Páscoa-Coelho e galinha

 

Nesta semana de Páscoa estou sendo perseguida por bichos. Os coelhos se atiram das parreiras de chocolates nos mercados, lojas e mercadinhos com propostas tentadoras. Penso que é engraçado o mundo estar cada vez mais gordo, apesar de ser cada vez mais difícil abrir uma embalagem de bombom.

Ao voltar da minha viagem de vinte dias de férias, meu filho me faz notar uma enorme teia construída em nossa ausência e, na casa da nova moradora grande e colorida, troféus de caça de dona aranha pendurados, enfeitando as paredes da sua construção de arquitetura não clássica. Concluo que lhe agradam as formas geométricas , típicas  da escola moderna e o desenho é, de fato, fantástico. O fio resistente, semelhante ao nylon, se prende a muitas pontas usando a parede, as folhas da dama- da-noite num design criado, pelo visto, para resistir às intempéries. Veio a chuva castigando por três dias o Rio, o vento, a água direcionada da mangueira assassina usada por minha empregada…nada abalou a trama. Deixamos a nova inquilina em paz.Afinal, não seria justo, após tanto trabalho, destruir o centro gastronômico da inofensiva arachnida.

Sexta-feira santa. Resolvemos pegar nossa mascote Ming Yu, un perro ancho que só, tão gorda e larga que passa quase sem folga pelo vão entre a parede e o poste ou tronco de árvore do caminho. No início da nossa descida no condomínio onde moramos deparamos com a tal galinha. Digo, a tal, porque soubera dela dois dias antes pela empregada. Disse que estava lá , mas que ninguém ousava pegar porque deveria ser oriunda de algum despacho, coisa corriqueira aqui onde moro. O que olhos não vêm, coração não sente. Pois é. Meus olhos pousaram na branquinha, quieta, acocorada na calçada quente, quase a cair para a pista do Alto da Boa Vista. Chego perto, faço um carinho na crista. Ela é mansa ou está muito debilitada, penso. Nunca fui afeita à galinhas. Tenho até um certo medo de bichos com bico. Mas ela estava em posição de inferioridade ali e deslocada do seu mundo. Na volta da trilha, pensei, vou trazer água e comida. Peguei-a, ainda com um certo receio, e coloquei na grama à sombra. Ela aceitou pacificamente.

Ming Yu , a duras penas , completa metade do trajeto e desaba desfalecida de cansaço. Uma cena patética. Meu marido e eu sentamos na murada do motel Holiday esperando que ela se recompusesse um pouco, coisa que parecia que não aconteceria tão cedo. Dispus-me a subir o aclive que me levaria até nossa casa e lá pegar o carro para resgatar a pobre cadela cansada e o marido, que ficara com ela. Na volta, lá estava ainda a pobre penosa. Resolvi investigar porque não andava. Descobri com asco que alguém a tinha ferido embaixo da asa propositadamente, para que ficasse prostrada quieta no despacho da macumba. Ela deve ter se arrastado da cesta do “trabalho” na esquina até ali. O corte estava já infestado de larvas e insetos  e também formigas banqueteavam-se no local . Horrorizada voltei para casa e junto com meu filho  começamos a pensar o que fazer. Ligamos para a clínica veterinária. O especialista em bichos exóticos não foi achado pelo celular. Voltamos e demos água e ração de gato-era o que dispúnhamos- ela não reagia mais. Levei um spray bactericida e besuntei a parte ferida e infestada com unguento à base de cânfora, eu acho. As larvas odiaram. Eu as vi tentando fugir e as formigas cercando-as depois e matando-as. Um pequeno circo de horrores. A natureza que não descansa. Soube então que ela iria morrer, mas agora, com alguma dignidade. Sem bichos a lhe atormentar seu triste fim. Fiz outro carinho demorado e rezei para que fosse embora logo.

Voltei e meu marido perguntou como eu queria que ele fizesse o salmão. Sem fome, nem ideia original, tentei seguir minha vida, porque eu sei que nada ou muito pouco posso fazer para deter a marcha cruel dos homens. Só aceito a lei natural da vida e da morte.  

E pensar que Cristo morreu por todos. 

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