Voltávamos, meu marido e eu, de um rico casamento na “terra da garoa “…

Quase a beijar o solo, o avião geme com possante voz a reclamar o esforço da gigantesca frenagem.

Não fosse o banzoque nos reclama o peito – dos filhos e bichos de casa (e de alguns amigos) , nulo seria o sentimento alegre da volta ao lar -temperado -lar.

Estranha e dividida emoção a que me toma. Comento com meu marido, ao meu lado no banco da aeronave, a sensação de iguais deleite e ligeiro desprazer ( será uma nesga dela pela volta à rotina?) de chegar numa terra onde não temos raízes, onde estamos há 12 anos, mas que não nos arrebata ; só nos facilita  e aumenta a saudade dos frios pampas.

Estranho– digo a ele- sinto que estou CHEGANDO SEM DE FATO CHEGAR…

Ele aquiesce com olhos compreensivos e melancólicos. Sabe exatamente do que estou falando!

Sem dizer nada, manda uma mensagem   calada, onde leio : calma , falta pouco…prometo que isto logo vai mudar.

Mais não vou esmiuçar, sob o risco de parecer ingrata à terra ensolarada ,

de povo alegre e irreverente , que do seu melhor jeito nos acolhe. Pode não ser o nosso jeito. Mas é um jeito expressivo e único de ser.

Cariocas são seres de leveza amplificada , que me confundem a noção de certo e errado.

Me esfregam , gota a gota, dia a dia, o mar de espontaneidades e gaiatos descompromissos , vivendo sem medo do suor, do engarrafamento, do pivete do dia seguinte.

Ah, como às vezes eu queria ser e sentir um pouco assim !

Mas aí não seria EU.

Carlos Drummond de Andrade resume em seu verso célebre o sentimento da minha chegada…E AGORA JOSÉ?

Chego pra vida que tenho, para as vidas que fiz, com meu  João- de- Barro  e para o lar  que guardei,

]

enquanto ele moldava o nosso ninho com a palha,o esterco seco e o barro, carregados no bico em tantos anos de construção.

O avião aterriza.

Deslumbrada com a vista sem igual, à aproximação  do aeroporto Santos Dumont,sorrio tristemente.

Uma chegada com sabor agridoce …

Será mesmo necessário tantos movimentos de partidas e chegadas para enfim sermos felizes?

Não haverá fórmula mais simples e fácil?

E agora João-de-Barro?!!

A saudade de um futuro que nos aguarda me invade – se é que isto faz algum sentido – enquanto serve de  estopim,  de  golpe  de   espora , de tônico para continuarmos aguentando chegar  sem chegar e que cada vez mais  isso possa  DOER   SEM  DOER  TANTO.

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