Saímos de Curitiba atrasados, segundo nosso cronograma. Por incrível que pareça, Capitão Kadado Von Trapp, nem soou seu apito em represália. Bom sinal. Uma boa noite de sono e um café da manhã cheio de malignidades.  Esbaldei-me nas cucas com farofas. Ming Yu ganhou bolo de milho e bolo úmido de coco, servidos na sua cama no quarto, pois ela é sempre a última a acordar e o faz preguiçosamente, mas, obedientemente, sob o comando do apito do capitão, que com o coração cortado, lhe enche de carinhos e desculpas.

Na véspera, mandáramos para dentro X-saladas com fritas, no próprio quarto, com preguiça de sair para o restaurante. Ficou decretado: dieta para nós três assim que recolocarmos os pés no asfalto quente do Rio. (Não estou com pressa).

A Serra da Graciosa continuava linda…e chata de escrever. Minha letra na caderneta subia e descia montanha, deslizando em garranchos a cada curva. A folha de cactus dormira bem, fora do saco.

A Régis Bittencourt amanheceu ensolarada após a chuva refrescante de ontem. O banzo ainda lutava pelo controle da direção do carro, na tentativa de fazê-lo retornar rumo ao extremo sul, nossa casa verdadeira. Mas se “o tempo é a minha casa “, como escreveu lindamente Vítor Ramil na canção…minha casa é onde estou enquanto vivo, enquanto percebo e escrevo minhas impressões.

“Temos mel puro e salame”, dizia a placa. Se eu levasse tudo o que a estrada oferece, a dieta seria adiada ad eternum.

Entramos no estado de São Paulo. Cada vez mais perto e mais longe. O verde hipnótico da vegetação me acalmava e trazia uma certa melancolia. Avistei casinhas ao longe, no meio do nada e do tudo. Procurei inventar uma história para cada uma delas. Adivinhei o semblante e o espírito de seus personagens. Da mulher, em especial. Não possuirá filtro solar, nem repelente ou creme hidratante. Será dona de mãos grossas, unhas desgastadas e vincos lhe sulcarão da cabeça aos pés. Pele queimada nas partes expostas e alguma ideia e vontade de uma vida igual à da mulher da televisão. Ela deve carregar a melancolia nos ombros diariamente; levar os desejos a passear, a arar a terra, fitar o céu com ela, colher uvas nas parreiras. Pergunto-me: quantos dos seus gritos terão conseguido encontrar a porta de saída?

O trabalho será seu psicólogo, seu remédio, seu conselheiro. Suas questões internas não esperam, nem supõem qualquer cura. Tive ganas de achar esta mulher, invadir sua casa e, por um tempo, levar o tormento da vaidade da minha frasqueira, cheia de feminices vãs, até ela. Causar-lhe um sorriso na boca cheia de espaços. Depositar nas mãos ásperas um livro cheio de palavras e gravuras, atiçar-lhe o brilho da curiosidade no olhar turvo, abrir uma fresta, cavar-lhe um furo na janela da alma, para que a luz fizesse o resto do trabalho.

Banana prata às pencas na beira do caminho. Fartura. A beleza me rasgava a vista. As montanhas com seus casacos de astrakam verde existiam arrogantemente nos seus pedestais na terra, abençoando todos os seres menores. E a mulher da casinha continuaria a contemplar a montanha com o olhar desapaixonado que as coisas corriqueiras lhe imprimem, com fastio ao fitar a velha amiga.

Seguimos em frente. O belo me alvejando por todos os lados, ricocheteando.

Pensei: há de haver sempre a gratidão a permear nossa existência. Ela torna tudo mais bonito. Aviva o olhar da gente. Expulsa demoninhos das nossas frestas.

Reserva extrativista do Mandira, li na sequência.  Posto de gasolina Meneghetti, em Registro. Ming Yu acordara rejuvenescida em uns três anos. Estava assanhada. Rolava o lombo gordo e feliz no chão do posto, desavergonhadamente, mostrando as partes pudicas volumosas a todos. Risada geral. A felicidade contagia.

Tocava a trilha do filme “Do que as mulheres gostam”. Do que gostamos? Difícil. Depende da fase.

Com a gratidão ainda percorrendo minhas veias, me percebi leve, o estômago também. Hora do rango. Uma parada no Dr. Costela. Mesa na rua, com Ming Yu ao nosso lado. Iria ganhar um prato de carne com osso e tempo para esticar as pernas e fazer xixi. Comida boa pra cachorro, literalmente, if you know what I mean.

Passar por São Paulo, que experiência tão dispensável! Ansiávamos chegar em Campos do Jordão. Trevo Dr. Fernando Legal, um nome legal para uma sinalização que distava pouco mais de 8 km de Itaquaquecetuba.

