enorme à cada porcaria colecionada durante a vida.

Voilà. Tava ali o meu lindinho cachecol preto, inteiro, e que parecia debochar de mim. Tá bom, aprendi a lição, fofo! Tem gente honesta ainda. Gente que não fica com o que não é seu. Ou que tá cagando para o meu luxinho.

Depois descobri, pasmem, num novo e demorado olhar sobre meu pretinho gostoso básico, que ele nem era inglês. Mas feito na Escócia, desde 1797. A ignorância faz a gente sofrer menos. Se eu não o achasse morreria sem saber o tamanho da perda. Tá lá na etiqueta, o ano que sinaliza o início da confecção e da tosquia de sabe-se lá quantas milhares de pobres ovelhinhas até agora.

Sou mesmo uma pessoa de sorte, mas não tanto no sentido que vocês podem deduzir.

A minha satisfação foi descobrir que a minha sorte consiste em perceber tantas lições, mesmo as pequenas. E de poder voltar a acreditar um tiquinho mais nas pessoas, apesar do país estar esta droga e a podridão estar tentando invadir cada alma.

A luz sempre existirá, enquanto fagulhas como esta teimarem em manter-se vivas.

criança no cinema

O cinema começa agora.

Divirtam-se:

 

 

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