Estava aqui pensando em alguma coisa para escrever.

Nenhum assunto em específico e tanta coisa passível de ser comentada.

Não , não vou falar da violência , nem da velocidade com que chegamos ao fim deste ano.

Não vai ser uma boa crônica…pressinto. Apenas uma tentativa , uma brincadeira-desafio comigo mesma  .

Leonardo acaba de interromper este mau início . Que bom .

Acabei de voltar do seu quarto  , de devolvê-lo  de onde saíra  atrás de mim  e aqui estou  recomeçando.   Sem saber , apenas por instinto de filhote querendo a mãe, acordara  e viera à porta  , aqui onde escrevo ,como que a pedir minha benção. Assim que o coloco na cama, aproximo meus lábios do seu ouvido , murmurando qualquer coisa para  ele- tão  pouco sabe de palavras- que  sorri agradecido com meu “carinho –migalha”, pedindo mais. Eu dou  .Coloco agora meu nariz dentro da sua orelha – ele gosta da cócega ! e  começo,então, um cafuné tímido no  cacho que pende à testa e ele ,felinamente ,entrega-se  aos meus dedos, como fazem meus gatos,meus cães, de olhos fechados , em total deleite  .

Ora vejam.Estava a ler Clarice para o Clube de Literatura, na terça ,   justamente onde ela fala de bichos e da sua relação com eles.  Escrevera  algo que me fez ler e reler . Dizia assim.

”… conheci uma mulher que humanizava os bichos , conversando com eles  , emprestando-lhes suas próprias características. Mas eu não humanizo os bichos, acho que é uma ofensa-há de respeitar-lhes a natura- eu é que me animalizo.Não é difícil,vem simplesmente,é só não lutar contra  , é só entregar-se. “

Leonardo nunca leu, nem  lerá Clarice    . Nem precisará, me ocorre.Sua natureza é simples como a dos animais , que apenas gostam de se entregar ao gesto do amor. Recebem e nos fazem  sabedores disto.

É isso Clarice. Com Leonardo eu me animalizo. Comungo  sua inocência bruta  e ancestral . E nesta hora somos a mesma coisa. Por certo, sempre fomos, mas o verniz me cobriu com o passar do tempo.  A ele não. Mantém intacta a condição selvagem e pura e isto é a minha lição maior e a minha- enfim escolhida- crônica de hoje.

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