Conhecer um lugar, definitivamente, é tentar mergulhar na cultura local, saborear o alimento que sacia seu povo,penetrar na fantasia das suas crendices,lendas e histórias que povoam o  imaginário do lugar. Desde que voltei do Alaska tenho estado imersa num outro mundo.

Minha alma anda vagando por terras geladas,migrando com os  caribus, erguendo Inukshuks ao longo do caminho, bebendo na fonte da herança Tlingit.Tenho tido os sonhos filtrados pelo Apanhador de sonhos feitos pelos nativos norte-americanos, dançado com os espíritos do Alaska à noite, sendo protegida pelo pequeno boneco-shaman  que comprei de Tresham Gregg,vivido intensamente as lendas entalhadas nos totens que vi e especialmente no que trouxe comigo para casa. Difícil sair imune de uma beleza tão única!

Assistir ao bailado dos salmões, baleias,saber da proximidade dos ursos, a natureza viva, gritando uma desconcertante pureza em cada canto de montanha, de neve em degelo, foi especial.

Conhecer um Alaska pleno de Forget-me-not -flores azuis tão típicas e tão delicadas para uma nação um tanto bruta, indômita, de gente de cuja bravura e rusticidade eu só ouvia  falar ou lia nos livros.Gente de vida dura. Alaska de contrastes. Alguns remanescentes dos antigos esquimós ajeitam-se pelas esquinas, esmolando numa dura realidade, marginalizados.

Totens esplêndidos, arte  esculpida em ossos fossilizados de baleias, marfim,entalhes em madeira, esculturas em jade, máscaras em peles de animais, pinturas, grafismos, desenhos tribais maravilhosos estão à venda em ateliês,lojas de artesanato local, em quase todas as cidades.

Totem que trouxe representando a Lenda do Corvo e da Mulher Névoa

Há beleza e  morte por todo lado!O comércio de casacos e artigos outros de peles de animais, os mais lindos,os mais baratos que já vi…os mais repugnantes!talvez pelo meu excesso de consciência. Em todas as cidades por onde passei muitas eram as lojas vendendo a dor dos nossos inocentes irmãos. Foi com pesar  imenso na alma que registrei na retina e na máquina fotográfica  o absurdo mundo comercial das peles ensanguentadas…O homem se apoderando da fauna, usurpando a vida impunemente e o fruto da loucura à venda, muitas vezes em balaios ou pendurados em oferta! Uma vendedora em Sitka chegou a mostrar-nos um casaco de 44 dólares.Belíssimo…porque são belos os animais.Tive que sair da loja, estrangulava-me o peito  e não queria desabar na frente da  sorridente mulher.

Alaska de contrastes….como é o mundo. Alaska de geleiras que languidamente submergem milhares de anos gelados e azuis em  segundos para encantamento desses olhos e  melancolia dessa alma que agonizava junto penalizada.

Um recanto de encanto do universo,onde a canção de Deus se ouve alta e pura, inspiradora e hipnótica, ainda hoje, mesmo com toda a nossa interferência .

Pesquisando sobre a lenda do meu totem…(The Legend of   Raven and the Fogwoman)