Os pensamentos, os desejos explicitados na conversa franca no carro, as reflexões sobre o que ficou para trás ( toda vez é assim )e sobre o futuro; os sonhos empilhados num canto da gente, esperando a vez de serem acordados. Abri um olho para espiar a terra de Monteiro Lobato, enquanto o carro deslizava ao largo de Taubaté, capital nacional da literatura infantil.

A 34 Km de Campos do Jordão, Ming Yu levantou a cabeça do porta-bochecha ( o braço gordo da cama dela ) e  pareceu interessar-se por algo fora da camionete. Ensaiou uma ida inesperada à janela pedindo ar fresco. Meu marido apontou-me a Casa das Facas, satisfeito e ela pareceu não ligar, como que a dizer: mais uma, papai?

Pernas cansadas, esticadas no painel do carro. Precisava urgentemente de podólogo, pedicuro e manicure. Como pode a alma estar tão limpa e refrescada e o corpo mostrar cascos escuros, ressecamentos, fios de cabelo envelhecidos e enredados, toda a rusticidade do meu ser quando este resolve cuidar de outras vertentes, de férias que está do existir para a sociedade? O homem do paraglaider, que inveja! passeava sobre o vale.

Jason Mraz cantava no rádio: “We´re only human, Yes we are”.

O túnel atravessou meu pensamento, cortando o fio da poesia.

Retiro Turístico das Flores, lia-se na placa. Ofertas de sabores da roça, café colonial a 1.300 m. A temperatura estava em 30 graus. Não carecíamos de calorias vindas de chás, chocolates quentes e bolos.

La Vie Em Rose era a trilha de chegada em Campos do Jordão, reparei.  Um corredor de hortênsias nos saudava glamourosamente. Devia chover mais tarde, anunciava o tempo abafado. Elas mereciam.

Com meu olhar de gorda avistei a Casa da Geleia dos Monges, logo na entrada da cidade. Já não eram poucos os quilos acrescidos àquela altura da viagem. No pórtico fomos presenteados com o Guia de Campos do Jordão. No canto alto da revista estava escrito simpaticamente “ Contém ar puro “. Todo o marketing local parecia induzir-nos a acreditar que estávamos no lugar certo para encontrar momentos únicos de felicidade. Até o supermercado tinha o místico nome Macktoub ( estava escrito ). Procurávamos nos guiar pela sinalização, atrás do Morro do Elefante, Alameda Turmalina, no jardim Belvedere, endereço da pousada. Que nomes tão aprazíveis, vejam só! Imaginava que programas a cidade nos reservava, tendo em mente nossa parceria grudenta com a amada Ming Yu.

Cidade bonita, em estilo germânico, limpa, com variedade de restaurantes. Com Ming, restrições severas, logo percebemos. O Horto e seu borboletário ficariam de fora,  soubemos de pronto. O teleférico, idem (Mas que raios, afinal, a gente ia querer fazer num negócio chato destes?)  O passeio de bonde, duvidamos que ela pudesse entrar.

À noite, à custo, achamos um restaurante onde ela poderia ficar ao nosso lado. Deitou-se e dormiu, inocente do incômodo causado a dois pares de casais, já na sua entrada. Um deles retirou-se à nossa chegada. Será que as pessoas acham que a gente iria levar um monstro pra passear e ainda ficar  num lugar cheio de pessoas? Nem o cheiro das salsichas alemãs pareceu interessá-la. Inalterada, espichada, ficou o tempo todo no modo off, cansada da viagem.  

 

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O ponto alto em Campos fora tirar fotos das araucárias ao cair da tarde, na frente do nosso chalé na pousada do Morro do Elefante. Era beleza sólida com um cheiro bom de sossego.

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No segundo dia, após visita ao Mosteiro das Monjas Beneditinas ( que amaram Ming Yu) e ao artesanato local, decidimos abortar nossa diária e picar mula depois do almoço. A saudade da casa e a proximidade com o Rio, nos ajudaram nesta mudança de planos. Perderíamos uma diária, mas meu marido ganharia um dia de domingo inteiro antes de voltar à labuta na segunda.

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Devo uma breve explicação aos leitores de porquê não escrevi com pormenores a viagem de ida para Rio Grande, o início da nossa jornada de um mês na estrada. A empolgação da partida tinha sido tão grande que nem lembrara de registrá-la. Os olhos, o coração estavam atentos demais, distraídos demais, queriam beber tudo sem tempo nenhum a perder.

Afinal, não há tempo para muita coisa quando se está entretido em viver.

Rio, cheguei!

Não volto para a vida que tinha, pois farei uma melhor.

 

The End

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