Foi isto   que  escrevi na chegada do hospital, antes de dormir…

QUEM  MEXEU AS MINHAS PEDRAS???

Um vislumbre  de morte  passeou lá em casa.

Quem mexeu as minhas pedras?!

Deus, que anjo lindo caído na varanda!!!

Pelo menos foi rápido,aparentemente  não sofreu , não posso deixá-lo ir assim sem tentar o que vi nos filmes ( respiração boca  a boca, massagem  cardíaca). A  inevitabilidade  daquilo que  tememos ; o outro lado chegando  disfarçado  , o antônimo da vida  cumprimentando com luvas sujas de terra ;um horror, uma obra prima de cor arroxeada ,sombras lilases por todo o corpo ; a vida carnuda da boca sem vida, os cílios parados sem beijo , nem borboleta,  a ausência  de vida mais  viva  que já presenciei até hoje!

Sem brisa de respiração, um rosto esculpido em cristal de quartzo. A beleza do outro lado a me visitar antes da hora. Há hora?

Nâo  quero brincar disso !   devolve a pilha do meu brinquedo.

Um anjo  belo que não luta para ficar …quererá juntar-se à Legião?

Leonardo sem peso, pesava o mundo !  Barroco querubim , saúde  brincalhona,  sem espasmo, nem aura , nem pulso, só peso pesado engordando o ar.

A morte não me pareceu tão ruim…

Quanta força vital  num elástico esgarçado ….corpo suado  , esfriando , com a vida visitando outra dimensão , levitando arriado no piso xadrez da varanda ensolarada. Amarelinha do destino , gaiatice de Deus. O sol lindamente  depositado num templo longínquo de um corpo  entregue  ao criador.

Não luta a angústia do viver, não vê  o olho borrado de rimel,  a água salgada que rasga a bochecha, a maternidade pedindo licença  pra escapulir …homem –pássaro  sem peso , nem culpa , sem ideais, sem  conquistas…só lindo de viver!

Como será viver assim ?! Num ninho , catando o vento , cheirando  o sol na flor .

Como foi terminar assim? Ele está ou ele já se foi ?!.  Doçura e dor, tão juntas , mãos coladas sussurando baixo . Um misto de doce impotência e doída  resignação  conversando sem chegar a acordo algum.

Centenas de pensamentos disputando a autoria da razão.  Vontade de   se deixar à volúpia do  querer divino. Apenas  esperar , sem interceder.  Contar que a beleza vem de qualquer modo.

Exercício de desapego?  Brinquedo sem graça alguma?

Coração na boca, coração na mão, sobe e desce , pif –paf.

Preciso dormir!

Não demora   o sol vem me chamar….vou pedir pra brincar de outra coisa!      ( segue abaixo…)

Ontem vivenciei uma “experiência de morte”. Não metafórica. Literal.

Não minha .

De um filho .

Convulsões  ? Ataque epilético? Síncope?

Sou chamada à escola com urgência.  A crise convulsiva havia passado, ele ficara desacordado e  estava agora num estado agitado demais.

Já em casa, estou saindo do banho, me gritam por socorro o jardineiro e a empregada.

Leonardo, sem sinais vitais aparentes, estendido jazz no chão da varanda .

Silêncio. Tempo parado pra mim. Tempo que urge pra ele.

Ligo? Toco nele? Falo? Choro? Grito?  Velo  aquele corpo lívido?

Não respira, não reage. Massagem cardíaca. Ele está morrendo ou será que já se foi?! Penso em como foi rápido.Em como está lindo. No que vai ser a minha vida sem ele. Como contar ao pai. Cumpriu sua missão?  Não, preciso ressuscitá-lo.  Meu Deus, preciso tirá-lo do chão…por favor alguém me ajude. Me perdoe kadado. Eu não pude fazer nada. Que paz estranha é essa. Então é assim? O sentimento de  morte é doce? Perfumado como o hálito de um filho?  Nada disso…não vou facilitar , senhora ! Ele ainda  mora aqui e eu cuido dele…e bem.

Tento o número do  hospital, sem sucesso. Da portaria  , atrás de mãos  fortes que lhe alcem o corpo pesado. Leo tem um peso tal que três de nós mal move. É arrastado pela grama para o banco do carro….como  um afogado, a duras penas para a beira da praia.

Pai Nosso que estás no céu…, Ave-Maria cheia de graça , nam myoho rengue kyo.

As cachorras atrapalham , fazem festa no meio do caminho, excitadas com a abertura da porta do veículo.

Superamos os nossos corpos pequenos . O jardineiro  num transe aparvalhado, coitado, não emite som. Petrificado , parece bem menor do que é !

Recolhe os bichos e bate a porta ao sair, Antônio ! friso.

Lágrimas teimosas tentam afrouxar  meu tino . Iara está contaminada e chora junto.

Chegada triunfal ao hospital, com direito à buzinadas e pedidos de remoção  urgente.

Atendimento questionável. Médico neurologista com humor na medida errada, numa  hora inadequada.  Máscara de oxigênio no polaco!

Doutor, ele nunca teve isso !!!!

Há sempre uma primeira vez para tudo , responde rindo.

E vai embora. Leonardo inerte.

Volta do profundo de si mesmo  e com os olhos fora de órbita emite sons de dor e confusão. Pessoas passam e lançam olhares apavorados e resignados com seus problemas.

Alexandre nos acode, voltando do serviço.  Vai em casa buscar a carteira do Plano e o telefone de casa do neurologista, até agora não encontrado.

Novos espasmos, olhos alucinados, choro, gritos. Por onde anda o meu homem- menino?  Numa estrada esburacada? Atrás de mim? Em nuvens  que lhe atrapalham, o passo?  Exausto querendo chegar ? Lutando num sonho ruim?

Uma hora mais tarde, diazepan na veia , para controlar a inquietação .

Dorme como anjo que nunca despertou. Lindo.O tom roxo cede das  faces.

Percebo que na pressa fui sem calcinha. Rio numa necessidade  imensa de relaxar.

Cabelo molhado em rabo, cara lavada. O que? Ah não!

Um par de brincos na bolsa. Ufa!

Leo no soro  dorme, maquiagem rápida ( lápis, batom, blush ). Me sinto bem melhor.

Peço um clínico geral.

Asculta-o , toma sua pressão. Tudo normal.

Marido aflitíssimo a ligar de São Paulo a cada cinco minutos.

Neuro localizado à custo  sugere  ataque epilético, uma vez que Leo tem autismo e uma nunca antes revelada epilepsia.  Ou melhor, houve uma vez  em que deve ter sido e não sabíamos.

Liberada a sua saída Leo é um saco de mais de noventa quilos bem enchido e suculento.

Dorme em seu quarto fresco  agora.

O anjo de volta ao lar.

Ai, como dói viver.

Boa noite , Senhora   Morte !

Serviço dispensado.

Bata a porta ao sair !

 


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