8-1-2014

Saímos meia hora antes do pré-estabelecido, às 7:30 h já havíamos tomado um gole de suco de uva e um gole de café. Dispensamos o dono da pousada da obrigação de equipar a mesa com o restante dos alimentos do café da manhã, que originalmente, era servido às 8:00 hs na pousada. Todo o esforço para a antecipação da saída gerara um ar de felicidade extra no meu capitão Von Trapp.

Adeus, Piccollo Refuggio, adeus lindo lugar ( Cotiporã )! De volta à estrada com mala, cuia e cachorra. Partiu novamente o trem da alegria para novas aventuras pelo sul do Brasil. Ainda havia muito chão rumo à Curitiba, Campos do Jordão e, finalmente, Rio.

No caminho distraí a vista com os lugarejos para mim desconhecidos. Na estrada, o nome Pedancino, fez-me pensar se significaria “um pedancino de céu”. Me diverti com a ideia tola e continuei a divagar.Será que teria sido fundada pelo venerável conselheiro Pedancino? Que raio de nome era este, afinal? Será que alguém acorda um dia e diz: hoje vou fundar uma cidade e vou chamá-la Pedancino?

“Construção da Ponte sobre o Rio da Prata”, dizia a placa. Seguiram-se uma linda barragem, muitos parreirais, granjas, milharais, capelas, hortênsias na estrada, no seguimento rumo à Antônio Prado, cidade gaúcha que preserva um rico patrimônio histórico e que também fora fundada por imigrantes italianos.

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Ficamos encantados com suas casas de boneca. Chamou-me a atenção que eram pinturas muito novas e que as residências estavam, em sua maioria, pintadas em dois tons de tintas: azul claro, azul escuro; verde claro, verde fechado; rosa suave, rosa mais profundo. Deu gosto de admirar. O interior do Rio Grande do Sul tem mesmo um diferencial sobre o resto dos estados brasileiros. O país de Alice existe. É limpo, florido, livre da imundície da pichação. Por onde passávamos braços e mais braços labutavam numa terra em que os homens ainda continuam conquistando, no suor diário, as cartas de um baralho colorido.

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Este conjunto arquitetônico urbano da civilização italiana no Brasil ( Antônio Prado ), não à toa, foi tombado pelo patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Paramos em um dos seus inúmeros cemitérios; tão floridos e cuidados eram, que chamaram nossa atenção. Até nossa cadela concentrou-se na busca de algum parente da dinastia Ming, percorrendo comigo os jazigos, em silêncio reverencial.

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Um fato engraçado aconteceu. Paramos numa rua, ainda na cidade de Antônio Prado, para que kadado recolocasse o GPS no painel do carro, pois ele havia caído num dos sacolejos da estrada de chão que tomáramos. Enquanto ele estava entretido pegando o material necessário, observei que havíamos virado uma atração para um grupo de velhinhos sentados do lado de fora de um bar na esquina, que nos encaravam com ares divertidos. Italianos´s Bar, era o nome do tal. Dois deles levantaram-se, neste meio tempo, o marido entretido entre ferramentas e ajustes, e eu só de olho na movimentação dos dois vovôs curiosos. Abri a janela à sua aproximação cautelosa. Sorri encorajando a abordagem e soltei um bom dia. Foi a deixa para o velho simpático bigodudo falar, com seu sotaque carregado: “Pocho  fazê uma pregunta? Ficamos ali discutindo: eu dizia ao meu amigo que este negócio que vocês carregam aí em cima do caro ( carro ) é um ar condicionado e ele dizia que não.” Ai que delícia! Eu sorri divertida e brinquei, embarcando no clima amistoso que se criara: “Parece um caixão, não é? É um bagageiro, mas pode ter várias utilidades”. O marido, adorando o papo, acresceu: Também serve para levar a sogra.” Nisso, o velhinho que apostara ser um ar condicionado retrucou, de cabeça na brincadeira: “ Mas tem que ser pequena, senão tem que serrá as perna dela.”

Seguimos com os rostos sorridentes pelo nosso encontro inusitado. Tinha dado vontade de descer e ficar ali no Italiano´s Bar conversando com aquela turma simpática.

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Aos meus pés no carro, uma folha de cactus roubada da beira da estrada, parecendo uma enorme orelha de Mickey Mouse. Meu irmão Romildo ia me dar uma muda das suas, mas o plano fora esquecido entre tantos assuntos e festejos antes da nossa partida. Segundo ele, o Mickey era resistente que só. Era só enterrar no chão, mesmo depois de uma semana de arrancado. Além do cactus, debaixo dos meus pés, havia a minha bolsa e o saco com mantimentos de bordo: biscoito de amendoim de Veranópolis, cricri da serra gaúcha, folheado doce de maçã e canela, da tradicional marca pelotense Zezé, água, deliciosas minhocas sabor de frutas ( Fruit Worms Gomets ), que são balas de goma que adoramos, bolachas amanteigadas Adam, caderneta e caneta para estas anotações. Resistira ao mandolate, pelo menos.

Serra para Vacaria. Precisei parar de escrever. Estava enjoando.

Produtos coloniais me acenam e nomes engraçados nas lojas de serviços também: Cunhados Peças. Adorei!

Seguíamos a Rota dos Campos de Cima da Serra, a saber: Vacaria, Lages, Bom Jesus e São Joaquim.

