mudanca-sem-transtorno-3918Segundo dia de empacotamento das coisas da casa, mudança para o Rio em andamento. A casa revirada teria que esperar. Lá fomos nós de Alphaville para São Paulo. Dia de reavaliação da voz. Eu com o coração em stand by. O médico havia sido otimista na primeira consulta. Paralisia temporária, diagnosticara. Sua voz voltará ao normal em seis meses. Exultara.

Mas eu já sabia.

Tinha até me dado o nome índio: Pássaro Sem Canto.

A esperança, porém, nunca vai verdadeiramente embora. Ao contrário: acocorada num canto debaixo das minhas plumas espiava –respiração suspensa- o veredito final, depois de seis meses de sessões de fono, exercícios diários e quase nenhuma melhora. Eu disse: calma, esperança, não crie expectativas.

Na entrada dr. Paulo perguntou: e aí? Normalizou? À minha negativa, retrucou: bom, aí a coisa muda de figura ( eu sabia…o tempo todo eu sabia ). Esperança encolheu-se, aninhou-se em posição fetal. Ele enfiou-me um fio com câmera nariz adentro até a goela e mandou-me repetir alguns sons. Odiava este procedimento. Já era pra estar acostumada. O exame confirmou meu medo e minha quase certeza: nada havia mudado do ponto de vista otorrinolaringológico. Desnecessário continuar com a fono, completou. De nada vai adiantar. A paralisia pode ser no nervo de cima.O médico, uma das maiores autoridades desta especialidade, indicou um exame mais específico, uma eletromiografia da laringe. E cogitou -depois de minha pálida insistência por solução e acabrunhada expectativa-uma cirurgia de estiramento da prega vocal ou tiroplastia, sem garantir, no entanto,cura ou sequer melhora. Pareceu-me, ao contrário, um tanto desalentado. Completou dizendo: que pena!

Tanta gente desafinada no mundo, que não canta, nem dá bom dia, e eu fui a escolhida? Isto é comum acontecer?, perguntei. Graças a Deus, não, respondeu para minha tristeza, e, mais uma vez tive a certeza de que o infortúnio tivera a flecha apontada para mim desde o princípio. Por que fui tirar esta droga de órgão? Por que não escolhi o médico anterior? Quem sabe ele…Mas nada mais poderia ser feito quanto às decisões tomadas.O luto tinha sido renovado, agora sem a naftalina do armário, ao contrário, de roupa preta nova e bem passada a ferro, seguia solene o cortejo para o enterro da voz.

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Malas prontas para o Rio, não pude marcar o exame para a semana seguinte, quando já não estaríamos mais aqui. A voz teria de esperar o canto. O pássaro teria que esperar de bico fechado com a esperança ajoelhada no grão de milho e terço na mão.

Fiquei um tempo calada no carro, chateada. A rádio CBN narrava a via crucis apresentada para o Papa Francisco em visita ao Rio para a Jornada da Juventude. O locutor dizia, enquanto eu estava perdida em meus pensamentos: Jesus cai pela segunda vez. Pensei que era a segunda vez que eu baqueava. Na morte de meu filho, a primeira queda. A morte da minha carne e agora a morte da minha voz. Jesus cai pela segunda vez. As palavras não me saíam da cabeça. Fiquei mais um momento calada, reflexiva, menos chateada. Pois a vida sempre anda para a frente. Fomos distrair minha decepção na livraria. Um livro de Clarice e sua pintura e outro de culinária portuguesa. E dali para uma cantina, onde um prato de massa renovou minha felicidade. Lembrei dos três tucanos pousados na árvore dos fundos da nossa casa no Rio…uma imagem feliz. Com um copo de vinho tinto, de sangue vivo e quente que continuará circulando, brindamos, na noite fria,  à esperança que nunca morre e às novas maneiras de ser feliz na vida.

 

 

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