SIM , ELAS EXISTIRAM.

E AINDA ESTÃO ENTRE NÓS …

Nasceu Samara num doído e cinzento  dia de julho , no seio da  grande família de bruxos.

Zinah, sua mãe, jamais perdoou-se pelo erro de cálculo, pois Sam era para ter sido parida em agosto , perto dos festejos  da Grande Lua Crescente  da Capadócia, festa que abençoava e garantia poderes especiais aos nascidos , como o de congelar a dor  física  pondo a mão na garganta e olhando para o alto ,sempre que  o lupino o desejasse ardentemente  e estivesse  sob  a sombra, fosse do sol ou da lua, de uma árvore escolhida e por ele preparada .

Sorel  , irmã de Samara, seria para sempre a única lupina da família . Restavam , no entanto,outras possibilidades de dons a serem herdados e permitidos  de desabrochar  e era nesta premissa que se baseava toda a tormentosa vida de Zinah, outrora uma grande e respeitada  bruxa,  que atraía irmandades de todas as esferas globais e agora aprazia-se e preenchia todo seu tempo tentando reaver o prestígio de outrora.

A pequena Samara  era de uma beleza especial e iluminada. Seus trejeitos eram doces , somente traídos pelo olhar inquietante e sensual  que teimavam em penetrar e desnudar a alma dos que a cercavam. Juno e Cozeto, seus irmãos mais velhos sempre procuravam esquivar-se daqueles olhos certeiros e estranhamente tristes e poderosos , temendo revelar a fraqueza que os dominava  toda vez que a irmã caçula os encarava.

Samara não entendia porque as pessoas não permaneciam muito tempo na sua presença.Por mais que tentasse  ,vivia numa solidão habitada somente por seus pensamentos e sonhos . Trancava-se no porão por horas a fio e falava com os seres , enquanto os tocava, alimentava e devolvia-os às suas gaiolinhas  de dormir.  Não podia deixá-los soltos por muito tempo , pois eram arteiros e podiam ser muito maus. Alimentavam-se de trufas  da floresta e -manjar dos deuses !- de sentimentos de tristeza e  mágoa.

Às vezes era difícil para Sam descer e transformar sua alegriazinha em uma dor qualquer que lhes desse de comer.Nestas horas os pequenos  alefos viravam-se de costas para ela e lançavam maldiçõezinhas entre dentes e as suas mãos latejavam e expulsavam minúsculos alfinetes que se mostravam e se recolhiam ,como  numa  dança esquisita   de cactus minúsculos .

Assim, ela passava muitos dias sem poder ir ter com eles , culpando-se por  trazer dentro de si golfadas de felicidade. E ela ,que possuía olhos de um verde tão profundamente melancólicos, lutava para conter  os bolsões de sonhos  tépidos e alegres que lhe acometiam de uns tempos para cá, desde que vira  o jovem  Brumon ,da cidade  de Tóia , a lhe sorrir através da vidraça da estufa das heras sagradas.

Fora atingida de pronto e com apenas treze anos  um sentimento estranho a possuíra e dominara  a ponto de passar longas tardes deitada no campo  colado ao cemitério da família , escondida atrás da pedra rezadeira , a imaginar como seria ver de perto, sentir de verdade a presença medíocre do  belo jovem  normóico, como era chamado todo  aquele diferente deles, um mero humano sem poderes ou capacidades mágicas.

A tarde engolfava a claridade restante do dia  e Samara com relutância pensou que precisava  colher as trufas dos seus alefos famintos antes do cair do sol . Precisaria deles, os mágicos seres do porão ,  na hora de fortalecer-se e decidir seu destino com o normóico. Além disso, eram sua única companhia e alento.Distraía-se tentando amansá-los com doces gestos e reprimendas assertivas.

Zinah , entretida com os preparativos da grande Festa  da Lua Crescente mal lhe notava as agonias  da alma . Nos tempos do pai ,o frágil  e sensitivo Gustaf , as coisas não lhe escapariam assim. Mas ela nunca o conhecera fisicamente. Ele lhe aparecera um par de vezes  no seu quarto  e ela agora vivia a esperar por um novo contato, por uma nova tempestade  de vento e calor, como foi daquela vez,quando ele se revelara  e  lhe abraçara para dentro do manto e de si mesmo e sem palavras lhe prometera lhe ensinar tudo o que sabia e de como entrar dentro das pessoas.

