Lia Saramago quando recebo o convite para o8 ° Encontro da

Família Bondan, a realizar-se em outubro, na cidade de

Farroupilha, no RGS.


Serendipity de novo ?!!  Sincronicidade?


Na sua crônica “ RETRATO DE ANTEPASSADO “ ele escreve:

Nunca fui afecto a essa vaidade necrófila que leva tanta gente a pesquisar o passado e os que passaram, buscando os ramos e os enxertos da árvore que nenhuma botânica menciona- a genealógica.”


Continua assim … “ Por mim, nada me incomoda saber que para lá da terceira geração reinam as trevas completas. É como se meus avós houvessem nascido por geração espontânea, num mundo já todo formado, do qual não tinham qualquer responsabilidade :

o mal e o bem eram obra alheia que a eles só competia tomar nas mãos inocentes.”

Toda a praticidade de um Saramago sem amarras, pudores ou

necessidade de agradar.

Acho engraçada a observação do escritor e me delicio com a

expressão “ vaidade necrófila “,o que não significa ,

necessariamente, que eu concorde com sua boa dissertação

ou compactue com seu desprezo à botânica genealógica.


Confesso ler com ligeiro prazer e orgulho, o convite simples  recém

chegado às minhas mãos , todo em preto e branco, apenas ornado com

um simpático e pertinente desenho do brasão da família .


…Os descendentes de Pierre Bondan e

Josephine Sauthier , seus filhos Maurice ,

Louis Cézar , Prospère , ( meu bisavô ), Jule

Cézar , Camille , Paulo, Stéphany , Pedro e

José …convidam suas famílias para o OITAVO

ENCONTRO DA FAMÍLIA BONDAN.


Pierre e Josephine  Bondan – OS PIONEIROS

Em 1875  ,Pierre Bondan  – então com 67 anos-   seu filho Pierre,

com 36 anos, acompanhado de sua esposa Joséphine Sauthier e dos

filhos Maurice, Louis, José Prospère, Jules César e Camillo,

deixam a aldeia de Saxon, no Cantão de

Valais-Suíça e imigram para o Brasil…



Vejam esta maravilha  de cenário  !

devido à miséria e à  fome que tomavam conta

da Suíça ,

(Luto com Monstros Gicantescos em troca de comida !!! )



buscando  aqui melhores condições de vida

(pensaram que eu descendia da nobreza européia?  Sou uma plebéia , mas

casada com um descendente do Visconde Pinto da Rocha . Meu pedigree

está na alma lutadora e forte !)


Vieram a fixar-se no Rio Grande do Sul ,

onde euzinha nasci.



“ As bagagens e pertences são colocados sobre

carretas e mulas e é iniciada uma longa e

penosa marcha até as terras conhecidas,

através de estreitos caminhos abertos na mata

virgem.  Faziam três meses que haviam saído

do Valais . “( que dureza!!!)


( livro )

Soube disto há menos de dez anos atrás e,

desde então, não parei para pensar se isto

mudou alguma coisa em mim. Lembro de ter

ficado fascinada à -época- por ser bisneta de

destemidos imigrantes suíços.Sempre gostei

de história e não sabia sequer a minha

própria.

Um dia tinha que chegar em que contaria essas coisas. Nada disso tem importância, a não ser para mim. Um avô berbere, um outro avô posto na roda( da Misericórida), uma avó maravilhosamente bela, uns pais graves  e formosos…que mais uma genealogia me importa? a que melhor árvore poderei encostar-me? ” termina Saramago. ( Do livro A BAGAGEM DO  VIAJANTE )


Como ele fico a pensar e a tentar descobrir em

QUAL ÁRVORE  PODEREI ENCOSTAR-ME ?!!

Fico a brincar em pensamento com saias em

roda , sujas de tanto brincar embaixo dos

abricós da aldeia de Saxon…


a colher frutos maduros e noutras horas a

ajudar a moer grãos e a cuidar das verduras,

ao lado das matronas senhoras.



Trechos do livro sobre a família Bondan :


[…] Nós organizamos uma sociedade suíça para construir uma escola, um cemitério,um socorro mútuo* e uma igreja.

Temos um fundo de 250 francos.

*Socorro Mútuo, eram sociedades com o fim de auxiliar financeiramente o associados através de empréstimos. Um princípio oriundo da filosofia do cooperativismo dando posteriormente surgimento às caixas econômicas e bancos agrícolas mercantis.

(…) Caro irmão. Pego a pena para te contar as

tristezas de mim e de minha família. Minha

esposa está doente de um parto desde o dia 03

do mês agosto passado…





(…) Quando teve que buscar a parteira Isolina

Bondan , em noite de cerração e “escura como

um breu”, tendo a parteira caído num

penhasco com a mula que  a transportava.


(Memórias de Minha Vida, Ed.1998.p.24)



Continuo encostada na árvore dos meus

pensamentos…agora a socorrer a parteira,

levando-lhe água de beber. A mula , tadinha,

toda esfolada , foi posta de pé novamente para

continuar a jornada.

Mula Lisa


Me transporto agora para a cena do parto ,

embora não queiram a bisbilhotar e a

atrapalhar o ir e vir de panos e bacias, uma

criança mal saída dos panos de bunda.

Se não me querem ali, ponho-me dali para o

chiqueiro a brincar com os leitõezinhos no

quintal.

Les Misérables : Jean Valjean, Fantine e Cousette

E a escutar os gritos que vem de dentro da casa

da pobre criatura a dar a luz.


Toda uma fantasia se projeta na tela da minha

vida , agora mais colorida pelo passado de

pobreza, de sofrimento, de gente tenaz,

desbravadora, pioneira em um solo

estrangeiro …a lhe desvendar- a facão- os

mistérios da geografia, da botânica, do clima.



 

Reverencio meus antepassados inglórios e

gloriosos .

Família de Maurice Bondan

A eles, rústicos e audazes aldeões suíço-

valesanos, personagens do meu passado

recente , a homenagem tardia e amorosa de

uma Bondan que trilha ainda em carretas

e mulas imaginárias , cruzando temerosa os

estreitos caminhos na mata virgem da

sua memória quase perdida , rumo à

sua recém encontrada história, à  qual

tenta-modestamente- acrescentar alguns

ensolarados capítulos…


A que melhor árvore poderia eu encostar-me

senão nessa…na  família que possuo  e que me

forneceu a base de tudo que tenho e sou ?!!


Meu pai, mãe, filho e eu no segundo encontro da Família Bondan , em Farroupilha-RS

Fico devendo a Saga dos Fernandes,  minha metade  portuguesa, pela parte de minha  mãe !

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