Estou feliz… as coisas finalmente  estavam  se encaixando. Um plano estava sendo cumprido ,o Universo aceitara  o meu pedido de ajuda e parecia  estar me retornando uma resposta.

Duas profissionais visitam Leonardo em casa, para conhecê-lo em seu habitat natural e fazer uma anamnese.

É avaliado e convidado a  passar uma semana no lindo sítio, numa associação de convivência chamada Residência Novo Tempo.

Na entrevista, outro sinal… uma vaga apenas, de número 33. Poderá ser dele, se for aceito.

Lá vamos nós com Leo, tralha, coração apertado e todo o resto de sentimento de quem raras vezes se separou do filho ao longo de 28 anos.

Afinal, estamos há apenas três meses em São Paulo, com estrutura muito frágil, sem a empregada que nos serviu por doze anos, um Leo mostrando sinais de “desarranjo físico e mental“, a um mês do lançamento do meu livro no Rio e com viagem marcada de 14 dias … tudo para o mês de setembro !

Nossas aflições ficarão para trás, pelo visto, e tudo parece rumar para uma solução providencial e eficaz, pensamos.

No carro um Leo cheiroso, barbeado, unhas cortadas para não machucar nenhum profissional. O enorme baú de brinquedos sonoros e outros mais esquisitos, mas super requisitados pelas mãos exigentes e seletivas do nosso guri; cobertor, fraldas descartáveis, remédios (anti-psicóticos dobrados na dosagem  por recomendação  médica), perfume, lenços umedecidos, roupas, pantufa, cobertor tamanho casal… apetrechos familiares  que ajudem a aplacar o estranhamento da mudança  para um quarto novo, enfim, tentativas de manutenção da sua rotina .

Arrumamos tudo no seu quarto , espalhando brinquedos coloridos por todo ele numa  catastrófica  tentativa de conferir-lhe  um toque de calor e um ar de “nada mudou “.Dou a ele o lanche para demostrar as manobras de colocação de remédio dentro do alimento e o levamos de volta ao seu novo cafofo  medianamente ajambrado.

Como está resmungando, o sento na ante-sala dos quartos deste “hotel-fazenda especial “, onde  alguns coleguinhas residentes assistem à novela O Clone. Já manifestam gostar dele. Ele fica mais satisfeito no ambiente novo e já pega uma almofada para exercitar suas fungadas.

Profissionais aparecem e lhe admiram o azul dos olhos, a boca enorme e bem feita… estão animadas com o novo hóspede desajeitado e bebezão.

Partimos com a imagem pacífica de um Leo comportado e sereno, a perscrutar o rosto daqueles novos amigos.

Do corredor, enquanto nos distanciamos, o olhamos uma vez mais por entre a porta aberta que dá entrada ao seu pavilhão.

Sequer imaginávamos que seria esta a imagem derradeira .

Na ida de volta para São Paulo ainda titubeamos e ameaçamos comprar alguns apetrechos que, achamos, fossem fazer falta: copo com canudo embutido e esponja de banho.

Kadado diz: “se eu voltar lá, ele volta conosco! “Concordo.

Uma hora de viagem depois, chegamos em casa com o coração do tamanho de um botão, alguma dúvida e questionamentos e reflexões muito razoáveis sobre o rumo que nossa vida estava tomando.

Ao deitar, penso muito em como ele poderia estar sentindo frio. Será que ele já tinha dormido? Estaria descoberto? A sensação de frio continuava a me atormentar e eu lutava para afastá-la de mim…

Foi estranho. Senti desassossego. Não tive problemas anteriores com rápidas separações dele em colônias de férias. Agora estava diferente. “Ah, para Denise! Tudo sempre acaba bem. Relaxa. “Pedi à Nossa Senhora , aos espíritos do bem , ao universo que nos abriga, que Leo fosse acolhido com um manto quentinho e dormi.

No dia seguinte, pulo da cama e mando e-mail querendo sondar como ficou nosso ursinho desajeitado.

Vou à academia fazer caminhada na esteira (há tempos que não consigo… Leo estava de férias) e retorno… ainda me sentindo um pouco esquisita.

Na chegada, recebo a ligação da diretora. Leo convulsionou, segundo ela, e uma ambulância já está no local.

Brigo com ela repetindo que não precisava deste aparato… que na hora da síncope, tudo que podemos fazer é erguer suas pernas bem alto, como explicado pelo médico, para que o sangue flua para a cabeça, oxigenando o cérebro. Já havia explicado tudo antes!

Ela diz que ele já está dentro da unidade médica e que ainda está desacordado.

Avisado,Kadado se atira desesperado cortando a rodovia e com o coração sendo retalhado. Muitos telefonemas desanimadores dizendo que Leo não voltara da inconsciência, mas que estavam tentando tudo para ressuscitá-lo.

Eu o espero ainda com a roupa da academia, na porta da casa. A bolsa já carrega um pequeno santuário de Nossa Senhora de Schöenstatt e um pacote de lenços.

Chega o marido aos prantos. Eu decifro a dor do seu semblante e compreendo o desfecho da história do nosso urso pimpão.

