Estava eu aqui a cavar antiguidades e a desenterrar  memórias musicais, a retornar aos meus dezesseis  dezessete anos quando, encerrada no meu quarto adolescente, me acabava de cantar junto da vitrola, todas as faixas do  LP APERTE … NÃO SACUDA  (título de execrável gosto, por sinal), dos Meninos de Deus, por cuja ideia romântica estive apaixonada e por cuja comunidade estive enfeitiçada  naqueles idos; desejava unir-me às suas vozes e aos seus violões a pregar a paz e o amor à juventude perdida.

Deste movimento religioso que evangelizava misturando cristianismo com amor livre restaram gravadas em minha memória,e não me pergunte porque, as músicas  CÊ TEM QUE SER UM MENINO  E NO MIRES ATRÁS.


 A primeira preconizava que a gente tem que ser um menino pra ir pro céu.

Minha longa fase religiosa começara bem antes.

Acreditem, por volta dos meus 10 anos pensei em tornar-me freira …concluo agora que este surto esteve  atrelado ao medo que eu tinha dos homens e, em grande parte,à influência de uma jovem  irmã, bonita e ousada, que num piquenique do colégio Santa Joana d´Arc, tirara o véu  escondido das outras irmãs,no Arroio dos Macacos, só pra satisfazer nossa curiosidade e ver como era por debaixo dele.

 Ainda havia  o mistério dos dormitórios, espiados ao longe por nós, aquele monte de camas lado a lado, naquela luz penumbrosa…ah coisa divina  de tão linda!

 Ainda lembro, como se hoje fosse, da escadaria do colégio que levava até o teatro, que eu amava e temia, sempre  com medo de ter que subir ao palco ( ó, maldita timidez! ), pois fora num daqueles  malfadados degraus que eu recebera a notícia de que Papai Noel era uma invenção cruel dos meus pais.

Eu amaaaaaaaaaaava o gordo friorento e sentira-me apunhalada dentro de minha própria casa.

Mortalmente ferida ainda tivera que saber -pra meu horror e incredulidade- lembro bem, com crueza de detalhes,o método pelo qual meus pais me tinham feito e ele era muito diferente da doce cegonha longilínea  que carregava bebês no bico.

 Como eu era burra! Eu sim, fora passada no bico. Ficara  vexada,escandalizada, quisera sumir com aquele rubor nas faces que me atormentava sempre nestas horas.

 Jamais esquecerei que foi Edda Pullman, a alemã,  um dos rostos mais lindos que já conhecia até hoje, a me tirar a alegria do Natal; fora a fofa quem me dera  a punhalada sobre o barbudo da Lapônia. Como esquecer a gargalhada de dentes perfeitos na linda boca vermelha, de puro escárnio;o prazer maldoso nos olhinhos azuis a gritar  às outras a minha ignorância.

 

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Da outra canção tento seguir  as proposições  e derivações da letra até os dias atuais  .

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Sei suas palavras par coeur  até hoje. A adolescente que amou intensamente aquela fase registrou para sempre a letra daquelas músicas  bobinhas.

Nossas mentes e corações escondem tesouros  arqueológicos no baú das nossas memórias. Pequenas  bijouterias com valor de jóias raras, que nos alimentam vez por outra e nos  salvam .

A timidez, o medo dos homens, o fascínio pelo mistério das irmãs do colégio da meninice, as descobertas escandalosas da puberdade, os ouvidos calejados pelas músicas  dos Children of God, as horas dedicadas  ao violão e ao  canto, do tempo de  juventude são pérolas soltas de um colar de amáveis recordações,  caídas no fundo  de uma mala velha  no sótão da minha casa.

Estão empoeiradas, mas o brilho está lá …basta uma espanada da saudade pra que elas retomem  o lustro de joia, de passado feliz.

E sigo cantando:

Me dijeron que yo no podría volar

me dijeron que yo nunca volaría

pero aquí estamos en las alas del viento 

el cielo es infinito.




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