Ontem assistia à Lya Luft numa entrevista a falar da sua facilidade, desde a mais tenra idade, para criar  e conversar com personagens imaginários.

Identifiquei –me de pronto, pois tenho na memória, lá para os idos  da infância,na casa dos nove, dez anos, a imagem surrealista de um pato  donald  que descia pelo  armário escuro e entalhado do quarto onde eu dormia, a me assombrar debaixo das pesadas cobertas.

Lembro da clara  confusão que sentia por não poder distinguir a realidade da fantasia e aquilo assombrou-me por anos pelo assustador  realismo  com que a percebia.

Outros seres me visitavam e destes não tenho a certeza do rótulo.

Infelizmente tenho pouca capacidade de memória .

Felizmente para o leitor, não encherei páginas a dissertar sobre histórias desinteressantes para ele de toda  uma  vida paralela minha.

Já faço misérias com as minhas desmemóriaspois meu mundo POSSÍVEL DE EXISTIR me toma boa parte dos pensamentos.

Nem assisto direito ao programa, já questionando minha identificação com La Luft.

Pergunto-me num átimo : porque tenho tanto encantamento em circular nos universos dos estereótipos humanos? E essa tendência grande de divagar por mundos que não vivi , vestindo personagens que desconheço, sejam eles reais ou fictícios?

Simples , suponho. Porque descobri que SOU MUITAS POSSIBILIDADES , um feixe delas…realizáveis ou não.

Convivo com  uma população que vivedentro de mim…uma manada de sem -terra assentados no meu EU , ora inofensivos , apenas latentes ..ora perigosos e enfrentadores… Querendo  expulsar-me de mim mesma.

Uma alcatéia inteira a uivar por território e comida.

Um enxame feliz  a labutar na colméia ou uma choldra arruaceira .

No geral são personagens femininos. Que  poderiam ter vingado , ter levado vidas inteiras com outros pais,      maridos , filhos, amigos.

Lavradoras de unhas sujas e ventre fértil; ciganas de olho rápido e malícia brejeira;rainhas de brancas ancas e luxúria rendilhada; lavadeiras de braços atrevidos e regaços amorosos; pintoras com dedos de terebentina e azul cerúleo ; freiras de contas ao colo e bocas de  Aveiro ;loucas de rasgar vestes e dançar nos pátios ; professoras em cilício intelectual e acervo a zelar; cantoras de veludo em voz; bailarinas  em pontas de sangue ; desenhistas de formas paridas; atrizes de vigorosas falas e rugas de amor à arte; andarilhas de dolorosas pernas azuis  e fardo esotérico; médicas de corpos padecidos e almas estilhaçadas; pianistas de braços graciosos ; cozinheiras de paladar angelical;magas de ervas e receitas ancestrais .

Eu posso viver tantos papéis, alimentar quantas famílias eu queira dentro de mim (ou no mundo real, se for preciso.)

Perigoso?

Instinto de sobrevivência ,  talvez.

Temo o que  tenho dentro de mim , mas que ainda não descobri.

Será que dormem agora? Esses ladrões

de corpos ?

Quem está acordado a espreitar-me? Os do bem ou os danados?!

Cambada!

Um tipo estranho  da horda me espia e me quer sequestrar…

Há dias em que é preciso vigilância redobrada .

Esperam -me  fraquejar para oferecer seus préstimos, a corja.

Os bufões me cutucam ,cospem suas falácias ad nauseam,os  simplórios.  Me querem por na fogueira e assistir ao circo perto das palhas, esses  fanfarrões grotescos.

Como um plantel maldito a espreitar-me as vísceras sendo assadas lentamente.até eu gritar pela morte…

Quem está despertando agora para sair de mim?

Qual o louco da vez?

A mãezinha com colo quente e gorducho ou a  hárpia  caçadora e livre ?!

No meu mundo os animais também tem permissão de me habitar. Sou  o  porquinho-da-India ou a hiena zombeteira.

O olhar mágico das infância me acompanha…como diz Lya .

Um elenco me contempla e espera.

Hoje sou  a escritora  e a mãe mais que todas.

Gosto disto.

Gosto de ter isto pra gostar.

Gosto deste povo dentro de mim a me esperar.

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