Quantos acordes desafinados foram tocados por mim ao longo de vinte e oito anos  de vida do Leo?

Quantas vezes me interrompi no meio de uma pauta por não saber executá-la !

Inebriei-me com os momentos em allegro  e a vida era quase plena , quase perfeita nestas horas .

Estudava a partitura com afinco e paixão ,

mas ela ,voluntariosa,me escapava ao controle e à compreensão .

Dias a fio , suei com mãos frias ao teclado e olhos  vermelhos  de estudo , sem saber como completar minha sinfonia “Leonardiana”.

Às vezes soava bela e fluida…noutras tantas – e foram muitas nos últimos tempos- o som sujava o ar , estremecia paredes , bambeava os joelhos das notas musicais cansadas e perdidas.

Difícil reger uma orquestra de instrumentos errantes , falíveis , cuja afinação era provida misteriosamente,à revelia das minhas pretensões.

Descabelei-me ,muitas vezes, sem conseguir tirar uma só nota, um único som limpo e belo.

A música seguia seu querer próprio, ria-se de minhas tentativas ,ecoava libertária, desenfreada,escapava em desatino,  trespassando tijolos,metal, madeira , mas acabava presa na concha acústica das nossas vidas.

Leonardo, minha obra inacabada,receberá agora os retoques finais do maestro do universo e se transformará, enfim, na sinfonia mais linda que eu gostaria de ter composto.

Eis-me ,agora,semi-paralisada , à frente de uma folha em branco ,à espera de um vento qualquer de  inspiração , de uma nota soprada qualquer ,que me faça querer começar uma nova e brilhante sinfonia,de novo.

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