A   LENDA  DO  CORVO  E  A  MULHER   NÉVOA

O Corvo e dois escravos estavam numa canoa tentando pescar o alimento para o inverno. Sem sorte,só conseguindo pescar bagres, o Corvo decide voltar para casa e se perde na densa neblina. De repente uma linda mulher aparece na canoa.Ninguém sabe como ela foi parar ali. Ela coloca toda névoa dentro de uma cesta e os conduz  a salvo de volta ao vilarejo. O Corvo se apaixona por ela e eles se casam e são felizes . Uma escassez de alimento atinge o lugar, mas Mulher Névoa ,ao contrário dos outros,sempre tem abundância de salmão na sua mesa. Curioso com o fato, o Corvo a segue um dia ao córrego e observa sua mulher colocando os dedos na água e os salmões pulando para dentro do seu chapéu. Ele pede para que ela repita o feito a todo momento.Ela então manda que ele construa um defumador. Assim, haveria abundância de peixes para o inverno.Mas o Corvo nunca parecia satisfeito com o que ela lhe dava e começou a destratar Mulher Névoa e até bateu nela.Ela disse que iria deixá-lo e que voltaria para a casa do pai. Ele tentou impedi-la, mas quando foi agarrá-la seus dedos só encontraram neblina e água. Um som como de um vento forte veio do defumador e  Mulher Névoa encaminhou-se lentamente para o mar e com ela seguiram todos os salmões. Só restaram alguns bagres para o Corvo. Ela virou-se então e disse a ele:”De hoje em diante eu aparecerei para você apenas como névoa, mas eu mandarei salmão para os córregos todo ano, de modo que todos tenham comida em abundância.”

Assim,todos os anos Mulher Névoa provêm salmão nas cestas de água de cada  primavera .

“A lenda”, segundo Israel Shotridge “, lembra-nos que devemos valorizar o salmão e os presentes que os outros nos oferecem.”

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 INUKSHUK

INUKSHUK- é o nome dado às estruturas de pedra ,construídas por seres humanos, utilizadas por povos da região ártica da América do Norte .

Durante séculos, o povo Inuit ,como são chamados os esquimós da região ártica do Canadá, Alasca e Groenlândia, empilhavam grandes rochas dando uma rústica forma humana. Os inukshuk originalmente ajudavam os inuítes na caça aos caribus  ;serviam também como guias de orientação no vasto horizonte do Norte, podiam marcar um local de caça , pesca,um lugar onde estava armazenado alimento, ou ainda ,podiam ser utilizados  como um memorial a um importante evento      ( veneração). Na base dos Inukshuk costumava-se guardar pequenas caixas com utensílios, como forma de partilhar ajuda com outros inuítes.

Com o tempo, o inukshuk tornou-se um símbolo de amizade,de esperança, uma eterna expressão da hospitalidade da comunidade esquimó ,sendo inclusive escolhido como um dos símbolos das Olimpíadas de inverno de Vancouver,no Canadá.

As figuras misteriosas de pedra foram construídas com o intuito de comunicar.

Inukshuk é uma palavra inuíte que significa NO ESPÍRITO DO HOMEM …e comunica ao viajante “Alguém esteve aqui” ou “Vais por um bom caminho “.

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ALASKAN SPIRIT DANCERS

A foto não faz juz ao meu pequeno  e simpático Frog Dancer

Nas noites longas e frias do inverno  os  povos nativos do Alaska se juntavam para comemorar seus festivais. Músicas, danças e banquetes eram arranjados de acordo com o que  mandava o costume. As máscaras eram esculpidas na madeira ou feitas de peles costuradas. Feitas com instrumentos primitivos estas elaboradas máscaras representavam animais, pássaros, a vida marinha, seres místicos e o homem.

Eram decoradas com ossos, marfim,chifres,plumas ou peles e pintadas com pigmentos tirados de flores,berries raízes e pedras. Conforme eram usados na performance ,uma estória  era ilustrada por movimentos de música e dança.  Como contava a tradição, se o respeito fosse mostrado aos animais e ao ambiente, tudo correria bem no povoado.

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Boneco Shaman ,do artista Tresham Gregg,natural de Seward, Alaska.

Na sequência  postarei sobre os Dream Catchers ou Filtros dos Sonhos, a Lenda O CORVO ROUBA O SOL ( linda!) e sobre Totens.

Enquanto isso…continuo com o vento nos cabelos,o barulho do mar, o cheiro do sal, da vida e com todos os sentimentos ainda muito intensos sendo revividos …na insanidade do dia a dia, porque ESCOLHI ESTA IMAGEM PRA MIM.

Passando por Vancouver descobri…

Minha homenagem à comunidade Inuíte !

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