Debi-e-Loide-2-Jim-CarreyComo alguns já sabem, o Anjo Desgarrado, Memórias da Mãe de Um Autista está terminado. Com o nome de batismo escolhido, resolvo ir registrar a criança. Lembro apenas que é no centro, atrás de um prédio lindo, com uma escadaria espetacular e que o Palácio Gustavo de Capanema tem lindos azulejos decorados em azul na fachada. Devido à minha insegurança quanto à locomoção, Lena, minha empregada dispõe-se a ir junto para me ensinar o caminho que ela acha que conhece. –Dona Denise, amanhã a gente pega o ônibus aqui na frente e paramos lá perto da rua da Alfândega. Meus olhinhos já brilharam. Quem sabe ainda restaria algum tempo livre para umas comprinhas no saara, paraíso dos badulaques. Corri com a papelada necessária. Precisei descobrir como numerar as páginas da obra e comemorei o feito ao término. Imprimi aquele montão de folhas, e , não sei como, fiz uma cópia tamanho de Itu dos meus documentos ( juro que tentei reduzir ) e já ensaiava uma justificativa engraçadinha ou um pedido sem-vergonha de desculpas pelo gigantismo da impressão. Ridícula. Mas não iria desperdiçar a tinta impressa , certo? Rubriquei todas as folhas, fiz capa com dados, copiei comprovante de residência, imprimi boleto para pagamento da Gru, etc. Só faltava pagar no Banco do Brasil, voltar, deixar o carro e pé na tábua, quer dizer, no ônibus.

Hoje acordo cedo e vou andar com Ming Yu. Encontro Lucélia Santos, a dinda da galinha Mary Lu e comento a minha saída. Ela, acostumada com o transporte público, orienta-me a pegar o metrô na estação da rua Uruguai, antes da Sans Peña, e sugere que eu desça na Estação Carioca, pois a estas alturas, não soube explicar direito aonde eu queria ir. Parto em direção à Barra, quase Recreio, onde é minha agência bancária, pois aproveitaria a ida para também pegar o cartão do banco que imagino,deva ter chegado há muito e que costuma ser sempre devolvido, destruído quando o dono não dá as caras. Eu. Chego antes das dez horas querendo agilizar o pagamento o quanto antes. Tanto mais rápido eu volte para deixar o carro e tomar a condução, melhor. Faço hora e entro no recinto. Porta fechada, luz apagada e umas pessoas a trocar ideias. Descubro que os vigilantes bancários estão em greve, portanto, o banco não irá abrir. Ligo para meu filho para sondar a possibilidade de existência de outras agências próximas a ele. –Mãe, dá pra pagar pelo celular. – Ok, tô indo pra aí, não sei fazer isto. Pá pum.

Volto pela orla para desviar do caótico trânsito da avenida das Américas. Deslumbrada com a cor do mar, faço planos para pisar na areia e na água salgada um dia desses e ser abençoada por elas. Chego, deixo o carro. –Lena, melhor ir de metrô.- Não sei ir, dona Denise, mas vamos tentar. Pegamos uma van caindo aos pedaços. A capa do banco da frente roçava nos meus joelhos de um modo pecaminoso. Quase lhe dei um tapa, achando que fosse a mão boba de alguém. Vidros abertos, bafo na cara e brilho de criança no olhar. Saltamos na Uruguai, como ensinado por Lucélia. Perfeito. Em frente ao mapa do metrô estudei possibilidades. Rio Branco, Uruguaiana, Carioca, Cinelândia. Lena aguarda eu decifrar os nomes, pois não sabe ler. Escolhemos a segunda. Vambora. Comprei os tickets. Descemos na Uruguaiana, maravilhadas com a proximidade da Senhor dos Passos e daquele monte de lojinhas tão atraentes. –Vamos pegar um táxi. –Não, dona Denise, vamos andando. Concordei, afinal a academia havia sido passada para trás mesmo.

No caminho vamos perguntando onde é a rua da Imprensa. A dupla de guardas da esquina abriu um mapa velho e lascado e tentou ajudar. O homem da banca sinalizou o lado a seguir. Vinte minutos depois, perguntamos novamente.Cada uma atacar um passante era nossa estratégia, para ver se coincidia alguma informação, pois eram desencontradas e nebulosas.Nem os taxistas atinavam. A maioria pedia um ponto de referência…o tal prédio grande, que podia ser a Biblioteca Nacional, o Real Gabinete Português,o Ministério disso ou daquilo. No caminho passamos em frente a uma igreja linda, entramos  para rezar. Descobri se chamar do Carmo ( acho que já vim a um casamento aqui, pensei). Uma hora depois vislumbrei a tal escadaria. Bem que eu me lembrava do seu glamour e imponência! Lado a lado, o Ministério da Justiça e o Ministério do Trabalho. Estávamos quentes, pelando.

Dobramos a esquina com olhar faminto.Logo reconheci os azulejos ao longe. A alegria saltou para fora de nós e brindamos com as mãos coladas num tapa sonoro. Tudo certo. Agora é só entrar e entregar a pasta com os documentos e proteger a minha criação dos eventuais usurpadores. Uma faixa atrapalha a porta de entrada. Passo por baixo, sem ler, eufórica. No balcão a moça com olhos entediados me informa que o Escritório de Direitos Autorais está fechado, por uma greve no setor educacional e que só reabrirá na sexta e depois, talvez fique fechado indefinidamente, caso não haja acordo. Desnecessário descrever a decepção e o tanto de raiva. Mas foi legal descobrirmos que estávamos a poucos metros da estação Cinelândia. Pelo menos vai ser mais fácil voltar, exclamei confortando-me.

Compro meu bilhete. Lena quer testar seu cartão especial e passa antes enquanto estou na fila da bilheteria. Passo a roleta e a sigo, doida para voltar para casa. Ela também. Nova roleta. Passamos. Neste momento infame, leio a palavra “saída”. Como assim?  Agora muito P da cara descubro que só se deve seguir os outros quando eles sabem para onde ir, e mesmo assim é bom ficar atento. Ela me havia encaminhado de volta ao início, onde, obviamente, precisei comprar novo bilhete, com cara de tacho. Agora, convenhamos que não havia uma placa sequer em cima da escada por onde deveríamos ter descido, indicando “embarque”. Pensei: Gastei todos os meus créditos de loira, por hoje. Eu sim, mas Lena quase embarca no metrô na plataforma errada, só porque ele chegou naquele momento, abrindo suas portas tentadoras e acenando: casaaa! Puxo-a pelo braço pedindo calma. Vamos certificar-nos qual das plataformas. Era a do outro lado. Por uma luz evitei de irmos parar na Pavuna.  

O resto transcorreu tranquilamente. Metrô até estação Uruguai e ônibus até o Itanhangá. Moleza. Vai ser mamão com açúcar na sexta. Encarei tudo como um belo aprendizado. E tenho certeza de que Leonardo, o meu anjo desgarrado está dando barrigadas de tanto rir desta dupla maluca, mas abençoando o desfecho desta missão.

 débi  e lóide

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