Como foi longo o caminho! Uma hora que pareceu uma vida de castelos agora inundados pelas águas do mar!

Sem sabermos onde ficava o hospital, marcamos encontro com a diretora, em frente à Igreja.

Desço, enquanto Kadado faz o contato.

Vou espiar se a igreja está aberta.

No capacho da entrada, leio o nome da igreja: Nossa Senhora das Dores. Nó feito na garganta. Eu estava no lugar certo – pensei; Ela já me esperava. Atirei no colo da Mãe das Dores toda a minha dor… e meu pranto veio descontrolado, aos trambolhões, vomitado alto, atropelando o sossego do templo e do discreto rapaz que estava  no banco mais à frente. O gozo negro da dor vazou pelo interminável minuto que durou… escoou do meu corpo e foi pro ralo do solo abençoado  e, assim , daquele  jeito, nunca mais retornou. Não daquela forma. Voltou numa forma serena, de doce saudade daqueles olhos azuis tão abertos e claros, daquela gargalhada sacana e inocente.

Numa sala humilde qualquer, do pequeno posto médico local, depositado na sua manjedoura fria,um Meninão Jesus… me vejo como num filme, tendo que descobrir o lençol que mal abraça aquele corpo grande, quieto como nunca antes, de um gigante adormecido.

Aquele monte de carne amada, o peito nu, as mãos geladas enfiadas nos bolsos do moletom cinza, as marcas do elástico da máscara de oxigênio ainda frescas nas bochechas gordas… que vontade de calçar-lhe meias nos pés gelados…De novo a sensação de frio, a vontade de aquecê-lo, de pedir perdão por ter-me afastado por vinte horas dele e ter deixado dona Morte  lhe levar. Ela já rondava há tempo, mas nós sempre a afastávamos com a nossa benção e a força do nosso amor.

Não conseguimos desta vez! A oportunista mal esperou virarmos a esquina e golpeou a flor da vida, ceifando com ela um naco de nós.

Menos de um mês antes,Leo dormindo em casa…exatamente com esta fisionomia serena ele partiu .Ao bater esta foto visualizei a suavidade da sua passagem e tive uma “impressão”de sua partida  ,que só agora revelo.

Um caixão branco, de anjo, foi providenciado.

Volto ao sítio para pegar suas tralhinhas… o baú já fica para trás. Vai alegrar os colegas recém conquistados.

Descubro a hora da sua Passagem… 11:10 h. Kadado me chama a atenção: dia do meu nascimento : 11 de outubro (11/10).

No velório, um Leo de beleza sempre angelical repousa como um santinho.

Penteei seus cachos com meus dedos, recobri sua boca carnuda e pálida com meu batom cor de boca e pincelei raios de sol por seu rosto com meu blush bronzeado… agora ele está  nas cerdas do pincel e no pó do meu estojo e poderei senti-lo em mim vez por outra.

Meu biscuit gelado (que vontade louca de cobri-lo com seu cobertor de fleece marrom) carregou na mão de boneca uma orquídea, uma rosa vermelha e uma branca no peito, a capelinha de N. Sra de Schöenstatt, e um rosário na outra mão ( linda mão de cera, santa) como presentes para a Mãe Maria e toda turma celeste. Chegará sedutor como sempre, amealhando simpatias e anarquizando a paz do andar superior.

Leonardo agora está numa nova residência, sem sombras de dúvida, num Novo Tempo.

Penso que passara apenas 20 horas naquele lugar terreno, na antecâmara do paraíso. Que fora o número 33, a última vaga, com a idade de Cristo. Quantos sinais foram dados!

Leonardo- percebi- não disse uma só palavra enquanto viveu… e disse tanto!

Não fez UM trabalhinho de colagem sozinho no colégio e, no entanto, fez todas as lições de casa!

Diz o óbito: “não deixou bens, herança ou herdeiro“ e, vejam só, deixou-SE todo como ensinamento para quem estivesse atento!

Deixou-nos no dia da Nossa Senhora dos Anjos, levado  pelos colegas querubins, serafins, arcanjos… para brincar eternamente agarrado à saia de Nossa Senhora.

Estou um tanto perdida, sem saber o que fazer com tanta liberdade… tanto tempo que me sobra.

Mas também sobra-me paz e uma alma transbordando de boa saudade.

Estou, de uma forma inteiramente nova, plena! Há uma leveza pairando sobre meu espírito e minha matéria, indescritível, incomensurável.

Que missão me aguardará agora?

Sei que saberei na hora que ela vier. Talvez me reste apenas continuar caminhando com dignidade e tentando dar ao mundo as cores que ele me mostrou… o real sentido de tudo.

O sentido único, paradoxalmente de mão dupla, que é o do AMOR.

Leonardo saiu de cena com muita humildade… a um mês exato do lançamento do meu livro – minha homenagem maior a ele – deixando espaço para que a sua obra seja divulgada.

 Quanto a mim…

Que eu siga o meu caminho com dignidade e alguma utilidade !

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