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Debondan's Blog

E sigo na dança…com a poesia que tudo salva.

MINHA VIDA DE PÁSSARO

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Dei-me conta dia desses…

Que foi no meu plano de voo rasante que aconteceram minhas maiores conquistas. Foi quando voava baixo, abrindo as matas no bico, molhando os pés e as penas nos rios e nos mares, que construí minha pequena vida. Nas alturas eu planara vendo a paisagem, voyer da natureza. Encantara os olhos. Enchera os pulmões, retomando fôlego. Na vida ordinária, na trajetória comum do meu voo buscando o peixe do dia é que vivenciei a grandeza de ser apenas mais um ser aqui, eu e minha historinha, eu enfrentando intempéries, sobrevivendo, sobretudo vivendo a alegria e a dor de construir meu ninho na terra.

Passarinhar é bom.

É bom passar e ar.

Pedra-Garganta do Céu

Somos Invisíveis

IMG-20150907-WA0003Segunda-feira.Dirigia rumo à academia, em velocidade considerável porque estava em cima da hora da aula de MMA, minha nova moda e “paixão”. Entre aspas porque meu corpo, que está com dificuldade de reagir às muitas técnicas de emagrecimento aplicadas no último ano, tem dado sinais de vida desde que comecei esta nova modalidade esportiva. O corpo, planeta inabitado e infértil às múltiplas investidas e aos experimentos nutricionais e funcionais, parece ter acordado com um belo soco na barriga. A gente pena, morre e sai se sentindo renascida de cada aula, trôpega, mas insuflada de serotonina. Táticas de guerra, my friend! O famoso “se não vai por bem…”

Como estava dizendo, seguia lépida e fagueira à aula de MMA, pensando com antecipada alegria que estava indo queimar o montão de costela gaúcha do churrasco do fim de domingo, o pão de alho, o vinho, a linguicinha, o pudim, o chocolate pascal, todos os males autoinfligidos à minha pessoa no banquete da véspera, QUANDO um golpe de dor me estrangulou o peito, subindo à garganta que se fechou em nó. Uma dor de saudade veio com a velocidade dos céus cortados por um raio, um choque de doída voltagem no meu corpo tão distraído. Uma inclemente vontade de abraçar meu filho Leonardo me pegou assim de surpresa, como uma cutucada saída de outra dimensão a importunar minha fortaleza.

Rezei uma Ave Maria, um Pai Nosso, outra Ave Maria, ofereci minhas preces à alma de meu filho, se é que ele precisa de mim, vai saber. E segui dirigindo com o nó e a oração.

Cheguei antes dos outros, sentei-me no banco perto do tatame. Os outros alunos começaram a chegar enquanto disfarçava meu engasgo dobrando o corpo para frente no intuito de tirar as meias dos pés. Nem precisava. Disfarçar, eu digo. Eu aparentemente não estava ali. Meus olhos avermelhados pelo choro não falaram nada, porque os outros não me viram.

Minhas costas curvadas não revelaram nada, porque os outros não me notaram.

Minhas mãos crispadas no meu colo em forma de oração, sequer encontraram desconfiança, sinal de reconhecimento de que poderia haver ali algo fora da ordem.

Eu não existia para eles que estavam ali ao meu lado. O telefonema do outro parecia muito interessante. A mensagem passada com total compenetração através do whatsapp parecia urgente.  Nenhum bom dia. E eu continuei com o nó.

As lágrimas caíram copiosamente durante a aula, enquanto esmurrava e chutava o saco de pancada. Solucei sem vergonha, enquanto eles gemiam alto de esforço e cansaço. Assim mesmo, éramos somente meu engasgo e eu. E o saco de pancada que a tudo assistia.

Saí aliviada. Só o professor reparou, sensível que é. Trocamos poucas palavras. Eu  agradeci pela aula-exorcismo e saí de volta à outra arena chamada “vida que segue apesar de nós e dos nossos poréns”. Impactada com a descoberta da minha invisibilidade e grata por ter sentido esta puxada de blusa do meu filho ou de quem está do lado dele.

