Tem sido  muito difícil para mim nestes últimos tempos, sempre que alguém chega perto de mim e  pergunta: “Quantos filhos você tem?”

Fico com a resposta engatilhada na garganta e  depois de segundos racionais , continuo ainda tentada a responder        ( e às vezes o faço) : ” Dois! ”

Eu sei que um filho já se foi, mas, ora bolas,ele continua comigo ,e ,inexplicavelmente,até mais do que antes ,porque o carrego para todos os lugares e ele não me pesa, nem me atormenta. Convenhamos.Não se pode apagar do ventre a memória do útero…e o meu abrigou o amor por duas vezes  no passado. Esta marca do amor em brasa  tatuou para sempre a presença do divino no meu  corpo e na minha alma de mãe.

Não há a mais remota condição de se apagar da memória o aroma do filho gerado.

Está lá a cicatriz que agora enxugo, recém banhada pela água do chuveiro ,misturada à dos olhos…no corte ainda muito visível ,a assinatura eterna do Amor  Maior a me impingir no espírito e na carne o mistério da criação na minha humanidade trôpega e boçal.

Voltei  de viagem  ontem …com a mala mais cheia, a alma mais leve e a impressão de que seria mais fácil daqui para frente carregar a lembrança do filho que partiu.

Recebi, entretanto, na cara a bofetada da contraposição  desta tola idéia  ao abrir a porta do quarto de Leonardo e sentir ainda tão fresco o cheiro dele a emanar pelos poros  das paredes,da madeira da cama,das tramas da colcha matelassada. A punhalada avassaladora da perda me atingiu como um raio e chorei  por dentro e por fora.

 “Mas como ainda estás por aqui, meu guri ?! Se te encontrei em todos os lugares por onde passei, não deverias  ter ficado por lá? Todos os anjos de todas as igrejas, catedrais  e  monumentos me falaram de ti,os afrescos me sopraram travessuras,me contaram peripécias novinhas em folha “.

“Talvez tenhas pegado carona nos anjinhos de biscuit que insisto em colecionar e que por lá   adquiri !”

“Quiçá, apenas teimes em querer me ensinar que o céu é aqui  e que anjos e pessoas podem viver misturados “.


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