2013-07-31 08.44.04

Há dois dias meu coração andava doído, desassossegado. Nelsinho, meu gato branco peludo, pacato morador desta casa, sumira misteriosamente. Como sempre, dei um tempo-digamos uma meia hora?- vá lá, umas duas ou três horas. A noite chegou e nada de miados ao pé do pote de ração. Devia andar na zona-tentei me convencer-não seria a primeira vez, embora muito raro acontecer. Amanheceu e a preocupação aumentou. Aproveitamos o feriado para acelerar as buscas pelo condomínio. A estas alturas já havia avisado porteiro, encarregados de limpeza do condomínio, viatura noturna, pedreiros da obra da esquina…toda uma operação montada para aumentar as chances de encontrá-lo. Pensei em bichos na mata…E se o ouriço o tivesse espetado todo e ele, imóvel, não conseguisse mexer-se de dor? Falava-se de um lobinho faminto que estaria circulando…hum, Nelsinho era uma presa suculenta. Uma cobra o teria picado? E se tivesse comido veneno e estivesse agonizando? Lá fomos nós no campinho de futebol, nos embrenhados na mata atrás das casas com o mantra: “coisa linnnda! cadê o coisa linda? “.

Acordamos hoje sem o miado exigente e xarope do lorde peludo. A esperança de que tivesse voltado da orgia ou apuro me tomava, enquanto descia a escada e examinava a porta ainda aberta da noite anterior, à espera dele.

Foi a vez de apelar para São Longuinho. Tenho uma imagem dele que achei em Tiradentes. Acho ridículo os pulinhos,mas já funcionara antes. Sem os pulos, só agradecimento e devoção. 

Fui correr na academia atrás de um pouco de normalidade, do sentimento bom que é o da paz quando tudo está no lugar. De lá resolvi vários assuntos na rua, aproveitando a estiagem do trânsito…a cidade estava até trafegável.

Volto para casa e deparo com o varal cheio de casacos de meia estação, vestidos que só uso em ocasiões especiais,para aqueles momentos-mulherzinha em que a gente precisa de mais glamour….todos recém lavados. -“Lena ( eu meio puta, porque nem sempre as respostas me agradam ), porque lavasses estas roupas hoje? Elas estavam com cheiro de mofo?”.

-“Dona Denise, elas estavam todas mijadas e cagadas, porque Nelsinho estava preso dentro do guarda-roupa. Só percebi porque fui arrumar o quarto de hóspedes e notei uns pelos voando por baixo das suas portas”. Gato banana! Nem pra miar presta este gordo! Fiquei com pena e raiva. Eu mesma havia encontrado as portas entreabertas dois dias antes e as tinha fechado.Chamei-o tantas vezes! Se eu tivesse viajado, encontraria um gato-passa no meu retorno. Com todas as suas vidas mortas dentro do guarda-roupa…uma estola branca ressecada pela curiosidade, ou melhor, pela errônea escolha de refúgio. 

Ficarei mais esperta. Agora todos os armários, gavetas, esconderijos possíveis, mesmo os improváveis são ameaçadores, solapadores de sono; tornaram-se inimigos ocultos à espreita das nossas falhas ou das incursões desastrosas dos nossos felinos amados.

Valeu, São Longuinho!Esta foi por pouco.

Parafraseando: a curiosidade é a mãe do gato.

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