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Teresas numa quarta-feira de cinzas

 

Hoje de manhã, fuçando as notícias miúdas do Segundo Caderno do jornal O Globo avisto uma nota falando sobre a estreia do primeiro solo da carreira da amiga e vizinha Lucélia Santos, que fará “Teresinha”, no Sesc Tijuca nesta sexta, dia 3 de março. ( Lu, olha o jabá!).

Entendo que, ao contrário do nome da peça, trata-se de obra inspirada no “Livro da Vida” da Terezona, como era chamada Santa Tereza d`Àvila, doutora da Igreja.

Curiosa, fui reavivar meus parcos conhecimentos sobre as duas Teresas, no oráculo google e acabei absorvida, divagando sobre o tema e minha própria vida.

 

 

“Passarei o meu céu fazendo o bem sobre a terra” e “Depois de minha morte mandarei uma chuva de rosas” (Santa Terezinha). Ela prometeu continuar sua missão no céu, trabalhando para o bem das almas e nunca frustrou os que confiaram em sua oração. Ainda hoje são muitos os relatos de curas, milagres e conversões realizados por intermédio da humilde carmelita.

Zoom na minha cabeça.

Em meu primeiro livro relato nossa experiência com a Santa. Na página 57 do livro “Anjo Desgarrado-Bastidores de Uma Vida Abençoada “, a propósito da ida de meus pais para Niteroi para o nascimento do neto Alexandre, nosso segundo filho, escrevo assim a respeito de nosso primogênito Leonardo, um baita guri, arteiro e muito pesado que àquela altura ainda não andava, fazendo minha coluna se encolher de medo :

 

“Não anda, mas engatinha com a agilidade de um felino.

Meus pais ajudam, paparicam e partem para o sul de novo.

Um dia após sua partida Leo ensaia seus primeiros desajeitados passos. Eu sabia que Nossa Senhora não iria me desamparar!

Conto a meus pais e eles lamentam ter perdido esta estreia. Ao saber da abençoada novidade, por telefone minha mãe desconsolada desabafa entre lágrimas: Filha, Nossa Senhora não me deixou ver este milagre porque eu duvidei.”

Ela prossegue contando da novena que fizera à Santa Terezinha, onde pedira que Leo andasse (ele já tinha 4 anos e Alexandre era recém- nascido; um complicado e cansativo par de gêmeos).

Conta-se que quando a graça vai ser alcançada um sinal é enviado em forma de rosa.

Minha mãe então me explica que, naquela ocasião, recebera uma rosa de um amigo que, sem saber de nada, lhe havia dito que fora Santa Terezinha que lhe enviara a flor. Ela pensara ter sido somente uma feliz coincidência e não ligara muito. Conta-me ainda que dias depois, terminada a missa, outro amigo aproximara-se dela e também ofertara uma rosa, inesperadamente. E que ela agradecera, mas esquecera em seguida.

Quando conto o acontecido ela desaba.”

 

Comecei esta postagem com Lucélia e acabei lembrando da fé de minha mãe e das rosas enviadas por Santa Teresinha. Assim é a vida, onde nada acontece por acaso. Tudo me leva a algum lugar ou a alguma reflexão. Sou provida de sentidos para isto. Só preciso sempre lembrar de despertá-los.

Este post não pretende fazer propaganda do meu livro ou da peça da Lucélia. Achei oportuno lembrar a importância da fé em dias tão desafiadores e desoladores, onde tantas notícias ruins nos são empurradas por todos os meios.

Senti-me coagida a compartilhar, neste contexto, meu próprio pedacinho de milagre. Uma simples nota no jornal reabilitou minha memória e minha fé que andava sentada num banquinho.

 

 

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SEJA LÁ COMO SE CHAMA ISTO

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Está chegando. Dia 2 de agosto, cinco anos sem Leo. 

Minha tristeza envelhece, amarela. Ganha um tom sépia, bonito. Talvez nunca tenha sido tristeza. Apenas isto.

Dizem que o rosto da pessoa que parte desbota com o passar do tempo. Hoje nem com isso posso contar. Tenho tantos registros: fotos, vídeos. Eles avivam, acendem minha memória e com ela a minha saudade, sempre bem atrelada. É bom, e um tantinho ruim.

