Arrumo a mala para a viagem.
Vamos à Punta  ,  depois de amanhã, meu marido, meu filho Alexandre e eu.
Vamos dar início ao nosso sonho. Precisamos contratar uma construtora para começar logo a construção da nossa futura morada em terras uruguaias.
Três saias –étnicas pra variar -muitas blusinhas, uma calça jeans preta  (stretch ,pra ter certeza de que vou entrar nela na ida e também na volta ),uma jaqueta branca, um casaco de plush negro, uma jaquetinha com capuz prata , um colete branco  de fio, para mudar a cara da roupa  . À noite a temperatura  quase sempre cai bastante- coisa  que adoramos – apesar de que será  início de março  ainda.
Contando com isto ,separo uma bota de cano alto berinjela. Pra dar sorte e atrair o friozinho.
Que isto não traga azar, espero eu ,como acontece com meu marido sempre que viaja ao exterior no inverno e leva seu trench coat  com forro de lã removível – o que torna o casaco gordo e pesado- e volta sempre praguejando  contra a inutilidade do maldito forro quente, um entulho totalmente dispensável dentro da mala , devido às condições do clima vigente.” A maldição do forro xadrez”, declara ele entre risos.
Não posso esquecer que ainda faz bastante calor de dia e a praia é sempre uma boa opção.
Um biquíni , um caftan  ,um par de chinelos de dedo branco e um filtro solar para o rosto, que vai ter que servir para o corpo todo também. Não é possível  fazer uma mala enxuta, tendo que levar produtos específicos para cada parte do famigerado e  sedento corpitcho.. . muito  mais exigente agora ,depois dos quarenta, cinqüenta.
Retorno à separação dos sapatos, parte mais enjoada da tarefa  , pois não há maneira possível de reduzí-los drasticamente, sem  prejuízo da composição  equilibrada e fashion  das peças de roupa levadas. De difícil acomodação, estes lindos miseráveis, indispensáveis  espartilhos dos nossos cada vez mais frágeis e sensíveis pezinhos  ,tomam grande parte das malas do mulherio mais animado.  Faço aqui um parênteses  para saudar o  já distante tempo em que eu nem percebia que tinha pés…não me recordo de  procurar sapatos confortáveis  á época da adolescência.
Bastavam ser bonitos e variados. Hoje, mesmo após uma hora de indecisões ,experimentações , andando  freneticamente  de um  lado ao outro da loja , sob o olhar atormentado do pobre  vendedor, acabo comprando verdadeiros  objetos de decoração, que só entulham minha já sofrível  e abarrotada sapateira.
Outro fato muito irritante, realmente  perturbador  , é o fato das malhas de ginástica e meias  deixarem marcas das suas costuras  e elásticos por  muitas horas nas nossas pernas  .
Chego da academia às 10-11 horas  , tomo banho , almoço , me arrumo , ponho uma saia e pimba- quando olho lá estão eles , os desgramados sulcos , vincando  minhas agora bronzeadas pernocas, dando uma bandeira danada da vestimenta usada anteriormente  àquela.  Quando jovens,estas marcas cedem rapidamente, graças ao turgor da pele, plena  de colágeno e elastina. Agora, no entanto, tenho que circular  durante horas a fio com  estes hieróglifos malditos nas minhas panturrilhas e laterais  das pernas,enquanto as três míseras proteínas de  colágeno e as duas caquéticas  fibras elásticas tentam fazer o seu trabalho…de bengala.
A decrepitude da pele , sua diminuição gritante   de elasticidade, é um lamentável  tormento para as  mulheres mais maduras, se me permitem observar.  Uma vez alguém me disse, acho que foi um médico,  que os seres humanos no envelhecimento  desidratam.  Não estou velha, portanto, apenas um pouco desidratada.Quem sabe tomando quatro litros de água por dia não recupero o frescor desgarrado no pasto  da minha vida!
Sou solidária a todas as  mulheres nesta hora . Mulheres maduras, uni-vos ! Que a galopante desidratação, a  falta de tônus, não nos oprima  demasiado , nem reduza nossas chances de felicidade. Um brinde à cuca boa , ao olhar contemplativo das coisas e às sacadas geniais das nossas idades !!!
Lembro agora de separar a roupa da viagem. Um confortável sarouel e uma camiseta de malha. Rasteira ou salto? Hum, me decido por um tamanco com salto anabela de corda.Pensando bem, vai ficar meio brega. A rasteirinha é opção mais segura.
Por conta do atual peso, não posso dar-me ao luxo de levar a calça jeans desejada, peça ultra prática, básica, pau –pra-toda-a-obra , tudo de bom.  Jeans salva ou jeans enterra, minha amiga! Tem gente que não nasceu pra carregar um jeans . Talvez eu seja uma delas, embora minhas amigas me desmintam ou falem só pra me agradar.
Pois é. Ódio mortal de mim…
Ah, se eu tivesse permanecido na dieta da proteína começada em novembro do ano passado , a estas alturas  já teria emagrecido o equivalente a dois sacos de 5 kg de arroz agulhinha…Mas não.
As tortas me acenavam e eu ia lá puxar papo.
O bolo de chocolate  botava a língua preta pra mim e eu de raiva  o devorava num bocado só. A maionese , o risoto, a lazanha  me bolinavam e eu cedia à sua lascívia.
Debocham de mim agora todos os croissants, pães com manteiga,quiches, sorvetes com as mãozinhas na cintura e rostinho de lado.
Ainda vou ter meu dia de revanche de mim mesma! Deus é Pai !
Lavarei minha honra e jurarei como  Scarlet O´Hara  “ nunca mais  passarei fome de jeans !”
Inveja lascada – porém branca- das minhas amigas poderosas que desfilam confortavelmente dentro dos seus transados jeans. O skinny então, esta aberração, uma calça brochante, impraticável  para quem tem pernas grossas como eu.
Deve sair logo de moda, não é possível. Tomara, tomara, tomara!
E o que dizer então da odiosa volta triunfal da minissaia e do shortinho?!
Haja saúde, boa circulação ou um bom angiologista.
Ainda bem que  o bom senso da minha idade não  me permite mesmo.Tô pouco  ligando .
Completo a mala com um cinto, lingeries e uma meia fina para usar com a tal bota.
Já fechada, lembro-me que falta a camisola de dormir.
Sem pestanejar,  pego  uma do conjunto de três de estimação…de algodão, fresquinha, cavada e comportada, minha querida camisola de Piu Piu.
Falo alto com voz de criança retardada: “ Piu Piu quer viajar com a mamãe ?! ”, enquanto ajeito a dita na repartição frontal da minha mala.
Meu marido, de costas pra mim  ao computador,vira-se , reconhece a cena e bota pra rir.
Um homem bem humorado , educado e que me ama apesar dele -o Piu Piu. Não fosse assim já teria incinerado todos os meus panos de passarinho, verdadeiros pesadelos para um  homem saudável e sexualmente ativo.
Reconsidero.
Num esforço, abrindo mão do meu conforto em prol da manutenção do meu casamento,mas não sem um muchocho triste, retiro, pesarosa, a peça amada , devolvendo Piu Piu corta-tesão à gaveta  e aos seus dois maninhos e  a substituo por uma camisola vermelha com pois brancos ,de liganete com renda no decote.
Pronto. Matrimônio a salvo!
Desculpa amiguinho…
Nos vemos na volta.

(   D. Bondan  em    28-02-2010 )

Anúncios