Depois da síncope de Leo, exames são pedidos.

Sábado, dia de tirar sangue, aproveitando a vinda do marido de São Paulo, um bom reforço na equipe pra hora do exame vampiresco.

Antes , um corre- corre danado. É necessário um jejum de doze horas. Na sexta , forço o mocinho da história a ingerir um Nescau às 22:30 hs.   Como no sábado  ele pode dormir até mais tarde, me programo para levá-lo no laboratório  a partir das dez da manhã. Segundo a atendente, previamente consultada , neste dia o afluxo de clientes é intenso e tardio. Pergunto, checo a possibilidade de pronto e especial atendimento, previno o povo do lab sobre os perigos da criatura do dia seguinte.

Leonardo  levanta-se às 10 hs , me apanhando  ainda inacabada …faltam os brincos, o sapato  , as bugigangas   na bolsa- aquelas entretenedoras do cara ,que nos salvam por segundos , à hora do sufoco maior.

Enquanto  o coloco no banheiro e lavo seus países baixos , repenso a logística da coisa: plano de saúde do Leo ,ok, requisição de exame, ok …hum,preciso ligar o carro e o ar condicionado , caso precise  enjaulá-lo, isto é,distraí-lo para que não coma nada na cozinha.

Corpos em prontidão, emoções ajustadas…lá vamos nós.

Como ainda faltam uns 15 minutos para iniciar a missão, procedemos a uma volta mais longa de carro.

No Sérgio Franco, colocamos o carro no setor reservado às pessoas especiais, próximo á rampa de entrada do laboratório.

Leo está com um humor pra lá de razoável.Obrigada Senhor !

Desço e agilizo a burocracia de entrada , certificando-me que todos estejam a postos e que ele tenha prioridade de atendimento.

Requisito um profissional de bom calibre , com pontaria , paciência e mãos delicadas e firmes.

Muito bem Denise. Tudo certo, tudo lindo.

Ao sinal de ataque, kadado entra em ação e procedemos à retirada do nosso loiro, agora bem impaciente e doido para saltar do automóvel.

Calçamos novamente suas  sandálias que ele havia retirado  para com elas brincar .

Todos os funcionários tensos do lado de dentro.

É esta a criatura? O cara de camiseta  vermelha?

Olhos inquisitivos , sombras em uniformes esgueirando-se pelos corredores para observar a chegada do alardeado visitante.

Leonardo , de cenho franzido , entra mal contido pelo pai  ,pela porta dos fundos –acesso mais rápido e plano- e é conduzido  à salinha do fundo , onde duas moçoilas de ares preocupados o observam tentando  ler no gestual do paciente o nível de dificuldade  a ser enfrentado.

Na passagem roubo dois copos de plástico para dar para ele distrair-se, just in case.

É sentado e já aparecem mais dois rapazes  aos primeiros gemidos altos do nosso loiro azedo.

Enquanto pego um braço, Kadado pega o tronco e o outro braço e Leo começa a irritar-se com a contenção.

A moça , calmamente procura uma veia no braço direito , mas esta não dá o ar da graça.

O outro braço é requisitado e há uma troca de posições , em busca de um maior controle da criatura agora bem descontrolada.

Um rapaz então põe-se atrás da cadeira para conter o tronco em fúria, que está aos solavancos para a frente, querendo ir embora. Meu marido senta-se no colo dele para conter-lhe  as pernas irritadiças e mortais.  Eu ajudo a pegar o braço nervoso e forte que a moça ainda estuda e ainda procura por veias.

Leo começa a dar golpes com os braços , impedindo qualquer manobra da equipe do laboratório.

De repente, trégua .  Leo acalma-se.

O rapaz do tronco diz: ele urinou-se! ( Ah, então foi isso?! )E recomeça o embate e os sons de franco protesto .

A moça 1 grita por lençóis à moça 2.

Penso que são para pôr embaixo dele , por causa do xixi. São para amordaçar suas pernas à cadeira.  Explicamos que será pior e que quanto mais rápido ela fincar a agulha, maiores serão  as chances de êxito.

-Tente, por favor. A veia está aí. Confie em mim.

Ela atende e consegue , de primeira!   King Kong nem reage. Mão boa, penso eu.

Muito sangue é colhido. Vários tubetes enchidos .

Olho para os lados e conto. Somos seis a segurá-lo.

Faço agrados ao filhotão e sorrio aliviada.

Parabenizo a equipe e bato palmas ao término.

King pode voltar para seu habitat natural e comer suas bananas, todinhos e bolo mármore.

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