Minha melancolia envelhece. Anda na frente, mais rápido que eu. Olho suas costas e me alegro que caminhe com passos tão largos.

A dor da separação não se renovou no milagre de estar bem viva. Ela me encontra, me beija e parte. Pena que tem gente que gosta deste beijo e não a deixa ir embora.

A poesia, penso, pode ser  o verdadeiro dicionário das dores obscuras.

( ver tb: Dictionary of Obscure Sorrows– John Koenig )

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Azulescer

e Richard Edward or Emil Miller (American artist, 1875-1943) The Pool 1910

Ando vazia de palavras.

Deixa-me ver. Estou sentada na frente da tela enquanto o dia febril se veste de calor e de luz, que cansa a vista de tão fora de época. O verão adentra o outono sem vergonha ou desculpa. Eu encolho de tamanho, de repertório, de modo de sentir. Me preservo, me defendo como posso, mesmo sem saber como. Mas o caminho que o corpo encontra é este. Economizando pensares, palavras. Me encolho na cama, no ar condicionado buscando ser feto que congela o nascer. Que espera. Delibera. Azulesce. Brinca de morto no útero do tempo.

Ando vazia de palavras. Por isto sentei aqui. Para ver se ainda existo. Para ver se vaza alguma palavra com sentido e capaz de explicar este lago gelado de águas paradas em que ando mergulhada. Apesar de todo o calor. Apesar.

Ando vazia.

Azulescendo.

Uma Nova Dança

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Hoje uma amiga da academia do Rio me manda mensagem dizendo que está com saudade de mim na dança. Respondo que esta semana estou dançando a burocracia da morte. E que é uma coreografia dolorosa e inevitável. São tantos pormenores para quem fica! Miudezas que são grandiosos detalhes e que enriquecem os cartórios.

Minha mãe está ensaiando passos pequenos sozinha, depois de sessenta anos no salão de baile junto com meu pai. Mas esta é a beleza da vida, penso eu. A vida, teimosa, segue e nos arrasta com ela por bem ou por mal. Viver continuará sendo uma bela e saborosa batalha diária. Viver tem sabor à boa luta, mesmo que difícil.

Hoje acordei cedo. Acabou o sono. Levanto e reparo que tudo corre bem. Minha mãe -sem dar ciência- já dorme virada para o lado da cama onde dormia meu pai. Sorrio e pé por pé ponho a chaleira no fogo para fazer café.

Penso, enquanto visto a toalha na mesa: a morte é apenas um novo início. Uma nova dança.

Bodas de Ouro Pai e Mãe 002

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Você sabe quando está muito quente quando liga o chuveiro e começa a temperar a água abrindo o registro de água fria. Você abre, abre, abre, no grau máximo de contorcionismo do punho e, como continua “pelando”, você abre devagar a fria. Abre, abre, abre, vai até o estágio final de abertura e a danada ainda se mantém “no ponto pra mais”. Então você, pacientemente, repete a manobra agora com o registro da água quente. Fecha, fecha, fecha até o fim da linha, que é quando a temperatura da água no corpo está enfim agradável. Dedinho curtindo pra cima, mil vezes!!!

Percebe então que bastava ter aberto simples e unicamente a “fria”, que nesta época do ano aqui no Rio é “morna”.

Você sabe que está insuportavelmente quente quando ao desligar o chuveiro, ato contínuo, escancara as duas portas do box para deixar entrar um arzinho do banheiro. Mas logo o arzinho está assando você que nem picanha na grelha.

Você sabe que está nojentamente quente quando precisa arrancar rapidamente a toalha que envolve os seus cabelos, para aproveitamento máximo da sensação refrescante da água no seu corpo.

Você sabe que está irritantemente quente porque, num golpe de desespero você abre logo a porta do banheiro pois está suando que nem porco no rolete. E, no auge do desatino, você que já conhece os meandros nefastos do verão carioca- se atira no quarto gelado no máximo, o ar previamente ligado para este fim.

