Depois do balneário do Cassino ( em Rio Grande ) e rápida passada no Chuí ( parte uruguaia ), é chegada a hora da volta ao Rio de Janeiro, despacito, sem pressa alguma, retardando o inevitável retorno a um mundo tomado emprestado, onde acampamos nossa vida enquanto decide-se onde passar o final dela. E a vida, tem final, afinal? Minha vida é agora enquanto escrevo, acampada na camionete, a caminho do Alegrete.

Passamos por Bagé, Candiota, Pinheiro Machado, Pedras Altas, Dom Pedrito ( rota do Pampa) até chegar ao destino. 

 5 e 6/ janeiro/2015

DSCF0290

A FAZENDA 

Desci para abrir a porteira para a passagem do carro, depois de mais de vinte  quilômetros de estrada de chão; ainda não sabia, rumo a um pequeno paraíso: a Fazenda São Luiz. Uma matilha de cães recepcionou-nos ladrando e cercando-nos espalhafatosamente.  Percebi-lhes a boa índole e não tive medo. Deixei que me cheirassem, afaguei alguns e prossegui na tarefa de fechamento da rústica porteira.  Japonesinha ( apelidei-a por ter olhos puxados ), Vovô, Bicudo, a pointer sonsa e Mujica, da raça Cimarron uruguayo, também conhecido como cachorro crioulo, nos deram as boas vindas antes de qualquer indício humano.

DSCF0371 - Cópia - Cópia

Mujica assinou com suas patas nosso visto de entrada na porta da camionete. Vi o brilho do desespero nos olhos do meu marido. E chegou a correr um pensamento louco: bah, em que roubada fui  metê-lo!

A prima envolveu-me num abraço gordo de saudade, que apagou qualquer resquício de dúvida. Havia pouco nos revíramos após mais de trinta anos de separação e tinha sido bom. Os assuntos acumulados numa mala cheia, que foi-se esvaziando ao som do grasnar dos patos, gansos, cocoricados dos galos, galinhas dángola e garnizés, tudo envelopado num cheiro bom de bosta de cavalos, vacas e mulas.  Na frente da varanda, Santo Expedito espiava, enternecido, nosso reencontro, enquanto a vela acesa levava meu pedido impossível ao céu e o marido e o marido da prima vasculhavam à cavalo, cantos e terras da fazenda, num dia de reis pra lá de especial.

DSCF0306 - Cópia - Cópia

DSCF0308 - Cópia - Cópia

DSCF0347 - Cópia - Cópia

DSCF0372 - Cópia - Cópia

DSCF0350 - Cópia - Cópia

DSCF0337 - Cópia - Cópia

DSCF0353 - Cópia - Cópia

DSCF0366 - Cópia - Cópia

DSCF0342 - Cópia - Cópia

DSCF0309


Depois da lida era hora do chef Mário Afonso preparar o arroz de carreteiro com as sobras do churrasco da noite anterior, que fora iluminada pela dona redonda e cúmplice Lua, pelas velas de citronela da mesa montada perto da figueira centenária, numa noite quente e estrelada do Alegrete, regada à cerveja quase congelada (o único jeito que gosto e tomo, embora muito raramente). O feijão da prima acompanhava gloriosamente o arroz. À parte disto fomos apresentados ao rústico prato, ao qual Mário chamou de “englobado”. Uma massa ( como o gaúcho costuma designar o “macarrão” ) feita com charque da melhor estirpe, diga-se de passagem, mas que não é escorrida, nem lavada. Segundo ele deveria ser consumida quente, sem tirar da panela, antes de virar cola de sapato. “ É que nem dar comida pra louco”, justificava ele, “vai de qualquer jeito”. Provei e aprovei. Repeti enquanto assistia o amido a reclamar o líquido para si, rapidamente.

Os cães foram premiados com as sobras, enquanto Ming Yu permanecia ao nosso lado, insistindo em não misturar-se. Não sei se ela sabe que é uma cadela. Mas ela sabe que sua matilha é composta por nós três.

DSCF0325 - Cópia - Cópia

Ná véspera, quando da sua calorosa recepção pelos curiosos cachorros primos, fora tão assediada pelo galã apaixonado Mujica, que dera ré e caíra dentro de um tanque de lavar ovelha. “Não se preocupem”, diz Mário,” está sem remédio”. Li o sofrimento constrangido no rosto do meu marido. Ming morre de medo de água. Ela nadou desesperada- descobriu que sabia- após emergir da água turva e ser resgatada por kadado. Continuaram a nos mostrar o paraíso, desviando, quando dava tempo, dos “englobados bostais”do campo. Eta vida saudável!  Ming pingava água sem perder a pose. Cachorra da cidade, deve ter achado uma experiência infernal.

Foi surpreendente e delicadamente prazeroso descobrir que Diná e eu sofríamos de muita coisa em comum. A mesma têmpera, dinamismo, inquietude de não conseguir ficar parada, o mesmo jeito de estender a roupa no varal. Exigentes e com método próprio. Tivéramos a mesma escola, afinal; éramos fruto da mesma loucura. Tia Irene ensinara minha mãe ( caçula da família), que por sua vez ensinara à sua filha Marli e esta à sua Diná, neta de Irene. Discípulas de uma mesma mestra, não era de estranhar que caíssemos perto do pé.

A casa limpa não negava a genética Fernandes. Nosso quarto era amplo, volteado de janelas que descortinavam a natureza ao redor, com direito a sons extraordinários vindos de fora, de impossível descrição. A lua não invadia, penetrava delicadamente, mesmo assim lembrando-nos que éramos nós os invasores.

As horas corriam embaladas pelos toques precisos do relógio da sala a nos informar mais do que as horas, “que o tempo é a nossa casa”.

Mário e Diná, anfitriões atentos e queridos, nos envolveram no seu mundo de histórias.Fomos absorvidos, engolidos por elas. E quanta história havia! Remontava a séculos atrás. E Mário, com invejável memória, vivia na voz narrativa a emoção de cada fato. Emprestava realismo e atualidade à cada um deles, ilustrava-os com gestos largos e voz potente, visivelmente orgulhoso de pertencer àquela estirpe de homens e até uma mulher ( Catarina, a grande), guerreiros na vida.

DSCF0301 - Cópia - Cópia - Cópia

Foi um luxo ter a distração roubada apenas por pássaros de vozes fortes e timbres exóticos. Carecer de conexão com o mundo por quase o dia todo. O uso da internet limitado à porteira principal, perto de uma figueira, rezando e sem respirar.

Foi um privilégio ser-me oferecida a chance de conhecer esta outra realidade, a vida de verdade.

Foi um presente bonito, embrulhado em papel com as cores do Alegrete.

Foi uma emoção forte lembrar a canção:

“Ouve o canto gauchesco e brasileiro

Desta terra que eu amei desde guri “.

Até a volta, Alegrete!

Bônus:

Anúncios