Cristina acorda cedo, despacha os filhos pra escola,dá uma passada de olhos pelas manchetes do jornal … Estatísticas de votos assustadoras, habeas corpus pra mais um bandido, atrasos de voos por falha das companhias, proibição dos lixões ( tomara!!!),revelação corriqueira de que a  máfia de taxistas tem ajuda de PMs …aquele intragável blá blá blá !
O único alento lhe vem da pequena foto  outonal, mostrando o colorido ímpar das folhas das amendoeiras , atapetando , languidamente, a Praça Paris,  na Glória.
Volta pra cama tentando recuperar a noite insone.
Acomoda-se embaixo do edredom macio,deixando escapar um gemido leve de puro prazer . Melhor que isto, só aquele dia em  acorda esbaforida, pensando estar atrasada e já bolando  uma desculpa mirabolante pra se  safar  de uma saia muito justa  e ,só então, dar-se conta que é domingo…um bendito e preguiçoso dia  de descanso do Senhor !
Cristina começa a madorma … ainda consegue distinguir   o som da arrumadeira entrando no quarto ao lado, para a arrumação diária do quarto de um dos filhos.
O despertador dele dispara  e a Geralda ,simplesmente não consegue desligar a máquina maldita !
O infame  pagode agora  toca em alto e bom som , reverberando pelo corredor e chegando, com muitos decibéis ainda,ao quarto de Cris.
Desperta e fula ,ela pode acompanhar agora  toda a via crucis, todo  o tormento da infeliz funcionária , a girar loucamente os botões de sintonia e volume , sem sucesso. Com medo , provavelmente, de danificar o despertador, Geralda  resolve deixar o pagode rolando solto pelo quarto. Entenda-se : quarto de Cristina, sala, banheiro , cozinha…a casa toda envolta naquela alegria contagiante, às 7:30 da manhã.
Bem que a desgramada deve estar curtindo e , no fundo, no fundo, se vingando, porque  queria ela também estar deitada, dormindo naquele dia de  frio  invernal.
A partir dali , todos os sons acontecem e desfilam, debochadamente, junto com  suas imagens, em balõezinhos , bem diante dos seus olhos fechados…o raspar da vassoura, o coachar da água da torneira, o  mugido da janela se abrindo , o grasnado do sapólio friccionado na pia… toda uma orquestra onomatopaica conspira para o eclodir dos seus nervos à flor da  sua  raivosa pele.
Ela ainda resiste bravamente  até o último acorde , soado pelo toque compriiido da campainha da casa, anunciando a chegada, não esperada, do rapaz do conserto do ar condicionado. As cachorras agora latem, desesperadamente ,querendo sair do quarto.
Cristina entrega os pontos.
As tramóias do dia  a saúdam e , enfim ,  se regozijam à sua levantada derradeira.
( D. Bondan em 3-8-2010)
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glossário:
madorma – termo gauchês para sonolência
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