Com que prazer  desfiz-me dos remédios de Leo, rasguei  as receitas remanescentes  daquelas drogas  usadas por toda uma vida, desde um ano e oito meses de vida e que só vinham crescendo em quantidade e tipos.

Juntei seus brinquedos, suas sucatas  e doei. Onde ele está não precisará das suas muletas terrenas . Lá ele é inteiro, hábil com as mãos e com as palavras, um homem no seu sentido maior .

Não mais uma mente infantil presa num corpo másculo.

Uma alma livre , num corpo íntegro e capaz.

Abençoada fui por tê-lo tido como chance de evoluir espiritualmente, por ter aprendido  que a vida é simples e descomplicada .

Pensar que precisara   de tão pouco para ser feliz ! Que lição e que bofetada de “acorda, criatura de Deus! “

Nada de roupas , grifes, carros da moda, viagens quaisquer , restaurantes caros, sequer  um cartão de aniversário fora necessário para alegrá-lo !

Desprovido de ego  , não se entristecera  com nossas atrapalhadas tentativas , desatenções ou desacertos .

Devolvera  com olhos de amor embutido  qualquer agrado recebido.

O que sempre lhe bastou foi o nosso amor, a comida, o docinho  oferecidos, a rede na varanda ou o almofadão no chão.. o carinho que nos roubava, a provocação a nos chamar a atenção.

Gargalhava com as ondas do mar ,descuidadas,  a lhe beijar os pés…a poesia do mundo vivia nele da maneira mais ancestral  .

A rusticidade dos gestos lhe ornaram e lhe caíram tão bem.

Leonardo…um poema tosco  ,uma mensagem  gritada, um pedaço de madeira irregular , cujos sulcos estavam preenchidos por  zilhões de dicas de como ser feliz… um muro das lamentações às avessas, onde era ele quem nos escrevia  e ensinava.

Não mais um  bebezão…um homem inteiro!

Leonardo e  Alexandre…minhas maiores obras de amor !

Anúncios