Barulhos Estranhos_Som do ApocalipseNesta hora em que preparo-me para dormir, penso: o mundo está cheio de dor. A dor da vida, da sobrevivência, da desistência de tudo. Em algum canto, uma mulher geme, rasga-se dando a luz, o crocodilo mastiga o Gnu que não escapa, alguém despede a vida em cima de uma ponte ou à frente de um trem em movimento. É muito barulho que vai comigo para a cama.

Dói-me as costas, penso dolorosamente nos ursos engaiolados da China ( pensamento recorrente que me corrói ).Afasto a dor do pensamento, sem sucesso. Enquanto afundo na maciez do meu colchão alguém perdido afunda no chão frio, fuma pedra, cheira cola. Não dá para ser feliz. Ajeitados meus animais e tapada com a manta sedosa, rezo, para afastar a dor que me ronda, para acalmar por telepatia alguma alma; rezo com força para ver se lanço com eficácia algum conforto  num canto qualquer, alguma iluminação em cabeça alheia. Deve servir para alguma coisa, eu acho. Penso, concentro,  com tal ardor, jogando amor puro no pensamento, que acredito que deva funcionar.Viro para um lado, rolo para o outro. Estamos afundando em lixo neste planeta, me volta  a reflexão da minha caminhada. Enquanto passeava com Ming Yu, lembrava dos bichos sem a mesma sorte, dos confinados, engaiolados, abusados, “experienciados”. Essa maldita sensibilidade me acaba, não deixa eu ser feliz. Quero paz para dormir, acordar e viver. O mundo grita alto, e eu não quero ouvir tanto, Deus. A freada, a sirene, o gemido no hospital. O velho esquecido, mijado, a criança que apanha, a misericórdia negada. O deficiente sem chance, o tetraplégico destratado, o autista incompreendido, o prisioneiro injustiçado. A luta pelo pão, o dinheiro que é para poucos, a embriaguez que mata a família, a mulher com a genitália mutilada, o preconceito, a corrupção, a roubalheira, a falta de escrúpulos, caráter, dignidade, o poder que esmaga. É muito ruído. Falta amor no mundo. Sou tão pequena e impotente.

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Enquanto a cabeça inunda , vasculha pensares,  um homem é torturado, uma mulher sangra num estupro, um cachorro é arrastado atrás de um carro, uma criança é espancada por um pai, tio, padrasto. Não quero ouvir mais. Me deixem dormir. Escuto o apelo do mundo, um zumbido infernal a me atacar toda noite. Não tenho armadura, abrigo antiaéreo. As bombas continuam a cair, explodir aos meus pés. Queria ficar surda. Ficar insensível, um tanto só que desse para continuar com sanidade. Mas vêm os caçadores atrás das presas, das peles e a morte não me deixa dormir. Depois chegam os soldados das guerras e o sangue inunda meu quarto. E a dor silenciosa dos animais que sufocam no óleo derramado, o lamento dos oceanos com suas criaturas lentamente a agonizar, estranguladas por redes, por nosso lixo. Quero a cegueira para ter chance de ainda ser feliz. Mas a dor se arrasta no mundo, se esfrega na minha cara. Não quero sentir, ver, ouvir.

Preciso falar. Purgar. Compartilhar, para sobrevoar as dores. A dor é uma corrente pesada…e não consigo cortá-la. Sofro com discrição. Deus,meu grito silencioso não serve de nada?

grito silencioso

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