Que bom que a vida  é uma montanha -russa!

Num momento estamos quase cortando  os pulsos   , no seguinte  estamos rindo de nós mesmos.

Ai , que delícia  estar vivo!  Sobreviver ilesa  cada dia de uma jornada  diferente . Ressurgir da dor profunda  e dar novo sentido à visão  de um inédito amanhecer.

É, estou poética .

Nem sei de onde vem esta poesia, que brota da pedra dos meus desafios diários .

Hoje acordei  cedo , mas pude ficar na cama por mais tempo .

Leo está em casa, porque as professoras estão em festa, quer dizer, em reunião pedagógica.  Pelo menos desta vez não foi numa segunda-feira. Porque , cá pra nós, ninguém merece um filho com necessidades especiais três dias inteiros dentro de casa .

Viu? A poesia esvaiu-se com a rapidez do pensamento.

Pude tomar o café relativamente em paz, cercada de três pares de olhos cheios de cobiça e desejo por  queijo branco  e pão com geléia e preparar o desjejum do polaco  .

Tudo feito em muito silêncio. Socorro lava os pratos em câmera lenta , para não fazer ruídos despertadores do nosso belo adormecido. A vida no convento flui  embalada  no suave  barulho  inevitável  das nossas tentativas  de viver monasticamente.

Ao menor gemido do Belo, os movimentos são suspensos. Os ouvidos aguçados e paralisados  rastreiam as ondas sonoras que vem do lado do quarto.

Nada feito. Leo desponta na porta , por trás do vidro trabalhado entre molduras de madeira, com a cara cheia de sono gordo.

Parece ter acordado bem.Talvez hoje não me arranque outro tufo de cabelos. As melenas , que nunca foram fartas ,agora gemem de medo  à aproximação das mãos do gladiador.

Depois de trocado  volta para o quarto…a cama já sem os lençóis  mijados,  providencialmente retirados  em tempo recorde  pela esperta Socorro.

Dou banho na Ming Yu . A pobre treme de frio e eu preciso sacudir meu couro como ela, depois do jato de água escapado de cima a me encharcar  cabelos e camisola.

Leonardo na rede, Ming Yu , sua fiel escudeira,  ao lado , sentada  secando  ao sol da manhã e eu  escrevendo esta crônica entre procuras de receitas de sopa de abóbora e de abobrinha recheada e espiadelas rápidas na turma.

Falo em comida, retorna a poesia.

Numa das levantadas para conferir se todos estão vivos e bem dou de cara, maravilhada  com seis novos botões de rosa  na jardineira da frente da casa.

Sopa de abóbora neste frio,   a brotação descomplicada e bela da minha roseira  , minhas unhas ainda intactas da manicure do dia anterior  e  a satisfação interior por levar a cabo meu segundo dia de dieta ( a sétima tentativa este ano) …como não sentir  o lirismo a  correr pelas  veias  e  se atirar da pontas dos dedos ao teclado  !?

No alto do carrinho da montanha russa, espero  lúcida e apavorada o momento de descer , torcendo para que a queda seja suave, sem susto.

Não devo esquecer  a sensação inebriante das alturas …é desta lembrança que vivo.

E  é por ela que  anseio  quando o carrinho está  voando baixo,quase tocando o solo , querendo parar e me  deixar descer.

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