Chegamos  no domingo.
Mais plenos  do que saímos.
Como é difícil abandonar o sonho . Aquele pedaço de chão  ainda cru, pulsando para ser semeado , habitado.
Nossa energia está lá. Nossa esperança de um futuro mais abençoado e prolífero…
O sonho tem nome… ” La  Madrecita “.
A pedra fundamental   está lançada. Quatro pedaços de vida… quatro jovens  árvores são plantadas , por idéia de meu marido. Uma para cada membro da nossa família.
Escolhemos a esmo, cada uma das nossas filhas.
No Brasil,ao  pesquisar sobre as nossas opções encontro, sem grande surpresa, a parecência delas com cada um de nós. Intuitivamente havíamos escolhido árvores com características semelhantes às nossas próprias.
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Escolhemos  uma Acácia Amarilla para  ser a árvore do Leonardo. Ele não estava lá , mas tenho certeza de que aprovaria. Uma árvore de folhas lindas , mesmo tão jovem. De um verde esbranquiçado, folhas bem definidas,  enérgicas, cheias de vigor, como nosso alemão.
Não cresce muito, não  atinge mais que dois metros de altura , mas suas  magníficas  flores amarelas  enfeitam e iluminam como uma chuva de ouro… É uma ótima cerca-viva… sedutora se alastra fechando, com sua beleza envolvente, os espaços vazios , assim como costuma fazer o nosso Leo.
Árvore sagrada no antigo Egito, a Acácia representa  a  pureza e a imortalidade …é o símbolo da ressurreição. Diz-se que sua madeira foi usada na confecção da cruz em que Jesus foi crucificado.Dela também foram feitos a Arca da Aliança, o altar dos holocaustos e a mesa dos pães propiciais. Tem espinhos, fiquei sabendo, uma  referência , talvez,  à coroa usada por Nosso Senhor  e aos  muitos percalços que tenhamos que passar com nosso amado e  especial filho.
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Planto  meu Lapacho Amarrillo ao fundo do terreno , próximo de onde será construída a casa grande. Uma árvore linda, altamente decorativa , vulnerável, ameaçada de extinção, assim  como eu… e com propriedades medicinais  muito utilizadas pelos índios.
Meu Lapacho, ou Ipê Amarelo, que  em tupi-guarani significa “casca grossa” , não deixa de ser uma referência à minha  falta ocasional de polidez,à  minha teimosia ,ao meu modo franco de falar,  meu jeito meio estúpido de amar…também à minha fortaleza, solidez  e tenacidade,embora corra  sempre uma seiva de doce de leite dentro dos meus veios e entranhas.
Suas raízes são vigorosas e profundas…as flores, por sua exuberância ,atraem abelhas  e  pássaros, principalmente os polinizadores beija-flores. Sua ocorrência  natural  dá-se em matas, escarpas e beiras de rio. Madeira de grande durabilidade e resistente ao apodrecimento, como eu , que , entra ano , sai ano, teimo em permanecer saudável  e bem disposta.
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Alexandre escolhe um Cipres Calvo, uma conífera  natural das regiões pantanosas do sudeste dos EUA  . Cava, põe  terra boa e adubada e o  planta.
Como ele , que nasceu num lar , onde as atenções  são notadamente  voltadas para o irmão deficiente, o Cipres  nasce em terreno difícil, pantanoso, mas constitui uma árvore de porte simétrico e majestoso, com base sólida e larga.
Corpulento,pode chegar a medir quarenta metros  e suas raízes,  com freqüência, afloram do terreno . Madeira  duradoura,de excelente qualidade, como ele… um homem forte por dentro e por fora.
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O Pinus Halepensis escolhido por meu marido fica junto à cerca , na  divisa com o vizinho.
Um pinheiro  originário do mediterrâneo, muito utilizado como quebra –vento.Uma árvore com serventia, prática, bem ao estilo do meu marido.Simples como ele, nasce em terrenos pobres de montanhas e é de fácil adaptação ao meio ambiente.     Uma madeira operária,generosa …seus troncos  servem para  postes de construção, cercas e lenha…pau pra quase toda obra, como kadado. Resistente ao frio, ao vento salgado e à seca, é  moderadamente tolerante ao fogo…uma super madeira  tal qual meu super homem.
Emocionado ele  beija em silêncio amoroso  e energiza  cada  uma das árvores, ao final do plantio. Sigo seu gesto e murmuro  uma prece em voz baixa, parando por alguns segundos   em cada uma delas.
Regamos com um litro de água mineral cada uma das nossas filhas queridas e nos despedimos, dando uma  última  e furtiva olhadela ,com os olhos cheios de saudade e contando – agradecidos- que a natureza faça a parte dela. .
Temos certeza que vingarão.
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