Você sabe que está fucking hot quando tem um estremecimento de horror e desprezo ao se imaginar dentro de uma calça jeans. E agoniza não sabendo o que vestir, já que para algumas idades está fora de questão um shortinho com top. Não impunemente, pelo menos.

Você sabe que está PQPmente quente porque prefere maquiar-se no escuro, à alternativa de suportar a torturante luz dicroica queimando seu cerebelo. E até admite o look despojado, o make up “beleza natural”, pois não suporta a ideia da base escorrendo, melando seu rosto.

Esta foi uma reflexão baseada em fatos reais beirando a desabafo, obviamente sugerida por uma experiência torturante e hilária, que eu simplesmente PRECISAVA compartilhar para ficar mais fresquinha.

 

Então é natal

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Martha Medeiros  começou e eu tomei gosto pela ideia. Enquanto aparava galhos e varria folhas no quintal me pus a pensar nos meus desejos para todas as pessoas. Afinal, fim de ano é sempre fim de uma rodada. Às vésperas de uma nova partida mesmo sem planejar nos pegamos planejando, ao menos, esboçando “planos-fetos”-mesmo em nível quase inconsciente- lançando tênues ondas de esperança, para que nadem peito, abrindo águas de frente rumo ao ano que virá.

Assim: Que uma nova ideia tome corpo ( e a alma toda se envolva), que a gente dê um novo olhar, uma nova chance a alguém, que a salada tenha o peso emocional de uma lasanha, que a coluna dê trégua, que a tatuagem não desbote, que a gratidão não saia apenas da nossa boca ou do plano virtual, que o livro que precisamos ler nos caia nas vistas, que só o bêbado potencialmente assassino seja parado na lei seca, que executemos ao menos uma receita inesquecível, que acordemos para fazer nada, um dia de ócio sem culpa, que recebamos uma carta, um bilhete salvador, que a cirurgia não seja necessária, que um abraço cure, que uma dor diminua com nossos joelhos dobrados no chão, que o sapato dos sonhos encontre nosso pé, lindo e mega confortável, que encontremos uma alma gêmea canina ou felina para adotar, que realizemos um dia de desvario numa pista de dança, que enlouqueçamos numa criancice absurda de boa, que um desejo bem íntimo encontre ressonância no universo, que não matemos outro rio, que a tira de borracha da sandália não arrebente no meio da rua, que o espelho reflita uma pessoa de bem consigo mesma e com seu peso ( o que é a mesma coisa ), que surja alguém capaz de nos fazer rever algum conceito, que a comida com cheiro e gosto de infância não tope com a culpa no caminho de ser devorada, que o carro não raspe a coluna, que não encontremos o menino do sinal, que permitamos uma teia de aranha no canto da casa e a lagartixa que mora atrás do quadro, que a compulsão por doces sossegue, que a rede social não roube mais que dez minutos do nosso dia, que a chance de ajudar alguém seja percebida e levada a cabo, que um sorvete aplaque nosso cotidiano monótono, que uma oração nos acalme, que a fé nos mantenha altivos e confiantes no day after

Que o menino Jesus sobreviva ao rio de lama…e nos lave a alma. 

 

 

 

 

Bolo, guaraná e xixi nas nuvens

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No dia de hoje-2 de agosto- há exatos quatro anos atrás, às 11:10 hs ( nasci no dia 11 do mês 10, ora vejam ), Leonardo disse adeus e voltou para a casa Dele, de onde havia saído como anjo e tomado forma como um de nós. Foi acolhido, renomeado e rotulado como humano sem, de fato, nunca tê-lo sido assim, só isto, desse jeito,tão simplesmente, para nós que o conhecemos.

Nosso semideus menino me caiu no ventre, escorregado do Grande Útero, mimo de outra dimensão, de outros pais. Que honra! Fecundar um anjinho.

Hoje minha gratidão se avoluma para alcançá-lo lá onde nos espia e de onde, creio piamente, nos polvilha bençãos sempre, o safado.

Nosso amor te alcance, meu filho! 

Obrigada.

1-Feliz da vida - Cópia

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