Que bom que a gente não tem o roteiro do dia

que vai viver !


Se fosse ao contrário, duvido muito da nossa sanidade e

capacidade de suportar a carga das pré-ocupações da mente.


Hoje acordo especialmente contente…porém,mais cedo que o

normal,por escutar “sons estranhos ” vindos do quarto de

Leonardo, meu filho especial .


Apresso o passo ainda sonolento até sua cama, onde confirmo a

suspeita de que uma crise convulsiva está em curso naquele exato

momento.


Procuro confortá-lo com toques suaves de dedos, palavras baixas e

ternas…


impotente, como sempre nestas horas, a espera do fim do

espasmo… que chicoteia o corpo ,reclamando-o para si.


Luto , sem muita paixão, pois sei que a vitória é sempre dele…este

tirano solapador dos sonhos quietos.


Quando finalmente o bandido se vai, cubro o corpo agora suado e

extenuado do meu filho, que repousa pesadamente, reclamando de

volta, a paz recém-tirada .


Resolvo ficar de pé, afinal, daqui há meia hora já teria que estar

acordada de qualquer jeito.

Dou comida aos gatos,


recolho o jornal, preparo um achocolatado

para os filhos, reviso a mochila de Leo, escrevo um bilhete para a

escola. Dou um reforço no desjejum de Leonardo, pondo uma dose

extra de anticonvulsivante na fatia de bolo, para evitar futuras

convulsões.

Leo sai e meu dia começa pra valer.


Tomo um café,como uma torrada integral com queijo branco e

geléia de damasco e ameixa.


Distribuo, como sempre, dois ou três

pedaços de queijo branco( seguidamente, com geléia!!!) para cada

cadela ,que a estas alturas me “secam “

a espera do pet-breakfast.


Dou remédio para os velhos ossos de Bolinha Maria, a mais idosa

das três, e uma porção extra de

queijo…seu prêmio por ser tão obediente e facilitadora desta

tarefa.

Me despeço do outro filho que vai trabalhar, decido o cardápio do

dia e saio para a minha TERAPIA ,



carregando o veú , a saia , os brincões , o lenço,


todo o paramento



da minha  abençoada Dança-do -ventre.


Almoço rapidamente na academia com a amiga Renatinha e vou

pra casa.

Tomo banho e vou para o salão fazer a manicure e pedicure.

Delícia!!!


No início da pintura da mão, o celular me assusta na voz da

diretora da escola de Leo. Diz que durante o passeio escolar –

programado há uma semana- ele literalmente “apagara” na grama ,

antes de ser colocado no “Pace Car “, que os acompanha na

jornada para eventualidades.


Ela segue para o Hospital com ele e mais dois professores e eu saio

com uma mão e meia pintada de lilás do salão, em disparada

ligando pra empregada pegar na escrivaninha a carteira do plano

de saúde.


Com a dita em mãos,adentro a emergência e descubro meu polaco

semi-consciente, lutando para acordar, mas dando porrada na

grade da cama do ambulatório com a perna-guindaste! Uma

tonelada de coxa, 500 k de banha e os outros 500 de músculos

jovens e dispostos.


Não, ele NÃO gosta de passar despercebido ! Não é seu estilo !

O segurança vem atrás de mim pedindo para eu retirar o carro da

frente da porta ,enquanto eu falo com a médica e mando a

enfermeira tirar o “butterfly” da veia do meu filho. Ele NÃO precisa

de soro…só da cama macia dele e do meu cuidado.

Foi apenas mais uma convulsão e ele só precisa repousar.


Retiro-o do hospital, agradecendo à equipe maravilhosa do

colégio.

Leo é retirado da cama com rodízios porta afora ,( só faltaram os

papparazzi ) até a porta do carro , a estas alturas já posicionado

bem próximo à saída de novo.


Está todo urinado o pobre!

Dirijo com cuidado, só então reparando no estado indecente da

minha mão esquerda…duas unhas borradas e três quadriculadas,

achatadas pelo corre-corre. Va bene!


O pé…bem , o pé havia saído da água do molho pingando pra

sandália e com ela pra fora do salão… à toda , sem cutilar ,

logicamente!

Ponho o cara  na sua cama , coloco a fralda e o deixo quietinho

dormindo.


Tudo quieto na casa.

Ligo para o médico neurologista e descubro que foi apenas uma

super queda de pressão( após uma segunda convulsão, bem

explicado !) , devido ao medicamento extra e ao calor na cachola ,

provocado pelo passeio colegial.

A casa permanece em silêncio . Ufa!

Resolvo adiantar o retoque da raíz dos cabelos e preparo a

gororoba pra passar nos infames e indiscretos fios“brancos”, que

audaciosamente insistem em ressuscitar de 15 em 15 dias.


Troco umas palavras com a Jô pelo MSN e saio em

disparada, pois a tintura está oxidando no banheiro à minha

espera.


Estou retocando- com cotonete – o topete e o “bico de viúva”,

quando meu marido liga.

Leo, neste momento, adentra o quarto vomitando minha cama

toda e as almofadas. (Hum, o almoço estava bem

balanceado…feijão, arroz, cenourinhas, espinafre,bifinho…)

Digo pra ele ligar depois, tentando disfarçar o sufoco ,pois ele de

nada sabe ainda.

Socorro o meu alemão e o ponho de volta na cama.


Corro para o banheiro pra tentar pintar a lateral da cabeça.( ok,

amanhã eu faço  algumas mechinhas loiras !) ( e tento arranjar

horário para a manicure e pedicure de novo )

O telefone toca de novo…o marido tem um radar, cruz credo!


Insisto que estou deveras ocupada e desconverso aparentando

total tranquilidade e controle das minhas emoções. Na verdade, a

tinta deu o toque cômico que amenizou a seriedade da situação.

Lavo a cabeça no tanque e corro pro telefone pra contar o episódio

hospitalar.


Quando vou pentear o cabelo descubro uma mancha castanho-

acinzentada na bochecha e percebo a meia mão– que estava com a

pintura das unhas intacta premiada com vários borrões , com a

nojenta da tintura 6.1 de cabelos.


Resolvo preparar um descolorante para retirar as manchas

escuras,

pois na última vez ,queimei a testa com a água sanitária

que apliquei por tempo demais, na tentativa de limpar a sujeirinha

da tinta.

O telefone toca mais uma, duas, três vezes. Só rindo !

A diretora da escola querendo saber do Leo  e depois,  Renatinha ,

me cobrando  o número do telefone da minha esteticista.

Ah, e o marido… agora mais ” cabreiro” do  que nunca com as

minhas evasivas.


Leo agora está bem melhor, vai à cozinha, toma muita limonada e

come doce de batata-doce ( aproveito pra por os remédios).

Ponho a fralda no meu homem-menino , recoloco-o na sua cama e

diminuo a luz do quarto.


Boa noite anjo loiro!

Boa noite anjo da Guarda ! Daqui pra frente é

contigo!!!

Quanto a mim…vou acabar de escrever este artigo e dormir.

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