Tempos difíceis …mudança de cidade,  guinadas no meu roteiro de vida  , uma nova sensibilidade acordada  pela grave doença cardíaca do meu filho , a possibilidade  iminente do mundo virar de pernas pra cima a qualquer momento…tudo isso me fez dar à comida um poder  maior sobre mim:o de refúgio.

Correndo atrás do prejuízo  matriculo-me numa academia  e resolvo recuperar a saúde do corpo , que já tem me cobrado seu preço .

 Estou eu bem resignada , imbuída de  boa vontade  de despertar meu corpo para as delícias do suor e  do poder das endorfinas … Sintonizo,então,  um canal de filmes na moderna esteira que me abriga  e continuo a marcha.  O filme é TEMPO DE DESPERTAR , com Robert de Niro e Robin Williams ,que devo estar revendo ,no   mínimo ,  pela quarta vez .

Bronx, 1969. Malcolm Sayer (Robin Williams) é um neurologista que conseguiu emprego em um hospital psiquiátrico. Lá ele encontra vários pacientes que aparentemente estão catatônicos, mas Sayer sente que eles estão só “adormecidos” e que se forem medicados da maneira certa poderão ser despertados. Assim pesquisa bem o assunto e chega à conclusão de que a L-DOPA, uma nova droga que já estava sendo usada para pacientes com o Mal de Parkinson, deve ser o medicamento ideal para este casos. No entanto, ao levar o assunto para o diretor, ele autoriza que apenas um paciente seja submetido ao tratamento. Imediatamente Sayer escolhe Leonard Lowe (Robert De Niro), que há décadas estava “adormecido”. Gradualmente Lowe se recupera e isto encoraja Sayer em administrar L-DOPA nos outros pacientes, sob sua supervisão. Logo os pacientes mostram sinais de melhora e também mostram-se ansiosos em recuperar o tempo perdido.

Este filme sempre me fascinou , mas desta vez sou pega de surpresa por um novo olhar sobre ele.

Tela cheia, meus olhos recaem na parte em que De Niro , catatônico, começa lentamente a despertar , a ver o mundo de novo, a falar , a questionar, a sorrir .

E eu que estava há poucos minutos apenas na esteira infernal , olho para baixo e  noto que minha blusa azul tem pingos escuros e que eles não são de suor.

A mãe do personagem é chamada a presenciar o despertar do seu filho e , mais do que nunca, a cena me provoca uma alegria imensa  de identificação e o desejo de estar vivendo aquela situação .

Mesmo agora é muito difícil pra mim digitar estas palavras sem  gotejar noutra roupa, com lágrimas de um sonho que só será realizado noutra dimensão.

O que Leonardo me diria se “acordasse “ de repente?

Será que meu coração suportaria tanta alegria ?

Continuo a viagem…

Como seria lindo vê-lo  ir sozinho até  a carrocinha para comprar  cachorro -quente, sentar na praça e chupar picolé , sair com o irmão  mais novo e com Alexandre,pela primeira vez, trocar piadas , comentar namoradas , poder dizer que o ama.

Precisei afastar correndo esses pensamentos para não  causar comoção no meu segundo dia de academia  ou precisar dar algum tipo de explicação ao instrutor e aos  colegas malhadores ao meu lado por causa dos meus olhos   vermelhos e inchados.

O tempo de esteira esgotou-se. O filme foi cortado abruptamente.

Mas o longa do meu cotidiano continua, as questões continuam sendo  apenas isso…questões.

Leonardo continua no seu mundo…não sei mais se ele é feliz assim.  Ando tendo dúvidas ultimamente.  Tenho notado exacerbada irritação e desconforto nas suas demonstrações de sentimentos.

Mas não vou povoar minha vida com “ e se “ .

Vou continuar tentando entendê-lo o melhor que eu puder  e  tentando  achar as chaves do seu despertar …com a  minha cota de amor possível  .

Não devo sofrer com o que foge ao meu controle.

Mas posso amá-lo  do jeito que sei  .

Meu filho está acordado do jeito que sabe.

Leonardo  , se pudesse falar me diria, provavelmente:

ACORDA  DORMINHOCA !

É Leo… provavelmente o  problema sou eu…tu , meu filho, és somente SOLUÇÃO.

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