O monitor enegreceu, os telefones, a geladeira, a televisão  , todos mudos …Ah, não !  Só eu e Leo em casa. É noite. Chove forte.Acendo as poucas velas disponíveis e rumino impaciência e desolação.

Leonardo não parece incomodar-se. Não sofre os problemas da privação das máquinas modernas.

Não  assiste ao futebol pela TV  , não  tecla solitário em rede social, não tem livro para ler ou tese para defender   , rock para escutar ou vitamina pra bater.

Engraçado como ele lida bem com a escuridão. Sem pânico ou lamentação. Sem desconforto , medo  e até, percebo, exala uma gaiata alegria .

Talvez sua luz interna esteja sempre brilhante. Sem nódoas , sem véus, ele simplesmente É  !

Assim como os cegos ,que vida rica Leo deve ter dentro de si ! penso em  estado de Eureka.

Falta-lhe a luz da compreensão, do intelecto elaborado, mas sobra nele o apanhado de nuances raras e as percepções ,a nível molecular

mesmo ,de  tons, cheiros,sons …sensações apenas captadas e decodificadas por seres especiais , e pelas ondas cerebrais  dos autistas.

A cegueira intelectual poderá ser uma benção?

Será  o nosso magnânimo e celebrado  intelecto  um empecilho, um complicador  da simplicidade comovente da vida?

Quantas reflexões me invadem pela simples observação do meu filho que, sentado na poltrona ,hipnotizado nem pisca enquanto penetra no espírito do fogo, que brinca e zomba diante dele.

Ao lado dele, sentada ao chão ,escrevo à luz de vela e ela me remete a românticos tempos do passado.

Quiçá a uma taberna úmida, onde estou com uma caneca de estanho  meio amassada na mão,entabulando uma conversa  etílica.

 Talvez  me transporte à escrivaninha de um quarto atormentado,  com mãos trêmulas ,o corpo tísico de aflição e dor de amor, a escrever poemas.


Neste instante, enquanto o fogo crepita, eu  posso ser quem eu quiser, sou qualquer personagem de um túnel do tempo; ouso viver memórias que não me pertencem…

sou livre para atravessar a chama desta dimensão e sair do outro lado vestindo vestidos com saias rodadas ou calças remendadas de poetas sujos quaisquer.

O silêncio da casa de aparelhos mudos , ajuda na viagem que faço por outras épocas , por outras canetas.

Dá-me uma saudade de algo intenso que não vivi, mas que conheço.

Chego a querer que a luz não se faça mais hoje. Para dormir sob este silêncio violento , com o ruído dos pingos a desmaiar e  a chorar pela janela, abraçada ao vento que sacode a paz dos meus animais temerosos a me olhar em confusão , esperando um sinal de orientação.

Leonardo derrete o olhar nas labaredas dos castiçais, adorando  o ritmo ensandecido de suas danças ancestrais.

Ouço seu respirar denso e tranqüilo , de quem aceita a novidade sem estranhamento ou indagação , com a pacífica naturalidade de quem conhece todos os caminhos, de alguém que em cada trecho passa emprestando claridade própria.

Mais uma vez minha crônica se perdeu pelo caminho. Se desgarrou da idéia e tomou luz própria; seguiu como quis e quase descambou para as fogueiras da idade média , na marcha-a-ré em que andava.

Talvez se a luz retornasse agora eu conseguisse voltar à época atual e pudesse  escrever a idéia original deste post…que , paradoxalmente, era sobre o meu dia, e não sobre a minha noite.

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