Sorel  lhe notava a melancólica dor nos olhos e como lupina que era sentia-se impotente; poderia congelar somente a sua própria dor , enquanto acompanhava em sincero martírio  os imbróglios da alma da irmãzinha .

Brumon  apareceu  na Mansão  das Runas  a espreitar e a  tentar tirar suas próprias conclusões acerca da estranha gente que ali morava e que , mal afamada, despertava todo tipo de escrutínio e falácia por parte dos moradores da  farisaica cidade.

Fora assim que avistara a bela bruxinha  que, distraída, murmurava alguma coisa  e sonhava dentro daqueles olhos mergulhados em algum abismo profundo  a procurar algo ou alguém que lhe deitasse atenção. Fora  assim que a percebera e que por ela  caira de curiosidades e amores. Esperava agora revê-la e tentar mergulhar mais fundo dentro daquele verde e misterioso mundo tão dela, um mundo que a fazia refém e que, aprisionada, não podia subir à tona de medo de não saber respirar ou de não entender como funcionava tudo do outro lado.

Os alefos andavam  irritados , um pouco decepcionados com a bruxinha cuidadora  . Queriam acompanhá-la, aconselhá-la, morar nas gavetas de roupas do seu quarto  .Eles nunca tinham visto estas coisas ,mas sabiam que elas existiam. Eles tinham este poder e esta  limitação.Queriam  brincar com os colares e brincos de ouro , dentro dos sapatos nos armários e  espiar da janela  o jardim e as pessoas que chegavam na Casa das Runas.Sentiam-se traídos e estavam zangados com o pouco tempo que ela lhes dedicava ultimamente. Gostavam de ter influência  sobre ela e sabiam  de muitas coisas que ela própria não tinha alcance ainda. Eles podiam atrair  pessoas à distância , tramar armadilhas , encantar os normóides  e até enfraquecê-los e usá-los para seu benefício . Por isto Sam os mantinha engaiolados e sob supervisão. Ela era diferente. Era sua cuidadora e  a única capaz de  incapacitá-los de seus feitiços miúdos  se assim o quisesse. Tinham que ter, portanto, um certo cuidado em  não irritá-la além do  limite,para não correrem o risco de voltar a morar aprisionados nas seivas das árvores e viver eternamente a correr dentro delas sem poder parar para contemplar  ou realizar. Ela os libertara e ela os poderia devolver  se assim o desejasse.

Sam  vestia uma túnica azul- cerúleo  e trazia lindos pingentes em forma de raios nas orelhas. Entretida dentro de si mesma não notou a movimentação  ao lado da lápide do pai. Uma sombra avançou diante de si ,agigantando-se  quando estava abaixada a escavar a terra no pé do velho carvalho,atrás das trufas  … ela congelou  abruptamente o movimento com medo de voltar o olhar para cima e descobrir  a novidade que o dia lhe trazia. O coração aos pulos ,as mãos geladas; a pulsação foi por ela diminuída e  seu espírito lentamente preparado para retrair-se ou contra atacar a tal presença  que agora era como menta a escorrer pela espinha  lhe causando  calafrios e lhe eriçando os pelos da nuca .

Fechou os olhos, espremendo-os com força e poder , uniu os dedos em pontas e elevou-os à altura da testa pronunciando alto a frase mágica que o pai lhe ensinara em sonho.

Neste momento um corpo de vestes negras caiu-lhe aos pés, convulsionado e sem chance de reação e entendimento.Uma criatura  com corpo  emplumado e  boca em bico , com envergadura humana ,mas com andar estranhamente animal  fugiu às pressas para dentro da densa floresta atrás do campo santo e desapareceu nas sombras que cobriam tudo.

