Domingo com mormaço de Saara…

deito após o almoço, sonho e acordo com as

duas frases iniciais desta poesia , ainda mornas:


Bendigo a poesia a  frio

Vinda dum rascunho sujo dentro de mim

A que brota em garranchos num sonho não concluído

Acordada , não faz sentido

Como não faz a própria vida, às vezes.

 

Bendigo  a poesia  emaranhada

Cuja ponta no novelo velho se prende

Quer tecer um sonho  lúcido

Com esta trama de fio enlouquecido

Mas me aperta e tortura em laços.

 

Bendigo a poesia acabrunhada

À fórceps nascida , ensanguentada

Úmida,contida , trincheira de lutas passadas

Sonha a liberdade de uma terra  recém mexida

Só com ferros  da alma é arrancada .

 

Bendigo a poesia alada

Do veio do centro da gente , regurgitada

Do miolo bendito do templo humano

Toma voo sem sopro,sem asa aparente

Trespassando na subida  carnes e carma.

 

Bendigo  a poesia marota

Livre do arbítrio alheio

Senhora de bem  e humorada

Galhofa sem peso ,nem culpa

Sorrindo sem dente, no palco sentada.

 

Bendigo  a poesia  amorosa

Habitante dos corpos afortunados

Arcaz  de felicidades transitórias , modestas

Pontilhão de tábuas secas ,  do alto espia

Águas benditas lhe passeando , por entre as frestas.

 

Bendigo a poesia  intuitiva

Não parida no esforço, no cabresto

Gerada do espasmo da alma

Dum brotar leve e solto de um salto

Do pensar que não pensa, só sonha.

 

( D. Bondan   23 de janeiro de 2011 )

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