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Certas coisas a gente não esquece. Certos comentários, observações, talvez por trauma que tenham gerado. Bom ou ruim.  Morava numa casa em Curitiba, recém apresentada a uma nova estrutura de moradia. Uma casa grande com praticamente três pavimentos. Dois cães rottweiler, um polaco safado morrendo de medo de subir e descer escadas e um piá menor fuçador e deslumbrado com as novidades. Uma garagem muito boa, com portão automático, graças a Deus. Recebi, então, a visita de amigos muito queridos. Na saída, aquele último papo ainda animado ( eles são desses que dá pena quando vão embora), um último tópico, mais uma piada, um derradeiro abraço de adeus. Não lembro quem-talvez para proteção da própria pessoa-acionou o fechamento do portão pelo controle remoto rapidamente, para evitar a fuga dos dois cães, Killer e Barbie. Acho que fui eu, por isto resolvi esquecer. Embevecida que estava continuei agarrada à ferragem lateral.Só lembro de uma sensação horrível de esmagamento lenta e gradual. Enquanto eu berrava ai, ai, os meus dedos! o cabelo daquele lado se prendia à grade, no mesmo momento crucial, sob os olhares impotentes e incrédulos dos expectadores. Meu marido apertou o botão o mais rápido que pôde, mas o mecanismo tinha  um tempo determinado para recomeçar a manobra de abertura. Duas horas? Continuei a gritar ( eu que não dei um ai no parto natural e morria de orgulho disto) e a soluçar de dor, pensei que iria desmaiar. Com mágoa e horror pude observar que o dedo polegar e o anelar da mão direita tinham ficado com o tamanho reduzido à metade, parecendo  salsichas esmagadas e que tufos de cabelo tinham sido dolorosamente arrancados do couro cabeludo, num escalpo ridículo. O que nunca pude esquecer, mais do que a dor, foi a vergonha e o comentário surpreso de minha amiga que tudo presenciara e que saiu com esta: “Nossa, Dena, nunca te imaginei assim, tão frágil , chorando. A gente acha que és tão forte! ” PQP. Eu não estava frágil. Só morrendo de dor, caracoles. 

fotos_562_A morte da Salsicha 

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