Depois da invocação de poder e guarda Samara percebeu que envelhecera cinco anos e suas roupas lhe apertavam agora  os seios e os quadris de uma forma que lhe parecia  normal . Os sentimentos dela  procuraram suas casas para voltar e as encontraram pequenas e partiram à cata de novas. O pai a avisara. A invocação tinha um preço. A menina abriu os olhos bem  maiores agora, de longas pestanas  negras  e  deitou-se  ao solo para sentir-lhe a crueza e a força que  daquele  instante   em diante começaram a lhe contaminar e a promover trocas energéticas  femininas entre elas. Elas se completavam, se entendiam , terra e mulher , elementos e vísceras em comunhão para sempre.Sam podia  sentir  o veludo da voz das gramíneas, dos lírios do cemitério, o estalar das criptas, o cheiro doce do ar dos corpos decompostos dos seus antepassados . Antecedia  o pulo ritmado  dos grilos ,saciava os ouvidos com o som   dos veios d´água a correr no lençol freático debaixo dela.  Trocava informações com as seivas e seus respectivos alefos  em  cativeiro , sentia uma a uma as moléculas do ar  que respirava e que  entrando lhe avivavam as entranhas  amadurecidas da manhã para a tarde, num fecundo e literal piscar de olhos.

Sentia-se viva como nunca antes e com o poder a escorrer pelos membros superiores e inferiores entrando pela terra  e subindo novamente em direção às pontas dos seus dedos  dos pés e das mãos. A tristeza existia ainda  , mas bem guardada que estava, latejava com as mãos atadas num baú fechado dentro dela. A alegria  também permanecia intacta num canto ermo dentro de si ,mas vivia enclausurada agora  no arcaz rosa-laca  ao lado do baú da velha antônima vizinha.

Levantou-se envolta neste manto de força e caminhou para casa lentamente seguindo os últimos raios do dia, quando sentiu-se tomada  por um  espectro de luz  arrebatador  ,as luzes dançando em diferentes velocidades e a sensação nítida de  gradual diminuição da densidade do ar.Farejou como bicho  uma  energia inexplicavelmente  bela e pacífica  e sorriu pelos cantos da boca bem feita.

Num movimento  de capa , com a rapidez dos felinos , Sam voltou-se curiosa e sedenta ,num salto  que era pura beleza .Brumon  tropeçou  e caiu  diante da dança acrobática daquela  fêmea de expressão e modos repentinamente  ameaçadores.Ergueu a cabeça irritado e aturdido, furioso consigo mesmo por tal estabanada reação , como que a pedir explicações por tão bruta e extraordinária  apresentação  da filha da grande  bruxa .

Então era assim que sentiam os normóides-pensou ela   subitamente enfraquecida . Ela lhe podia  ler as entranhas, os suores, os hormônios despertos, o fígado com suas raivas , os rins e os seus medos , o coração em seus batimentos descompassados, os cheiros,as fragilidades, as generosidades e aflições  . Que beleza continha aquele quadro diante dela. Ela podia ler seus pensamentos de desejo e amor por ela. O pai a havia prevenido e ensinado e agora eis que afinal chegara o tempo da colheita.O ônus e o bônus pisando em brasas da mesma fogueira.

Brumon, desacorçoado com a força daquele olhar de entendimento, sentiu-se  nu e fugiu pelo mesmo lado por onde aparecera.

Agora ela poderia voltar para os seus alefos e sonhar pelo resto dos seus dias na terra e depois deles também , perpetuando  aqueles sentimentos, as energias, as impressões todas que colhera e registrara dentro de si.

Eles não poderiam ser um do outro. Mas ela não precisava que fossem. Poderia  viver daquele momento para sempre , alimentando-se  platonicamente daquele amor  mal apresentado , afoito e represado , mas que de tão intenso bastaria para que seu universo interior se enchesse de uma eternidade  de amor sem pressa  .De agora em diante   ,com compaixão ,dar  de comer  aos serezinhos do porão seria para ela motivo de  doce conformidade ,  de submissão consentida  e ,sobretudo, de poder ter o tempo todo do mundo a sós com os bons  e mágicos pensamentos.

Denise Bondan    ( to be continued? )

………………………………………………………………………………………………….


O GRANDE FESTIVAL DA LUA CRESCENTE

DA CAPADÓCIA …

e a dança de Zinah, como eu a imagino.


Anúncios