bruxinhaJá tive empregadas de todo o tipo. Afinal, com uma bagagem de dezessete mudanças, é inevitável ter-se vivenciado todo tipo de mão de obra “estrangeira”.

Tinha uma maluca que jogava bolinhas de papel amassado ao chão para demarcar a área varrida. Tudo bem que a gente sabe que piso de granito não mostra sujeira, e fica um pouco difícil saber onde se varreu. Quando começou a falar mal do filho da amiga que a tinha indicado para mim, mandei-a catar coquinho. Tive uma faxineira crente que berrava louvores quando se acercava do muro, para impressionar a vizinhança. Esta não durou um dia. Foi no meu quarto, pegou as havaianas do meu marido e frisou com ela o dia todo . Dei-me conta no fim do dia e fui chamar-lhe a atenção. Virou bicho, desconjurou, ficou nua na minha frente trocando-se para ir embora enquanto falava horrores para mim, batendo em retirada. Caímos na risada, minha empregada e eu.

Tive uma babá,bronca, que mentia dizendo ir ao dentista. Numa dessas idas, meu sexto sentido me mandou dar uma espiadela no seu quarto. Encontrei, nauseada, itens bobos , roubados e já devidamente acondicionados dentro de uma sacola. Um passarinho de pelúcia do Leo, um esmalte, panos de prato, enfeites. Deixei-os em cima da mesa da sala. Na volta do dentista, entrou alegre e saltitante, afinal, estava arejada e fresca da voltinha pelo centro de Curitiba. Arregalou os desvairados olhos ao deparar-se com o fruto do seu roubo e com minha cara onde lia-se meu desagrado e surpresa com a infeliz descoberta. Ficou fula. Começou a gritar impropérios, jogar coisas no quarto, enquanto pegava suas tralhas para se mandar. Objetos voavam como num cenário de feitiçaria. A louca pegou a vassoura, digo, suas coisas e voou escada abaixo, deixando no chão uma foto de meu filho Leonardo, que nesta época tinha por volta de um aninho e de quem ela cuidava. Ela tinha pedido a foto!Jesus! Como a gente arrisca ao colocar pessoas estranhas dentro da nossa casa!

Que imenso alívio! Deus está com as pessoas do bem.

Ontem começou e terminou de trabalhar na minha casa no Rio, uma loirinha saradinha, muito meiga e vesguinha. Me segredou adorar malhar à noite,mas que agora com os estudos não dava.Tive que carregar baldes para ajudá-la a lavar uma sacada, limpar a sujeira dos pintores, pois de pronto percebi que a turbinada não daria conta do recado. Bem, da casa daria, como a cara dela, mas daria. Talvez desse outros recados bem. Preparou um almoço simples, quer dizer, esquentou o MEU feijão, o MEU arroz. Fez uma carne moída bem gostosa e farofa que ensinei. Ah, não quero ser injusta. Lavou umas folhas de alface para acompanhar o meu molho. Coloquei meu jogo americano vermelho, meu prato e talheres e servi-me das próprias panelas, pois não quis puxar-lhe o couro no primeiro dia, e também, confesso, por preguiça de ter que ensinar-lhe quais travessas usar, mostrar onde estavam, etc. Sentei-me e nem tinha dado a primeira garfada, vejo a moça colocando um outro jogo americano, já bem fornida de seu prato servido ( pouca comida para manter a forma ), disposta e faceira a me acompanhar. Surpresa e sem graça, perguntei: já vais almoçar? –Vou.

Se o Papa me convidasse para sentar com ele, eu sentaria. Mas jamais tomaria a iniciativa. Questão de bom senso e educação. Não preconceito.

Comi a contragosto, rapidamente, pensando atropeladamente como contornaria aquela situação no futuro. Pensei: não vai dar certo. Tudo bem se no futuro ( e isto é usual ) eu a convidasse para sentar comigo, mas aí é bem diferente da moça tomar a iniciativa. Mas Deus é bom. E ela faltou no segundo dia. Moderna, mandou-me mensagem pelo whatsApp dizendo que os ônibus estavam impraticáveis e perguntando se precisava vir. Respondi que não, que eu já estava com a mão na massa e que, infelizmente, a gente não tinha sido feita uma para a outra. Que eu precisava de alguém que morasse mais perto da minha casa, que era uma pena, porque ela era uma gracinha. A popozuda respondeu-me agradecendo porque eu era muito compreensiva e finalizou dizendo que eu era adorável. Ãh? Será que ficou aliviada porque viu o tamanho da encrenca aqui em casa? O fato é que ela tirou-me um peso enorme e livrou-me da necessidade de conversar, esclarecer e, muito provavelmente parecer descortês e preconceituosa. Sempre tenho muito cuidado ao lidar com este material humano. Não gosto de ferir, nem diminuir ninguém.

Como é divertido! Como é apavorante! Como é um mal cada vez mais necessário ! O fato é que, brincadeiras à parte, tem muita gente boa, honesta e trabalhadeira à solta neste mundão de Deus. Deus, tô na fila, viu? Manda uma pessoa bacana pra mim.

Por enquanto piloto sozinha minha própria vassoura. Estou desancada, com as mãos horrorosas e sem tempo para ver amigas, fazer cursos, nem para escrever decentemente. Mas perdi dois quilos esta semana. Iuppiiii ! Viu, Denise? tudo tem seu lado bom.

 

madame mim

 

 

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