Uma parada na estrada de Vacaria, Km 33, para comprar queijo Gran Formaggio, tipo Grana. Dispensamos a maçãs, não havia mais lugar no carro, aparentemente. Nem no bagageiro que já saíra lacrado, sob jura de morte para mim, se dele ousasse me aproximar para colocar mais alguma aquisição. Mais um pacote agora, em frente ao assento, sob meus esmagados pés. Só pensava: “preciso dar uma carga neste cáctus.” Ao chegar em Curitiba, iria tirá-lo do saco e deixa-lo respirar a noite toda no ar do quarto do hotel, para depois devolvê-lo à sua roupa prisional.

Amanheceu. Atravessamos a bonita Ponte sobre o Rio Pelotas, entrando em terras catarinenses. Na estrada almoçávamos em postos de gasolina, devido à limitação natural imposta pela nossa companheira de viagem. Sem problemas, à noite iríamos à forra no hotel Paraná Golf, em Curitiba, nosso destino do dia.

Mesmo de olhos fechados, meu marido dizia reconhecer quando se chegava à Lages. Segundo ele, o cheiro da madeira sinalizava perfeitamente este momento. Confirmo. Era quase palpável o odor da serragem que paira, quando da nossa passagem.

Posto Leo Ampessam-parada obrigatória para Kadado. Dona Maria Tereza nos encharcou de amor, com beijos, abraços e uma cascata de palavras gentis. Creio que ela funciona como uma personal levantadora de autoestima. E é ela mesmo quem afirma que ficaria extremamente sentida se ele não parasse lá para vê-la. Mãezona!

Ponte sobre o Rio Amola Faca. Gostei.

Almoço tumultuado no Posto Serrano, em Curitibanos. Situação confusa.Muita gente passando no lugar onde Ming Yu poderia ficar amarrada (odiamos isto-deixá-la presa longe de nós- mas precisamos entender e acatar). Compramos água para ela. Revezamento para banheiro, para olhar o interior da loja e descobrir o que há para comer. Bate papos rápidos com locais e outros clientes curiosos ao observar nossa relação amorosa  com ela. Sempre as mesmas perguntas: -Ele é velho?, referindo-se a ela. –Não, ela é adotada, não sabemos, blá, blá, blá. –Vocês são do Rio? –Não, gaúchos morando lá.

Botamos a gorda no carro e arriscamos o restaurante indicado no outro lado do posto. Tiramos a gorda do carro. Ofereceu-se água novamente, pois no stress, recusara anteriormente. Era um bufê com rodízio. Concordamos que seria melhor deixá-la no carro com os vidros abertos. Botamos a gorda de volta. Quase quarenta quilos depositados amorosamente nos braços do pai da criança. Comemos pastel de carne, para sermos mais rápidos, pois o carro estava esquentando. Rissoles de frango pra gorda. Amou. Desistimos de voltar na loja dos produtos artesanais: queijos e salames, copas, geleias, fondants de doce de leite, pés de moleque da serra, todos deixados para trás. Tristeza sem fim. Ainda com fome, no carro, nos atracamos nos biscoitos folheados Zezé e nos vermes sabor de frutas, digo, minhocas. Na adrenalina de algumas ultrapassagens devorei dezenas delas nervosamente. O carro voava lindamente. Cruzamos Santa Cecília. Curitiba estava a 242 Km.  Lebon Regis (ãh?), Fraiburgo, Caçador, avançamos para casa, cidade a cidade, no sentido inverso ao da nossa saudade dos pampas, deixados cada vez mais para trás. Os pampas com suas tantas rotas: dos vinhos, do sol, do chimarrão.

Quitandinha, Pangaré. Uma parada obrigatória no Posto Quitandinha( vulgo Posto do Pelé ), que é praticamente uma loja multimarcas engraçadíssima. Desci para espiar, a conselho do marido, que a conhece de cor. A loja do posto vende de calcinha à erva mate, passando por casacos de pele de coelho(irc), quebra-pinhão e toda sorte de tranqueirada ( vontade de garimpar!). Kadado comprou uma faca excelente que procurava há tempos, pela metade do preço. Despediu-se de Pelé e pisou no estribo.

Ainda atravessando o Paraná, Agudos do Sul, Piên ( pensei por segundos estar na Coreia ). Seguem-se mais nomes divertidos: Fruteira “Banca do irmão do Eloy e do João Purungo”. Genial!!! Banca do João Galo. Restaurante Bigode de Arame. Só mais 38 km até Curitiba. O cactus continuava a meus pés e um monte de mais “tranqueira” de comer: biscoitos de vento, biscoitos natalinos ( tipo pão de mel ), bala Toffee de chocolate branco, água, muita água.

Entramos na capital do Paraná, felizes depois do empuxo. No hotel, as lindas araucárias nos saudaram mais uma vez. Já éramos velhas conhecidas. Chamou-me a atenção em vários lugares durante o percurso, inclusive lá, um tipo a que chamei de Araucária Linda Blair, pois era coberta de parasitas, como babas esverdeadas. Pernoite perfeito. Deixei o bebê cactus mamando na mãe terra do lado de fora do quarto. Carga nele, pobrecito.


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Dia seguinte, iríamos embora rumo à Campos do Jordão.

( no próximo segmento a última parte do diário de viagem )

 

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