Noite

   Hora de escovar os dentes e tirar a maquiagem. Caminho pelo corredor que me leva ao closet e ao banheiro. Ambos estão com as portas fechadas-por ordem explícita do marido (ai de mim)-para otimizar ( ô palavra feia ) o resfriamento do quarto, uma vez que o ar condicionado encontra-se ligado para nunca deixar estes gaúchos esquecerem dos pagos gelados de sua terra natal. Entro no banheiro e deparo-me com a inesperada cena: um animal escuro voando desorientado, dando rasantes no box, na banheira e em frente aos espelhos enormes que cobrem a parede toda em frente à pia. Penso, não sem estranheza, que  um passarinho possa ter errado o rumo e entrado agora à noite. Observo hipnotizada, analisando melhor. É com encantamento que descubro estar diante do meu primeiro morcego, assim tão de pertinho, olhos nos olhos, brilho curioso na retina de ambos. Só tenho certeza do fato quando a criatura pousa desconsolada num dos três basculantes, todos entreabertos, rotas de fuga que ele não antevê. Chego perto, devagar. Está como os morcegos devem estar. Pendurado.De cabecinha para baixo, ofegante. Lindo. Que dó!  Suponho ser um bebê, não sei a espécie.

   Ainda fascinada e com pena do pretinho, me aproximo mais, lentamente, com uma caixa de kleenex na mão para tentar orientá-lo para fora do meu domínio. Aturdido, suponho, recomeça a dança entre azulejos. Não tenho-lhe medo. Sei que tem radar. Conto com isto.

   Desligo então a luz e deixo-o. Corro feliz a contar a nova ao marido, que está deitado na cama, convidando-o para vê-lo. Não, obrigado!responde arredio.

   Volto, tento mais uma vez guiá-lo rumo à liberdade, sem sucesso. Resolvo parar de tentar ajudá-lo. Saio novamente. E quando retorno ele já não está mais lá. A belezinha negra encontrara a “luz “ da escuridão, a sua saída. Voltara para o negrume da noite chuvosa, para os seus.

   Honrada pela visita, escovo os dentes e deito com um sorriso no canto da boca.

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