Minha fé em que ele iria recuperar-se era polpuda, a possibilidade de que ele encheria nossos ouvidos de música por muitas estações, do seu jeito “sem jeito”, já era dada como certa, de que ele animaria nosso espírito com seu andar ébrio e risível. Era tanta vontade da gente, que John Boy, meu galo manco, foi até mencionado nos dados biográficos do meu novo livro, ano passado.

O que sabemos, afinal?
Fora só virar as costas, sair de férias, que ele aproveitara pra fugir das penas. 
A doença voltara galopante e o calor de mais de quarenta graus pegara carona, agarrado à perna bichada, e dera ré na vida dele. Tão breve.
Estávamos no sul para as festas.Minha empregada não quis avisar. Meu filho veio passar o ano novo no Rio e estranhou sua ausência na casa. Ligou-me para a triste revelação. John Boy havia passado o natal junto à manjedoura, adorando o menino Jesus, ao lado dos outros animais do estábulo.
Fato. Teu canto desafinado continuará me acordando às seis e vinte da matina, numa esquina qualquer das minhas memórias que não querem ser esfumadas. 
Senti tanto. A morte é leviana e sorrateira. Oportunista. Mas não consegue ceifar mais do que a vida. 
O resto todo está em mim.
John Boy, um rascunho feito à carvão, engraçado e dramático, meu frango bonito de macumba, criou vida e corre, eternizado, na tela universal, em tinta branca e vermelha, acrílica (que seca mais rápido). E ainda manca nas beirolas das minhas páginas. Um lindo marcador de livro, de pena cor de nuvem.
ps: meu marido em mais uma de suas observações: ” te dás conta de que parece ser tua sina, que todos aqueles de quem gostas morrem longe de ti ?”
Estremeci.
Chegou franguinho, tão meigo e desbotado que levou o nome de Mary Lu.
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Botou banca, nunca ovos!,saiu do armário, adivinhou jogos na Copa, arrasou corações e partiu como John Boy.
 
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John Boy, a gente te amou!
Obrigada.
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